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CFOs e a mudança de rota para a transformação digital

Mais do que reportar resultados financeiros das empresas, os CFOs agora devem também alimentar estratégias de crescimento como um todo

Por José Roberto Kropf Machado*

29/07/2021 às 18h49

Foto: Shutterstock

Sempre fiz parte da área de Finanças dentro do mundo da tecnologia. Preciso dizer que, por muito tempo, vi meus colegas e CFOs de outras empresas pilotando suas naves em “voo cruzeiro” – sem grandes mudanças – com foco nos aspectos financeiros. E muitos estavam convictos de que a jornada para a transformação digital aconteceria, mas que seriam mega projetos de longo prazo e distantes de nosso dia a dia. Era uma visão de que tudo seria implementado lá adiante, já com muitas horas de voo e num futuro quase que inacessível.

Bem, as nuvens cinzentas e pesadas da pandemia geraram uma turbulência única, forçando a mudança de rota de muitas companhias e fundamentando uma máxima, agora, inquestionável: nos próximos dois a três anos, esperamos ver a transformação digital em um ritmo que, antes de 2020, pensávamos que levaria de cinco a dez anos. Neste novo contexto, vale pensarmos no papel estratégico dos CFOs. Agora, ele assume o manche dos negócios extrapolando unicamente o segmento financeiro das corporações, com um olhar estratégico amplo que faz toda a diferença, contribuindo de forma decisiva na tomada de decisões.

Ao longo dos últimos anos, os profissionais que já estavam mais sensíveis a essas mudanças vêm acumulando novas e importantes funções, olhando para os números que vão além das tradicionais planilhas. Mais do que reportar resultados financeiros das empresas, os CFOs agora contribuem para a geração de novas receitas mantendo, claro, um fluxo de caixa positivo, mas sabendo alimentar estratégias de crescimento como um todo. Isso passa, indubitavelmente, por um olhar mais crítico para criação e adaptação de métricas, com análises de dados mais voltadas para essa agenda da Era Digital.

O estudo do Instituto for Business Value (IBV) Global C-Suite da IBM em 2020, baseado nas opiniões e percepções de 2.105 CFOs no mundo todo, sendo 100 na América Latina, corrobora com esta mudança de cenário e o novo momento que vivemos. Quando questionados sobre “quais são as forças externas mais importantes que irão impactar seu empreendimento nos próximos dois a três anos”, os diretores financeiros dizem que a tecnologia é mais uma vez a maior influência/força externa que afeta suas organizações. Em estudos anteriores, as condições de mercado lideravam a lista. A tecnologia é agora uma grande influência externa aos olhos de 57% dos CFOs.

Outro ponto importante do levantamento: 87% dos CFOs que participaram do estudo consideram os dados um ativo estratégico que podem ser usados para fornecer experiências individualizadas e profundamente diferenciadas, impulsionadas por operações sofisticadas e inteligentes. Em contextos anteriores, os dados eram usados principalmente para fins de fabricação, distribuição e gerenciamento de negócios. Agora, com o advento da IA, internet das coisas (IoT) e computação em nuvem, as organizações finalmente possuem ferramentas para transformar bytes em insights e gerar conhecimento contextualizado e preditivo, o que, sem dúvida, passa pela área financeira das corporações. Não por acaso, uma pesquisa recente do Gartner aponta que 82% dos CFOs que participaram do levantamento pretendem aumentar o investimento em recursos digitais no ano fiscal (FY) de 2021, em comparação com o anterior.

Para esta mudança de rota extremamente sólida, fica mais do que evidente que o plano de voo dos CFOs precisa passar por transformações. Deixo aqui alguns insights fundamentais para esta nova jornada.

  • Parceria entre CFO e CIO: Colaborações bem-sucedidas entre CIOs e CFOs são importantes porque esses jogadores-chave fornecem as habilidades financeiras e técnicas necessárias para a transformação de TI, que por si só está se tornando um diferencial competitivo e trazendo resultados e diferenciais competitivos para as organizações.
  • As tecnologias não são tendências, já são realidade. É preciso ficar claro para os CFOs: a tecnologia é protagonista na jornada de transformação das organizações e isso, inevitavelmente, passa pelo setor financeiro, não há outro caminho. Vale ressaltar que o mais importante habilitador de empresas digitais é a nuvem híbrida, capaz de ampliar a resiliência operacional dos negócios. Além disso, a adoção de uma arquitetura baseada em padrões abertos permite acelerar o uso de dados, aplicar análise avançada, IA e automação em diversas frentes de trabalho.
  • Foco nas pessoas: A transformação digital é habilitada por tecnologia e automatização de processos, como sabemos, mas a verdadeira transformação só acontece com as pessoas. Isso é cultural. Nosso papel essencial como executivos, independente da área que atuamos, é preparar a força de trabalho para isso porque negócios são transformados por pessoas e é crucial despertar a curiosidade e liberar a criatividade e a inovação de nossos times.
  • Identifique oportunidades: No caso dos CFOs, estamos em uma posição privilegiada para identificar oportunidades de investir em capacidades que podem gerar valor significativo, aumentando a inteligência financeira em todos os níveis e apoiando as iniciativas gerais de desenvolvimento de talentos da empresa. Ajudar a ter as pessoas certas com as habilidades certas nos lugares certos pode favorecer a eficiência operacional, a satisfação do cliente e outros elementos que impulsionam as vendas, receitas, lucros e muitas outras medidas de desempenho.

As nuvens pesadas devem permanecer, deixando o voo das empresas desafiador nos próximos meses e, sem dúvida, manobras firmes serão fundamentais rumo à transformação digital. A questão é: em que estágio dessa transformação os CFOs querem estar quando o “céu de brigadeiro” do mercado voltar a surgir, se é que ele vai voltar a surgir? O manche, sem sombra de dúvidas, está em suas mãos.

*José Roberto Kropf Machado é CFO da IBM Brasil