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5 perguntas para o CEO: João Lucio, da Cognizant Brasil

Executivo fala dos desafios e diferenciais da trajetória da empresa na era digital transformadora

Solange Calvo

26/03/2019 às 8h00

Joao Lucio da Cognizant Brasil
Foto: Divulgação

O estilo mais verdadeiro e único de liderança é aquele realizado pelo exemplo. É em que acredita João Lucio, CEO da Cognizant Brasil. Ele destaca que fazer com que uma equipe conquiste resultados e que siga seus líderes de forma espontânea tem a ver com a confiança construída especialmente pelas ações de quem os lidera.

Aficionado por tecnologia desde a infância, Lucio ingressou na Cognizant em 2012 e três anos depois assumia o comando da organização. “Hoje, somos uma equipe de quase 2 mil colaboradores no País, com projetos em mais de 15 cidades brasileiras e com três escritórios em São Paulo (SP) e um em Curitiba (PR). Um crescimento significativo no período, considerando que há sete anos a empresa tinha 30 funcionários e apenas um cliente”, orgulha-se.

Muitos foram os fatores que levaram Lucio a conquistar o mais alto cargo da companhia. Ele acredita que a capacidade de leitura do comportamento humano, forte dedicação ao trabalho, alto poder de entrega, apetite ao risco e alto grau de lealdade sejam alguns deles.

“Quando se coloca tudo isso na ponta do lápis, fica claro que a gestão de uma empresa tem de ser feita com um propósito maior, o propósito de impactar positivamente a sociedade. É nesse quesito que ainda acho que posso fazer muito mais”, diz.

Acompanhe nessa entrevista exclusiva desafios, resultados e conquistas da Cognizant.

Computerworld Brasil – A empresa se define como aceleradora da jornada digital de clientes. Qual é a estratégia campeã que a difere da concorrência no mercado de Serviços Profissionais?

João Lucio – Nossos diferenciais em relação a concorrência são vários. Primeiramente, e possivelmente o mais óbvio deles, é a qualidade do nosso portfólio de produtos e serviços. Outro é a nossa rede de conhecimento e de colaboradores (280 mil) ao redor do mundo, que inclui mais de 40 países e especialidades em praticamente todas as tecnologias existentes. Se nos depararmos com alguma situação inusitada aqui no Brasil, podemos contar com a rede para nos auxiliar porque certamente algum integrante já passou por questão semelhante.

Temos rápido acesso a lições aprendidas. E ainda nos destacamos pelo nosso modelo de atuação – somos uma corporação multinacional de US$ 16,1 bilhões de receita, mas com a agilidade de uma startup. Assim, nossos colaboradores são tratados como empreendedores, donos dos seus próprios negócios, com poder e autonomia muito superior ao da maioria das outras empresas de nosso porte.

Essa abordagem empreendedora faz com que a equipe seja autoajustável, rápida e ágil na tomada de decisões. Consequentemente, isso é percebido pelos clientes como uma maior facilidade de conduzir negócios conosco e um maior foco dos nossos colaboradores nos resultados dos clientes. Tudo isso aliado ao respeito que temos pelos nossos colaboradores e ao interesse genuíno que eles desenvolvam carreiras de longo prazo conosco, torna-se um diferencial.

CW Brasil – Como avalia o amadurecimento das empresas brasileiras em relação ao digital?

João Lucio – Durante os últimos anos, temos visto um amadurecimento bastante rápido, mas não uniforme nos diferentes segmentos de clientes e indústrias em que atuamos. Percebemos uma maturidade muito maior no financeiro e varejo. Em manufatura e saúde, há empresas ainda rumo ao digital. Mas temos visto ações concretas de nossos clientes na direção não somente de usar o digital “for fun”, mas de usar o digital “at scale”. Nossa visão na Cognizant é a de que digital é muito mais que tecnologia, é uma combinação de estratégia de negócios, processos operacionais eficientes e da tecnologia que oferece suporte a tudo isso com o objetivo único de aumentar a qualidade da experiência de seus clientes. De que adianta ter uma estratégia de negócios fabulosa se há deficiências operacionais que não permitem que seus produtos cheguem no prazo para seus clientes? De que adianta ter processos operacionais eficientes e disruptivos se você não consegue implementá-los ou operacionalizá-los em larga escala por falta de tecnologia para viabilizá-los? E de que adianta ter uma tecnologia de ponta se sua estratégia de negócios ou processos operacionais são antiquados e ineficientes?

CW Brasil – Qual o maior desafio da empresa no mercado brasileiro e como vencê-lo?

Lucio – Nosso maior desafio atualmente é saber gerenciar de forma inteligente nossa rápida expansão. De 2012 a 2018, temos crescido no Brasil em média 30% ao ano, ano após ano (CAGR). Expandimos o horizonte para a América Latina, com presença no Brasil, Argentina, México, Costa Rica, El Salvador, Chile e Colômbia. Somos quase 5 mil colaboradores espalhados por todos esses países. A rápida expansão é o desejo de toda empresa, mas traz desafios operacionais e de gestão no dia a dia. Queremos que nossos funcionários continuem se sentindo especiais e não sejam somente números, como ocorre em muitas empresas.

CW Brasil – Alguma novidade para 2019?

Lucio – O ano de 2018 foi fantástico em crescimento e desenvolvimento para nosso negócio. Crescemos no Brasil 42% em receita em dólar americano. Nossa equipe, que iniciou o ano com cerca de 1,2 mil colaboradores, terminou com mais de 1,7 mil em 31 de dezembro. Este ano (2019) promete ainda mais. Já em seu início, inauguramos um Delivery Center em Curitiba. Temos agora mais facilidade e agilidade para atender aos nossos clientes da região Sul do Brasil. No mês de abril, vamos abrir mais um delivery center aqui em São Paulo.

Nossa previsão de crescimento para este ano é de, no mínimo, 24%. Vamos trazer novos serviços do nosso portfólio global para o Brasil e também começar a atuar em segmentos de indústrias que ainda pouco temos atuado, como, por exemplo, o mercado de telecomunicações. Continuamos reforçando nosso relacionamento e atuando cada vez mais próximos dos nossos parceiros globais como é o caso da Salesforce, SAP, Informatica, CA Technologies, Microsoft, AWS, entre vários outros.

CW Brasil – Além do comando da Cognizant no Brasil, você também é investidor-anjo, acelerando negócios de startups brasileiras. O que representa essa outra jornada em sua carreira e quais lições ela oferece?

Lucio – Tive a oportunidade de morar em Chicago, nos Estados Unidos, de 2007 a 2010. Durante parte desses três anos, fiz meu MBA na Kellogg School of Management, onde tive contato com o mundo do empreendedorismo e das startups. Kellogg é mais conhecida como o berço do “Marketing” como o conhecemos nos dias de hoje do que como berço do empreendedorismo. Philip Kotler escreveu o seu famoso livro “Marketing Management” enquanto era professor de Kellogg.

Na minha turma, entretanto, aproximadamente 20% dos estudantes nunca haviam trabalhado em grandes corporações. Eles eram empreendedores seriais, montavam e vendiam empresas. Tudo nesse país conspira positivamente para viabilizar e estimular o empreendedorismo. Uma das minhas atividades durante meu summer job foi o de trabalhar em uma empresa de Private Equity local de Chicago, onde tive a oportunidade de conhecer o processo de seleção e de investimento em startups. Quando voltei ao Brasil em 2010, estava claro em minha mente que eu precisava me envolver em algo relacionado a empreendedorismo, mesmo que fosse corporativo, como o que consegui com a Cognizant.

Em 2014, afiliei-me a uma das aceleradoras de startups no Brasil, a 21212, e tive a oportunidade não somente de investir em oito startups como também de participar do board de algumas delas. A experiência em ajudar empreendedores brasileiros a desenvolver suas empresas é incrível. Durante as sessões em que discutimos estratégias, segmentos de clientes, investimentos e vários outros assuntos, confesso que, muitas vezes, acabo aprendendo mais com eles do que provavelmente eles aprendem comigo.

Apesar de contribuir com minha experiência em liderança, gestão e tecnologia, o simples fato de me envolver com startups e empreendedores inovadores me ajuda a manter minha “veia empreendedora” acesa e a lembrar-me diariamente de manter a humildade de que sempre podemos aprender mais. Infelizmente, nos últimos dois anos, não tenho atuado nessa área tanto quanto gostaria, dado o crescimento vertiginoso que a Cognizant Brasil tem atingido.