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Bancos só sobreviverão às fintechs com mudança de cultura corporativa

Durante Web Summit, CEOs de instituições financeiras digitais consolidadas neste mercado disseram que crescimento é um caminho sem volta

Bruno Guedes, de Lisboa

07/11/2019 às 17h01

Foto: Divulgação

A despeito do tema da mesa redonda, “O dinheiro está morto, o que vem depois?”, o CEO da fintech norte-americana Plaid, Zack Perret, fez cair por terra nesta quinta-feira (7) em Lisboa, durante o Web Summit, o discurso eufórico em torno da extinção da moeda em espécie. “Claro que o dinheiro não está morto, todos ainda o têm no bolso”, pontuou o executivo. Porém a explosão das fintechs e a crise dos bancos tradicionais, segundo ele, é um caminho sem volta.

O mundo assiste há cinco anos a um crescimento vertiginoso no mercado de companhias tecnológicas cujo core business são serviços financeiros. No Brasil, 370 startups já atuavam nesta seara em 2018, conforme dados da Associação Brasileira de Fintechs.

“Criamos em um mês inovações (semelhantes a algumas) que demorei anos em um banco tradicional”, endossou Anne Boden, CEO da Starling Bank, banco totalmente digital com base no Reino Unido.

Anne enxerga uma tentativa do sistema bancário tradicional de alcançar o nível de inovação das fintechs, mas a própria natureza intrínseca ao funcionamento dos bancos não permite que alcancem o ritmo de inovação e o custo reduzido das operações – somente quebrando paradigmas isso poderá acontecer. A escalabilidade do negócio, portanto, figura como fator determinante para a vantagem do modelo digital.

“Os custos do banco para existir são muito maiores, há muito mais profissionais envolvidos no processo”, comparou ela. Fintechs basicamente utilizam inteligência artificial para transações, aprovação de linhas de crédito e outras operações que passam por processos burocráticos em uma instituição tradicional.

Para Nicolay Storonsky, que também participou da mesa redonda e é fundador da plataforma alternativa de pagamentos e câmbio Revolut, o banco tradicional não consegue alcançar as fintechs porque tem ferramentas antigas, custo operacional alto e principalmente um pensamento ultrapassado. Mais do que uma adaptação tecnológica, seria necessário, portanto, mudar a cultura da instituição.

“Quando lancei produto em um banco tradicional (antes do lançamento da empresa) tive que passar o projeto por aprovação de 14 comitês”, lembrou ele. “A Revolut foi lançada no Reino Unido, está em 50 países e tem 60 milhões de clientes. Precisaria de cinco mil funcionários se fosse um banco tradicional”. A empresa tem menos de 700 profissionais.

Além de sair à frente em inovação, as fintechs também são capazes de oferecer taxas menores ao mercado devido à estrutura enxuta e à agilidade nos processos.

Os obstáculos das instituições financeiras digitais no cenário aparentemente tão favorável da atualidade ficam por conta, conforme conclusões dos executivos, da capacidade de regulamentação deste mercado.

“O ritmo para criação de novas regras não consegue acompanhar a velocidade da inovação”, concluiu Nicolay Storonsky.