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Catalisadores de transformação: cidades inteligentes e open data

Quando o Big Data se torna open data e permite aos cidadãos participar do processo de decisão, a tendência é de vivenciarmos mudanças mais profundas

Aurélie dos Santos*

14/01/2021 às 16h33

Foto: Adobe Stock

As cidades são ambientes dinâmicos e mutáveis, capazes de se alterar e se adaptar às condições ao redor. Do ponto de vista do planejamento urbano, a evolução de uma cidade se dá em torno de aspectos previsíveis como o crescimento populacional, condições climáticas e fontes de recursos. Mas catástrofes naturais e eventos extraordinários, como a pandemia de Covid-19, que alterou as dinâmicas em todo o planeta, mostram o quanto é necessária a capacidade de responder rapidamente a mudanças repentinas. Mais que cidades inteligentes, as necessidades atuais apontam para o desenvolvimento das cidades adaptáveis, com uma alta capacidade de mutação para acomodar novos processos, dinâmicas, rotinas e populações. Essa habilidade deve ser pensada não como um problema a ser resolvido no futuro, mas como um direcionamento a ser adotado agora, acelerado e aprimorado por investimentos em inovação.

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Estamos já vivendo uma explosão populacional nos grandes centros urbanos. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, 68% da população mundial viverá nas cidades em 2050. Hoje, esse percentual é de 54%. Isso impulsionará ainda mais mudanças em serviços essenciais e o poder público deve pensar em ferramentas para garantir que os ambientes urbanos sejam seguros, inclusivos, ágeis, humanos, sustentáveis, criativos, participativos e, sobretudo, resilientes. A tendência de crescimento da população é alarmante, mas pode ser um catalisador para a transformação e uma oportunidade para desenvolver soluções criativas para problemas inerentes à vida em sociedade se as novas tecnologias, como Big Data e internet das coisas (IoT), forem aplicadas de forma ampla e acessível à população.

Para tanto, a inovação urbana deverá acomodar essas tecnologias, que se farão necessárias na integração e na digitalização dos espaços. A IoT, por exemplo, já gera experimentações pelo mundo, além de impactar a coesão social e a governança nas cidades. O Big Data tem potencial para ajudar na transparência e na participação da população em questões essenciais às cidades. Em Dublin, capital da Irlanda, o sistema Dublinked disponibiliza às pessoas informações sobre a cidade e sinaliza oportunidades de negócio relacionadas à solução dos problemas da comunidade, estimulando a criação de startups e a participação dos habitantes na criação de políticas públicas. É um exemplo de como a tecnologia e a informação impulsionam o desenvolvimento. No Brasil, os desafios para a transformação tecnológica são robustos e envolvem questões de longo prazo como infraestrutura, logística, estabilidade política e capacitação. Com isso, nossos desafios são ainda maiores considerando que a agilidade para planejar e executar mudanças é uma questão chave nesse contexto.

Enquanto catalisadores de transformação, as cidades inteligentes devem basear suas mudanças em dados que mostrem à gestão pública informações qualificadas para a tomada de decisão. Serviços convergentes entre o setor público e o privado são o caminho para garantir a disponibilidade e capacidade de processar altos volumes de dados, além de assegurar o baixo consumo energético, a escalabilidade, a resiliência e a aptidão para receberem novos serviços e aplicações.

Por fim, do ponto de vista ambiental, as cidades ocupam hoje apenas 2% da superfície terrestre, de acordo com dados publicados pelo Senseable City Lab, do MIT. No entanto, reúnem mais de 50% da população, um aglomerado de pessoas que consome 75% de toda a energia produzida no planeta e gera 80% das emissões de dióxido de carbono. Portanto, tornar as cidades mais sustentáveis e seguras com a aplicação de inteligência tecnológica passa a ser uma meta prioritária.

A discussão em torno da aplicação da tecnologia em prol da qualidade de vida nos grandes centros urbanos costuma estar limitada a conceitos como economia compartilhada e novas relações de trabalho, mas é preciso ir além ao definir como a inovação tecnológica assumirá seu papel na criação de cidades mais inteligentes. Isso requer uma infraestrutura digital, incluindo centros de comando e controle, a integração dos serviços públicos que, junto à sustentabilidade, à humanização da relação entre as pessoas e a cidade, e a uma economia mais criativa, redesenhará o modo de vida nas metrópoles. Quando o Big Data se torna open data e permite aos cidadãos participar do processo de decisão, a tendência é de vivenciarmos mudanças mais profundas, positivas e duradouras.

*Aurélie dos Santos é gerente Smart Cities da green4T