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Funcionários da Google pressionam CEO para interromper venda de tecnologia à polícia

Mais de 1,6 mil funcionários exigiram em carta que a empresa deixe de vender à polícia norte-americana tecnologia de reconhecimento facial

Da Redação

24/06/2020 às 15h00

Foto: Shutterstock

Um grupo de mais 1,6 mil funcionários da Google enviou uma carta ao CEO da Alphabet exigindo que a gigante de buscas pare de firmar contratos com departamentos de polícia dos Estados Unidos, em resposta à violência histórica da polícia americana à população negra e a morte de George Floyd, segundo reportagem do TechCrunch.

Na carta, os funcionários relatam que estão “desapontados ao saber que a Google ainda está vendendo para as forças policiais” e que ainda anuncia sua conexão com a polícia de forma progressiva, buscando ainda vender a tecnologia ao invés de “cortar laços com a polícia e juntar-se aos milhões que desejam desfigurar e cortar o financiamento dessas instituições”, diz um trecho da carta enviada ao CEO Sundar Pichai.

A ação é motivada pela onda de protestos antirracistas e contra a violência policial histórica à população negra nos Estados Unidos. "Por que ajudar as instituições responsáveis pelo joelho no pescoço de George Floyd a serem mais eficazes na organização? Não apenas isso, mas a mesma força policial de Clarkstown anunciada pela Google como uma história de sucesso foi processada várias vezes por vigilância ilegal dos organizadores do[movimento] Black Lives Matter”, continuou a carta.

Cases em cheque

A Google divulgou como o Departamento de Polícia de Clarkstown usa o G Suite para compartilhar informações e evidências digitais. A empresa também é doadora da fundação policial de Seattle e seu braço de capital de risco, a GV (antes conhecida como Google Ventures), que investiu em startups que trabalham em tecnologia de inteligência artificial para a polícia, diz a reportagem.

“Estamos comprometidos com o trabalho que faz uma diferença significativa para combater o racismo sistêmico, e nossos funcionários fizeram mais de 500 sugestões de produtos nas últimas semanas, que estamos analisando", disse um porta-voz da Google ao TechCrunch.

“Fomos a primeira grande empresa a decidir, anos atrás, não disponibilizar comercialmente o reconhecimento facial e temos princípios de IA muito claros que proíbem seu uso ou venda para vigilância. Temos termos de uso de longa data para plataformas de computação geralmente disponíveis, como Gmail, GSuite e Google Cloud Platform, e esses produtos permanecerão disponíveis para governos e autoridades locais, incluindo departamentos de polícia”, complementou.

Os funcionários demandam uma ação mais efetiva da empresa contra a polícia americana em apoio às manifestações, como outras empresas do ramo pronunciaram mais cedo.

Cancelando projetos

A Amazon e a IBM, por exemplo, anunciaram medidas sobre ferramentas de reconhecimento facial usada pela polícia. Essas tecnologias são criticadas por acreditar-se que a base usada para treinar o algoritmo apresenta resultados impreciso para pessoas negras ou árabes.

Essas ferramentas, geralmente programadas e treinadas por pessoas brancas, são extensivamente usadas pela polícia e ampliam as questões raciais sobre a inteligência artificial, muitas vezes vendida pelo seu aspecto neutro de julgamentos culturais.

A Amazon anunciou no dia 10 de junho que colocaria o serviço de tecnologia Rekognition em suspensão por um ano, expondo a sua preocupação com a utilização ética da tecnologia de reconhecimento facial pela polícia. A tecnologia será mantida somente para a busca de pessoas desaparecidas.

Poucos dias antes, Arvind Krishna, CEO da IBM, havia enviado uma carta ao Congresso americano informando que a empresa estava saindo do mercado de reconhecimento facial. Krishna disse que acredita ser o momento de “iniciar um diálogo nacional sobre se e como a tecnologia de reconhecimento facial deve ser empregada pelas agências policiais nacionais”. A Microsoft também disse recentemente que não venderá tecnologia de reconhecimento facial para policiais sem regulamentação federal.

Manutenção da cultura

Ainda na carta, os funcionários dizem que querem se orgulhar da empresa em que trabalham e que esperam que ela fale com seus valores. "O legado racista da polícia nos Estados Unidos remonta às suas raízes, quando as forças policiais surgiram para proteger a riqueza obtida da escravidão e do genocídio. […] Temos um longo caminho a percorrer para abordar todo o legado do racismo, mas para começar - não devemos nos dedicar a lucrar com o policiamento racista. Não devemos criminalizar a existência negra enquanto cantamos que as vidas negras importam [Black Lives Matter]. Nós, os Googlers abaixo assinados, pedimos que você pare de disponibilizar nossa tecnologia para as forças policiais”, diz a carta.

Funcionários da Google já conseguiram no passado impedir que a empresa concorresse ao JEDI, projeto do Pentágono, bem como conseguiram que a empresa cancelasse os contrato com o Projeto Maven, também ligado à sede de Defesa do governo norte-americano.

Em resposta à morte de Floyd, o CEO da Google observou em um e-mail para os funcionários que "nossa comunidade negra está ferida, e muitos de nós estão procurando maneiras de defender o que acreditamos e alcançar pessoas que amamos para mostrar solidariedade", diz o TechCrunch.

Ele também destacou como a Google doará US$ 12 milhões para organizações de justiça racial. Desde então, Pichai elaborou os compromissos da Google com a justiça racial. Internamente, por exemplo, a empresa se comprometeu a melhorar a representação diversificada no nível de liderança em 30% até 2025, ressalta a reportagem.

"Queremos que a Google tome medidas reais para ajudar a desmantelar o racismo", escreveram os funcionários. "Nós, como sociedade, passamos do ponto em que dizer que Black Lives Matter é suficiente, precisamos mostrar isso em nosso pensamento, em nossas palavras e em nossas ações que a vida dos negros é importante para nós".

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