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Precisamos de uma nova internet. E Vint Cerf, Tim Berners-Lee e Al Gore já têm uma ideia do que precisa ser feito

Na digital da Campus Party, profissionais debateram sobre as mudanças que precisam ser feitas na web para torná-la um lugar melhor. Em vários sentidos

Mônica Wanderley

13/07/2020 às 10h00

Foto: Reprodução/ YouTube Campus Party

Já faz algum tempo (não muito, na verdade) que a rede mundial de computadores deixou de ser vista como um lugar de compartilhamento e novas ideias e passou a ser olhada de forma mais crítica por pessoas, governos e empresas.  

O motivo não é segredo: amplificação de discursos de ódio, campanhas de desinformação e a explosão das fake news tornaram o ambiente on-line, antes encarado como um espaço na maioria das vezes sadio, uma espécie de campo minado, onde é necessário  prestar bastante atenção nos cliques realizados e conteúdos vistos. 

Apesar de o cenário atual não ser lá muito positivo, não significa que não existam pessoas que estão trabalhando para tornar a WWW um lugar mais simpático à opinião pública. Estamos falando de pessoas que estão presentes dentro deste setor desde a sua criação e, contrariando o estado de espírito esperado, elas se encontram bem otimistas sobre o futuro da web.  

Na última sexta (10), a edição digital da Campus Party, trouxe Tim Berners-Lee (criador do protocolo http e, em resumo, da internet), Vint Cerf (um dos criadores dos protocolos TCP e IP, de transmissão de dados) e Al Gore (que, apesar de mais conhecido pelas causas ambientais, desde os anos 90 atua de perto com políticas digitais) falaram sobre os desafios que eles julgam serem mais importantes de se enfrentar no momento e as ações que podem ser feitas para superá-los. 

Apesar da abordagem de temas densos como privacidade e responsabilidade de políticos em campanhas de desinformação, a conversa (mediada pelo apresentador David Pogue) ocorreu de forma bem descontraída.

David Pogue, Vint Cerf e Al Gore recebendo Tim Berners-Lee, que havia acabado de entrar na videoconferência

Confira abaixo os principais temas abordados e, caso queira, é possível assistir o conteúdo (em inglês) na íntegra, inserido ao final do texto: 

A internet do futuro não pode excluir a presença de perfis anônimos 

Falando sobre os próximos campos da tecnologia que ganharão importantes novidades nos próximos anos, o foco de Vint Cerf está na seara da cibersegurança: 

“Precisamos de [um sistema de] autenticação mais forte, criptografia de alta qualidade e um sistema de proteção de assinaturas.
Há bastante trabalho a ser feito no lado das políticas públicas para
fazer [a internet] um lugar mais seguro para se estar. um lugar onde sua
privacidade é protegida, sua informação é protegida e sua
confidencialidade é protegida.” 

Cerf também comentou sobre uma das grandes questões da internet, que é o equilíbrio entre um sistema de autenticação que evite a expansão de fake news, mas a necessidade de manter um ambiente anônimo para garantir a liberdade de expressão em locais nos quais ela ainda não é garantida. “A pergunta é: como lidamos com o fato de que quando você está anônimo é possível fazer coisas ruins e é difícil te rastrear?” 

Gestor do World Wide Web Consortium, Sir Tim Berners-Lee acredita que uma das soluções é, com inovações no futuro, criar uma estrutura na qual a anonimidade seja vista como um privilégio que pode ser removido a partir do primeiro comportamento tóxico.  

Líderes políticos precisam estar envolvidos no combate à desinformação

Para Al Gore, a sociedade está se dirigindo para soluções viáveis sobre os dilemas de , mas ele acredita que um dos fatores que precisam ser encarados e resolvidos para encontrar uma solução viável seria a produção de fake news por países como Rússia, China, Irá e Coreia do Norte, além do local para ataques contra adversários políticos.  

“Os formuladores de políticas e políticos, e representantes de algumas grandes organizações empresariais usaram a Internet de maneira inadequada para criar uma espécie de ‘rodovia da desinformação’, que anulou algumas das normas existentes nas democracias representativas.” 

Gore fez uma analogia sobre a construção de credibilidade da imprensa, que levou décadas para ser construída globalmente, para comentar o período atual no qual diversas plataformas de mídia social estão atuando de forma mais assertiva contra campanhas de desinformações. Gore também chamou a atenção para o papel dos líderes para a condução de uma sociedade mais transparente e menos receptiva a conteúdos prejudiciais. 

“Líderes que professam divisão, raiva, preconceito racial e discriminação religiosa também receberão esse tipo de resposta. Já os líderes, por sua vez, são criados dentro do diálogo político elevam esse tipo de discussão. Mais uma vez, é por isso que realmente precisamos construir a partir do trabalho de Tim, Vint e seus colegas, tentando resolver alguns dos problemas existentes para permitir que os melhores ângulos da natureza humana tenham mais impulso.” 

Acessibilidade (física e econômica) precisa estar na pauta dos governos

Vint Cerf também lembra que um dos grandes pontos que a tecnologia precisa endereçar diz respeito a torná-la mais acessível para as pessoas: não apenas aquelas que são portadoras de alguma deficiência como também para quem não possui condições de arcar com os custos de uma internet de boa qualidade. “A internet tem penetração em apenas 20% da população global, incluindo celulares e outros dispositivos móveis.” 

Apresentador da CBS e especialista em tecnologia, David Pogue lembra um estudo lançado em 2018 pela Microsoft apontando que metade dos americanos não tem acesso a internet de alta velocidade ou não podem pagar.  

Al Gore ressalta que, dentro dessa população desprovida de acesso, há uma concentração das populações mais marginalizadas dentro dos EUA, como negros e idosos. 

“A World Wide Web e a evolução da internet foi pensada como um canal para acelerar a reconfigurar a democracia representativa os problemas que surgiram precisam ser resolvidos, caso contrário nós não podermos ver esse sonho democracia realizado”, acredita 

Leitores, a web foi feita para vocês. Cuidem dela 

Os três convidados deixaram ao público um recado importante: apesar de, aparentemente, a internet estar “controlada” por algumas grandes empresas, o público ainda tem meios para influenciar nesta dinâmica e tornar o espaço mais humano e seguro. 

“A Campus Party é um exemplo de jovens que são conhecedores de tecnologia: se apaixone por defender a internet” afirma Gore. “Podemos recuperá-lo e esse processo histórico está a caminho de ser acelerado.” 

“A principal mensagem que eu quero deixar para os participantes da Campus Party é que há muito espaço para invenções na internet e melhorias”, acredita Vint Cerf. “A infraestrutura que a internet e a web oferecem é vasta, aberta e foi criada para se dessa forma. Tirem vantagem disso, tragam novas ideias.” 

 Por fim, Tim Berners-Lee sugere às pessoas utilizem as melhores configurações das redes sociais para criar outras plataformas baseadas nessas estruturas, porém mais engajadas em diálogos inclusivos. 

“Estude sobre ciências da computação e ciências sociais para entender como essas coisas funcionam. Saiba [o funcionamento] não apenas pelo fato de compreender, mas para saber como construir. Vão e construam outras novas redes sociais e não usem as atuais a não ser por curiosidade E façam redes sociais que reúnam pessoas para fazer discussões construtivas.” 

Veja aqui a versão completa do painel:

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