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Inovação Aberta: quando os muros se transformam em pontes

Movimento é sólido e irreversível no País, mas é preciso superar superficialidades

Marcelo Salim*

27/11/2020 às 18h00

Foto: Divulgação/IBM

Por muito tempo, um muro invisível permaneceu separando qualquer possibilidade de troca de inovação entre as empresas – não importava o tamanho ou o modelo de negócio. O conceito era simples e inflexível: se a solução ou tecnologia não foi inventada pela corporação, definitivamente não funcionaria, inclusive para o mercado. Essa dificuldade de compreender que o que está do lado de fora pode ser inovador e rentável ficou conhecido como a “síndrome do não inventado aqui”.

Os primeiros tijolos desse muro que impedia uma troca de inovação entre as empresas começaram a ruir quando Henry Chesbrough, Ph.D. em administração de empresas pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, chega com o conceito Inovação Aberta (Open Innovation), uma nova filosofia de fazer negócios em que as empresas interagem de diferentes formas e as tecnologias podem ser integradas e compartilhadas na melhoria e criação de novas soluções, ou mesmo no desenvolvimento de novas linhas de atuação das empresas.

Com o ‘boom’ das startups na década de 1990, a Inovação Aberta ganhou força e hoje faz parte da estratégia de qualquer empresa relevante. Um caminho inexorável e que mostra que não importa o tamanho da corporação, não é possível ficar isolado como uma ilha. Manter-se competitivo significa caminhar para uma abertura, se comunicar melhor com outras empresas, sejam elas startups, scale-ups ou mesmo entre corporações do mesmo porte.

No Brasil, muitas companhias já entenderam o movimento da Inovação Aberta. Um levantamento recente da 100 Open Startups – uma plataforma internacional na conexão entre grandes empresas e startups – aponta que entre 2019 e 2020 houve um incremento de 86,6% em empresas com prática de Open Innovation. Já o volume de acordos entre empresas e startups teve um crescimento significativo de 20 vezes nos últimos 5 anos.

Tudo começa com o propósito, ou seja, o que a empresa espera obter e construir com inovação aberta. A maioria das empresas está ‘procurando soluções inovadoras para oportunidades na empresa’. Movimento que pode ser conceituado como ‘Outside In’, que de forma simples significa trazer tecnologias de fora para dentro da empresa. Um dos primeiros passos na escalada da Open Innovation de fato é essa integração, mas existem montanhas mais íngremes para serem superadas, como remodelar os modelos de negócios entre as empresas que fazem parte da filosofia, gerar plataformas de negócios até atingir o conceito de ecossistema e, assim, se tornar um habilitador de multiplataformas. Algo bem complexo e um projeto de longo prazo.

E, diante dessa escalada, vale pontuar ações de Inovação Aberta no Brasil que precisam vencer a superficialidade. Há uma necessidade de superar o primeiro contato de integração e ir além:

  • É preciso diminuir assimetrias: empresas que vão realizar Open Innovation precisam estar no mesmo nível de informação, de processos, falando a mesma língua. Muitas vezes, as grandes companhias têm dificuldade de lidar com a Inovação Aberta porque precisam se modificar internamente para voar nesse mercado. Conhecer a realidade dos pequenos, desburocratizar processos para que a relação funcione e, claro, compreender que inovação está ligada a riscos é essencial.
  • Conduzir os sistemas de incentivos na direção das pequenas, sejam elas startups, scale-ups ou qualquer outro modelo. Isso porque muitas corporações são excelentes em fazer o que já conhecem, mas inovação é justamente criar uma cultura para lidar da melhor forma com o que ainda não se conhece bem. Perdura a necessidade de reduzir o atrito interno e externo para que isso ocorra de modo rápido e suave.
  • Superar o desafio de se tornar uma empresa ambidestra, ou seja, executar e inovar simultaneamente – dois motores bem distintos, mas que podem trabalhar juntos e levar as companhias para outro patamar competitivo.

Evolução pressupõe mudança. Todo sistema vivo se modifica constantemente para se ajustar às condições dominantes. Todas as empresas necessariamente transformarão seus negócios ao longo do tempo e quanto mais demorar, maior o risco de se tornar obsoleta. Aprender a se modificar, abraçar a inovação e se reinventar é fundamental para prosperar ou até mesmo para continuar existindo. Open Innovation é uma filosofia notável para inovar e se reinventar em um mercado com ciclos cada vez mais curtos de transformação. Para que isso aconteça, mais muros precisam ser derrubados e pontes construídas. Quem está preparado para isso?

*Marcelo Salim é Head de Open Ventures da IBM Brasil