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Ex-Executivos do eBay são acusados de cyberstalking e assédio influenciadores que criticavam a empresa

Intimidação incluiu divulgação do endereço residencial do casal, envio de insetos vivos, animais em formol e até uma coroa de flores fúnebre

Da Redação

22/06/2020 às 10h00

Foto: Shutterstock

Na última quinta-feira (18), a Procuradoria dos Estados Unidos, em Massachussets, divulgou uma queixa criminal contra seis ex-funcionários e contratados do eBay, entre eles James Baugh, ex-Diretor Sênior de Segurança da empresa. Eles são acusados de fazer uma campanha ultrajante de cyberstalking contra editores de um site de notícias sobre comércio eletrônico que cobria a empresa.

O descontentamento em relação às críticas realizadas pela equipe do site (cujo nome foi mantido em segredo pela justiça americana) resultou em uma perseguição aos seus editores, que incluía vigilância, assédio e até entregas indesejadas na residência do casal, como insetos vivos e rato morto.

O objetivo era fazer com que parassem de publicar críticas pesadas contra a empresa, bem como descobrir a identidade de um colunista mais fervoroso em suas críticas.

Como parte do assédio, eles faziam postagens na plataforma Twitter e mandavam mensagens privadas anônimas para o casal de editores, que mora em Natick, Massachusetts, fingindo ser vendedores do eBay irritados e assumindo a responsabilidade pelas entregas. Eles também, eventualmente, divulgavam informações pessoais do casal, como o endereço residencial.

Gabinete do assédio

A publicação do site Wired relacionada ao caso explica que os promotores alegaram que a campanha de assédio era planejada em uma série de reuniões.

Em um desses encontros, Baugh mostrou à equipe um clipe, de acordo com uma testemunha confidencial citada na denúncia, do filme Johnny Be Good, no qual brincalhões entregam itens cada vez mais absurdos e indesejáveis nas casas das pessoas. Em outras informações colhidas, eles também teriam traçado uma estratégia paralela por mídias sociais.

“O resultado, como alegado na denúncia, foi uma campanha sistemática, alimentada pelos recursos de uma empresa da Fortune 500, para aterrorizar emocional e psicologicamente esse casal de meia idade em Natick, com o objetivo de impedi-los de escrever coisas ruins on-line sobre o eBay”, disse Andrew Lelling, advogado, durante entrevista coletiva.

Embora a queixa não identifique as vítimas pelo nome, ela cita manchetes e histórias específicas que indicam que Baugh e sua equipe estavam atrás do casal de editores do EcommerceBytes, diz a reportagem.

O assédio, dizem os promotores, não foi a única cartada. Em uma espécie de jogo de xadrez com lógica maliciosa, a equipe do eBay supostamente responsável pela campanha planejou intervir e oferecer ajuda para fazê-los parar, diz o site.

Essa estratégia tinha o objetivo de criar uma boa imagem em relação ao eBay, para que a cobertura melhorasse e as vítimas identificassem quem estava por trás da problemática conta do comentarista.

Timeline dos ataques

A sequência de episódios de assédio narradas reforçavam a tentativa de silenciar as vítimas. Em 7 de agosto, uma conta no Twitter criada por Tui_Elei, feita supostamente por outro réu, enviou uma mensagem a uma das vítimas perguntando qual era seu problema com o eBay.

Quando ela não respondeu, a pessoa continuou a enviar mensagens com uma linguagem cada vez mais grosseira. Na noite seguinte, segundo documentos do tribunal, ela descobriu que alguém havia assinado sua conta de e-mail para dezenas de listas de e-mails e boletins; os cabeçalhos dos assuntos incluíam "o Templo Satânico" e "Fadas dos Gatos", diz a reportagem.

E então, em 10 de agosto, as entregas começaram. Primeiro, um e-mail confirmando o pedido de um "Porco Fetal Preservado" que estava a caminho da casa das vítimas. O pedido foi cancelado a tempo, depois de um contato com o fornecedor, disse Lellin.

Naquela mesma tarde, a Amazon entregou uma máscara de Halloween do rosto de um porco sangrento. Quatorze minutos depois, segundo documentos do tribunal, a conta do Twitter do Tui_Elei enviou outro DM dizendo "eu tenho sua atenção agora"?

A sequência de entregas, em outros dias, incluía uma cópia do livro Diários de Luto: Sobrevivendo à Perda de um Cônjuge, um pacote de larvas de moscas e aranhas vivas, além de outro pacote com baratas vivas. Vizinhos também receberam pacotes surpresas. O casal chegou a receber em casa uma coroa de flores. De acordo com o site Wired, a conta Tui_Elei enviou mensagens de assédio em vários momentos, inclusive depois das entregas.

Participação presencial

Segundo os promotores, nesse momento a equipe do eBay passou a fazer vigilância pessoal; vários deles supostamente voaram para Boston, fizeram check-in no Ritz Carlton e saíram naquela noite para Natick com a intenção de instalar um monitor GPS no Rav4 do casal. Eles haviam praticado, disse Lelling, em um modelo semelhante no estacionamento do eBay antes da partida.

Conforme conta a reportagem, o carro das vítimas estava trancado na garagem. O Diretor de Resiliência Global do eBay na época, David Harville, supostamente comprou uma chave de fenda, ferramenta de pintura, pé de cabra e luvas de borracha. "Acredito que, com base no meu treinamento e experiência, essas eram as ferramentas que Harville pretendia usar para invadir a garagem das vítimas", escreveu o agente especial do FBI Mark Wilson na denúncia criminal.

Outros relatos que constam nos documentos judiciais falam de vigilância, perseguição, divulgação do endereço das vítimas, ameaças e assédios pela conta Tui_Elei, mais pacotes de entregas indesejadas, além de anúncios com apelos sexuais no Craiglist. Os eventos ocorreram, aproximadamente, todo mês de agosto, segundo descrição dos fatos na reportagem.

O casal conseguiu com sucesso o Twitter suspender a conta Tui_Elei por doxxing, mas mais uma conta apareceu em seu lugar - que os promotores também vincularam à equipe do eBay.

"Esse foi um esforço sistemático e determinado de funcionários seniores de uma grande empresa para destruir a vida de um casal em Natick, tudo porque eles publicaram conteúdo que os executivos da empresa não gostavam", disse Lelling na coletiva de imprensa. "Por um tempo, eles conseguiram devastar psicologicamente essas vítimas por semanas, enquanto tentavam desesperadamente descobrir o que estava acontecendo e impedir".

Descoberta e julgamento

A reportagem conta que, 11 dias após o início da suposta campanha de assédio, dia 21 de agosto, dois tópicos convergiram com relativa velocidade, segundo documentos do tribunal.

Um membro do grupo eBay entrou em contato com o casal como parte da próxima fase da estratégia do "cavaleiro branco" - e a polícia de Natick localizou um número de placa de carro alugado a um contratado do eBay supostamente envolvido no esquema.

Quando o Departamento de Polícia de Natick conseguiu chegar aos suspeitos, e começou a fazer perguntas, os funcionários e prestadores de serviços do eBay tentaram dissimular os depoimentos, tanto para a polícia quanto para os advogados da empresa que passaram a investigar o assunto.

“Enquanto a polícia e os advogados do eBay continuavam investigando, os réus supostamente excluíram evidências digitais que mostravam seu envolvimento, obstruindo ainda mais o que havia se tornado uma investigação federal", disse o escritório do procurador dos EUA em Massachusetts, em comunicado à imprensa nesta segunda-feira (15).

Em 30 de agosto, a empresa colocou três funcionários em licença administrativa. Em um comunicado divulgado em seu site, também na segunda-feira, o eBay disse que "demitiu todos os funcionários envolvidos", em setembro de 2019, diz a Wired.

Alto escalão conhecia campanha de intimidação

O ex-CEO do eBay, Devin Wenig, também deixou a empresa naquele mês. Embora ele não seja mencionado na denúncia criminal, o eBay confirmou que é o "Executivo 1", que supostamente deu a ordem inicial para "derrubá-la" (ordem que foi transmitida a Baugh pelo "Executivo 2"). A empresa também confirmou que "Executivo 2" é o ex-Diretor de Comunicações Steve Wymer.

"A investigação interna constatou que, embora as comunicações de Wenig fossem inadequadas, não havia evidências de que ele soubesse antecipadamente ou autorizasse as ações que foram posteriormente direcionadas à blogueira e ao marido", diz o comunicado do eBay. "No entanto, como a empresa anunciou anteriormente, houve várias considerações que levaram à sua saída da empresa", diz a reportagem.

Os seis ex-funcionários e contratados do eBay são acusados de conspiração por cometer cyberstalking e conspiração para violar testemunhas. Cada acusação acarreta uma sentença de até cinco anos de prisão, três anos de liberdade supervisionada, multa de até US$ 250.000 e restituição.

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