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Smartphone, NFC, WhatsApp e Covid-19: como a pandemia influencia pagamentos digitais

Formas de pagar as contas sem contato são aceleradas por uma questão de saúde; conheça outros benefícios

Tiago Alcantara

04/08/2020 às 14h47

Pagamentos pandemia
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Legenda: Durante a pandemia, uma série de consumidores passou a realizar suas compras com pagamento sem contato

Uma folha de papel costumeiramente passada entre indivíduos tem alto potencial para carregar micróbios. E, assim, a moeda em formato de papel pode considerado como um vetor em potencial de doenças como o Covid-19. Evitar esse tipo de transação é tão recomendado quanto guardar a distância de outras pessoas em um fila de banco, usar máscaras sempre que sair de casa e lavar sempre bem as mãos após contato com uma entrega.

Obviamente, nenhuma tecnologia pode suplantar a perda humana de um momento como o que vivemos. Por outro lado, é inegável que um dos ajustes feitos durante o período de pandemia — e que deve persistir quando o coronavírus estiver no passado — é a maior adoção de métodos de pagamento digitais.

Sem contato, por favor

A pandemia estimulou novos comportamentos com base em recursos que já existiam, como o pagamento por aproximação. Em teoria, esse método evita o contato entre compradores e vendedores, essencial para evitar a disseminação da doença.

“O uso do pagamento por aproximação é um recurso para você evitar o contato e um possível contágio, mas já existiam outras iniciativas da
indústria fomentando o pagamento por aproximação”, explica o diretor de produtos da Visa do Brasil, Alessandro Rabelo.

Apesar do “empurrão” dado pela pandemia, o executivo lembra que as iniciativas para popularização nos pagamentos sem contato existem há anos. “Já existiam várias outras iniciativas da indústria fomentando o pagamento por aproximação, como por exemplo os lançamentos de transportes públicos no ano passado”, lembra o executivo. Rabelo lembra que nos transportes públicos, como o metrô do Rio de Janeiro já é possível fazer esse tipo de pagamento com cartão de crédito/débito.

Vale lembrar que esse tipo de tecnologia não é novo. O pagamento por aproximação já está disponível desde 2008 para os clientes brasileiros. Por outro lado, um levantamento realizado globalmente pela Mastercard, 69% dos brasileiros entrevistados afirmaram que a Covid-19 os incentivou a usar pagamentos por aproximação.

“Esse número expressivo se dá, principalmente, pelo fato de que sete entre dez latino-americanos estão preocupados com os impactos do uso
do dinheiro em sua saúde, diminuindo assim a sua utilização. No Brasil, 14% dos entrevistados deixaram de utilizar dinheiro durante a pandemia, enquanto 63% diminuíram significativamente o seu uso”, comenta a vice-presidente de produtos da Mastercard Brasil e Cone Sul, Ana Paula Lapa

São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília são as cidades do país que registraram mais pagamentos por aproximação no primeiro semestre de 2020, segundo a companhia.

Ecossistema mais preparado

O diretor de produtos da Visa credita que o crescimento demonstrado em 2020 (inclusive na pandemia) mostra que o ecossistema de pagamentos sem contato está mais maduro.

“Para você fazer um movimento de mudança de tecnologia, não basta a tecnologia, é preciso toda uma separação do ecossistema como um todo. O que vem acontecendo desde 2008 até hoje é uma preparação do ecossistema e de aculturamento do consumidor”, afirma Rabelo.

Há também uma mudança de paradigma com novos consumidores entrando no mundo digital, comenta o gerente de pesquisa e consultoria de consumer devices da IDC, Reinaldo Sakis. “Antes, a compra digital era para alguns nichos. Para os jovens chamava mais atenção ter um cartão ou um banco sem agência, você via isso como um nicho", explica. No entanto, com boa parte da população recebendo o apoio do governo por conta digital, essa barreira pode ser utrapassada.

Segundo o gerente de pesquisa da IDC, o auxílio emergencial papo pelo governo por meio da Caixa aos brasileiros ajuda a bancarizar mais a população. Estima-se que o valor deve dar uma conta bancária para mais de 30 milhões de brasileiros. Ou seja, para Sakis, esse é um claro impacto benéfico — para além da pandemia — ao sistema de meios de pagamentos, operadoras, bancos e até mesmo no fim, com o varejo ganhando mais usuários.

“Acaba sendo um impulsionador, é uma mudança de comportamento que facilita ou impulsiona esse tipo de pagamento sem interação, sem toque. Muitas pessoas que não tinham pensando no assunto estão verificando com o banco o pagamento sem encostar na maquininha”, comenta o gerente de pesquisas da IDC.

Novos velhos consumidores

No entanto, o analista acredita que em mercados emergentes novas soluções têm um período de adaptação e que “cada mudança de tecnologia precisa ter um convencimento, ensinar e mostrar as oportunidades para todos os usuários”.

O momento também marcou a chegada de novos consumidores no mundo digital. Imagine um idoso no interior de uma pequena cidade em lockdown da Itália que precisou comprar os ingredientes para sua massa em um e-commerce pela primeira vez. Apesar da situação ser hipotética, o cenário tanto de pandemia quanto de compra e pagamentos é real.

Localizando a mesma ideia em um local mais próximo da nossa realidade, a América Latina viu um crescimento nas compras online. Os dados são de uma análise realizada pela Visa Consulting & Analytics (VCA). Assim, o levantamento aponta que, quando comparado às médias de janeiro e fevereiro de 2020, o número de transações de e-commerce realizadas em maio pelos consumidores da região da América Latina e Caribe subiu 6% na categoria de gastos essenciais. Ou seja, nos setores de alimentos, mercadorias em geral, despesas médicas e supermercado.

Em março desse ano, a Visa ainda aponta que 5 milhões de cartões brasileiros fizeram a primeira compra num e-commerce – ou a primeira compra nos últimos 15 meses – provavelmente, por conta do isolamento. Ou seja, é possível sugerir que o período marcou um aumento de compras realizadas online em relação às transações presenciais.

O "normal" dos pagamentos digitais

Resta saber se os novos hábitos digitais irão se manter. Ao que parece, os consumidores nacionais estão abertos para essas novidades.“Em relação ao futuro, os brasileiros esperam por mudanças significativas nos próximos 10 anos: 42% esperam que as lojas não aceitem mais pagamentos em dinheiro e outros 27% esperam poder realizar pagamentos por meio de seus assistentes virtuais”, explica Ana Paula Lapa, da Mastercard Brasil.

O levantamento da marca ainda revela que 55% dos entrevistados esperam que até 2030 todas as transações financeiras sejam realizadas em tempo real. Entretanto, ainda há espaço para crescimento. “A indústria ainda tem muito espaço para crescer em penetração de mercado e as novas formas de pagamento irão auxiliar nisso”, argumenta Lapa.

Ainda assim, é cedo para cravar que a moda de fazer pedidos online na pandemia e experimentar novas formas de pagamentos vai se manter. Uma dessas novidades pode contar com a ajuda de um “velho novo” recurso disponível no mercado nacional, o celular.

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Dá para dizer sem tanto medo de errar que é mais fácil convencer uma pessoa de que o dinheiro em papel é um risco para a saúde do que fazer alguém largar o smartphone. Em especial, na hora de fazer suas compras. Talvez por isso, podemos dizer que não foi só os pagamentos por cartão que cresceram durante esse período de pandemia, o uso de recursos como o Samsung Pay, carteira digital da fabricante de eletrônicos também teve aumento.

Nos últimos meses, a marca indica um aumento em diversas frentes: número de usuários cadastrados, transações médias diárias e cartões registradas. No entanto, o gerente sênior de conteúdos e serviços para dispositivos móveis da Samsung Brasil, Bruno Costa explica que essa tendência de crescimento começa em 2019.

Além disso, no ano passado, o Samsung Pay teve sua base de smartphone Galaxy compatíveis ampliada.

“O momento atual não só intensificou mudanças significativas nos hábitos das pessoas, como também reforçou a presença da tecnologia em diferentes contextos do dia a dia, profissionais ou pessoais, consolidando o smartphone como um verdadeiro centro de recursos e serviços”, explica Costa.

Manda um trocado no WhatsApp

Se o smartphone é um dos itens essenciais para o dia a dia, capaz de abrigar não só o conteúdo pessoal como também seus métodos de pagamento, o que dizer do app mais popular entre os brasileiros?

Além de um aumento da bancarização, o período de pandemia também viu a chegada de uma novas possibilidades de pagamentos. A envio de dinheiro por meio do aplicativo de mensagens WhatsApp foi anunciado em junho. O serviço foi suspenso por determinação do Banco Central (BC) e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A autoridade principal na gestão da política econômica do país afirma que o serviço depende de uma autorização prévia para funcionar. Assim, a suspensão dá aos técnicos da entidade o tempo necessário para demandar os ajustes necessários que tal serviço operar. Em 2019, o app tinha uma estimativa de 120 milhões de usuários ativos no Brasil.

Mudança inevitável

Na opinião de Reinaldo Sakis, do IDC Brasil, esse tipo de novidade tem um potencial positivo. O analista vê como normal esse tempo de ajuste e regulamentação e aponta que essa modalidade deve ser um caminho sem volta.

Por outro lado, colabora o perfil dos consumidores brasileiros de adotarem novas tecnologias de forma rápida e os números expressivos do mensageiro no país. Dados da pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box apontam que o aplicativo está instalado em 99% dos celulares do Brasil, com 90% dos usuários trocando mensagens por meio do serviço.

“A bancarização potencial quando qualquer usuário de WhatsApp puder transferir dinheiro por uma simples mensagem é exponencial”, explica o gerente de pesquisa e consultoria de consumer devices da IDC. “É uma explosão de possibilidades para serviços, pequenos comércios e até para uma ‘formalização’ muito maior do Brasil. Abre um leque potencial imenso de inclusão para novas formas de pagamento, para que empresas sejam mais oficiais, diminuam os números de trabalhadores informais, dentre outras possibilidades”, argumenta Sakis.