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In startup we trust: semelhanças entre firmas novatas e cultos religiosos

Postura, que pode ser bastante benéfica durante a fase inicial do negócio, se torna delicada caso a liderança não se adapte ao custo do crescimento

Da Redação

26/10/2019 às 11h00

Foto: Shutterstock

A cena americana das empresas de tecnologia conta com uma série de figuras de liderança que marcaram sua gestão por imprimir à sua ideia uma visão muito maior do que apenas oferecer um produto ou serviço: o discurso, na maioria das vezes, sempre colocava a empresa como peça-chave para a criação de um mundo melhor. 

Exemplos não faltam: como Elizabeth Holmes, que comandou a startup de biotecnologia Theranos com a premissa de salvar vidas; ou mesmo Adam Neumann, o fundador da WeWork que sempre tratou o ambiente corporativo mais como uma comunidade do que uma empresa.  

Falando sobre a startup de escritórios compartilhados, ela tem histórias famosas sobre os hábitos muitas vezes peculiares de  Neumann e do resto da diretoria: desde o corte de consumo de carne na empresa ao evento anual feito pela companhia, em que todos os funcionários ficavam em uma região afastada da Europa em uma espécie de festival que envolvia música e momentos espirituais. 

Concorde ou não com esse estilo de liderança, é preciso reconhecer que ele contribui para que a startup conquiste dois aspectos essenciais para o seu possível sucesso: engajamento e dedicação dos funcionários para fazer com que a causa/produto consiga se expandir.  

Essa reportagem do Business Insider, na qual trazemos os principais conceitos, explica bem como esse processo acontece dentro dos pequenos negócios e como é preciso que a liderança saiba equilibrar as partes práticas e inspiracionais da empresa para que o que já foi a sua força não se tornar um problema.  

 

A mística da servidão

Lorne Dawson, que estuda Sociologia da religião na University of Waterloo, do Canadá, explica quais características são encontradas de forma igual em startups e pequenos grupos religiosos. O primeiro e mais importante aspecto é a sensação de pertencimento, que faz com que as pessoas se sintam parte de uma mesma causa e se esforcem acima da média na questão de horas extras e atividades realizadas dentro da empresa. 

Outro aspecto muito presente tanto nas empresas novatas como em religiões recentes é a liberdade para adotar comportamentos que seriam questionados em locais mais estabelecidos e com regras rígidas. Seja mudar o dress code para roupas mais confortáveis, exclusão de posições hierárquicas ou mesmo a liberdade para escolher quando e de qual lugar trabalhar. 

Empresas localizadas no Vale do Silício muitas vezes também possuem um senso de moralidade que não costuma existir em outras companhias. A missão oficial do Facebook, por exemplo, é “dar às pessoas o poder de construir comunidades e aproximar o mundo.” Já o mote do Google é “organizar todas as informações do mundo e fazê-las universalmente acessíveis e úteis.” 

Por último, mas não menos importante, outro ponto central desse formato está na figura do líder. Que, por apresentar um modo diferente de se realizar alguma atividade, muitas vezes pode ser encarado como um ser humano “diferente”, dono de um conhecimento que o coloca a parte das pessoas “normais” no mundo. 

 

Choque entre mundos 

Essa cultura mais mística começa a se tornar um problema quando ela ocupa um papel muito central dentro do negócio, o que inviabiliza a tomada de decisões práticas que são necessárias para um negócio a partir do momento em que ele ganha escala.  

E a figura do líder, que antes era essencial para o crescimento da empresa, pode se tornar um problema caso ele não tenha as competências técnicas necessárias para liderar a nova fase do negócio e, também, se ele não contar com a humildade necessária para entender que precisa estar aberto para dialogar com quem possui uma visão diferente da sua. 

A falta de espaço para debates, que em geral ocorre em cultos e jovens startups, também se apresenta um problema pois mascara aspectos que poderiam ser resolvidos de forma simples, mas são descobertos apenas quando entram em contato com o consumidor.  

Nesse ponto, muitas vezes não é nem o medo por alguma represália que impede as pessoas de fazer críticas, mas a incapacidade de enxergar as decisões da liderança de forma objetiva, sem o véu da lealdade que muitas vezes cobre a percepção dos primeiros empregados. 

A dica, válida em outras ocasiões, é o equilíbrio.