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Telemedicina: da humanização à inovação

Assistência médica a distância e uso de dispositivos conectados podem não só escalar atendimento como aliviar sistema de saúde como um todo

Leandro Rubio*

16/05/2020 às 12h19

Foto: Shutterstock

Os setores da sociedade se transformaram e evoluíram na última década, impactando diretamente a rotina do ser humano, no que tange os negócios e o seu relacionamento com o próximo. Como Peter Diamonds diz: "vivemos a era da singularidade, onde soluções exponenciais impactarão milhões, se não bilhões de vidas".

Na Medicina, esse processo evoluiu, porém de maneira mais morosa, não acompanhando os outros setores. É compreensível já que os processos na área da saúde envolvem um player muito sensível: o paciente. Soluções que otimizem a performance de uma operação burocrática são menos desafiadoras do que uma solução que envolva diretamente a vida do paciente. Pesquisas científicas precisam validar tal hipótese, as quais são demoradas per si, tornando o caminho da implementação mais duradouro, cansativo e oneroso.

No Brasil, a resolução do Conselho Federal de Medicina 2.227/2018, permitiu a prática da Telemedicina, porém foi revogada em fevereiro de 2019 pela mesma instituição. Desde então, nada mudou até a chegada da pandemia da COVID19 ao nosso País. No dia 31 de março de 2020, o Senado aprovou o projeto de lei (PL 696/2020) liberando a Telemedicina enquanto a COVID19 estiver impactando o Brasil.

Cuidar da saúde do ser humano vai além do diagnóstico e tratamento. Envolve também a promoção da saúde e a prevenção de doenças, entregando uma boa experiência ao paciente durante toda a jornada. Esse cuidado é muito bem entregue pela Telemedicina, já que conseguimos aliar de maneira significativa, a tecnologia nesse processo, mudando o status quo da assistência médica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a Telemedicina como “curar à distância”, mas na minha opinião envolve muitos outras questões. Tornar a saúde mais eficiente ao ter uma maior capilaridade, democrática, barata, resolutiva, mantendo ou aumentando a humanização, é o benchmark para alcançarmos.

O desenvolvimento de um sistema de saúde menos oneroso é um grande desafio. Encerramos o ano de 2019 com uma inflação médica de 17%, a quarta maior do mundo e cinco vezes o IPCA do mesmo ano, segundo a consultoria Aon. A assistência médica à distância tem um grande impacto nesse cenário ao evitar idas desnecessárias do pacientes para as unidades de saúde presencias, principalmente aos prontos-socorros. Um grande player de saúde americano (Jefferson Health) implementou a telemedicina na jornada assistencial, economizando até US$1.500 por atendimento médico.

O sistema de saúde brasileiro é basicamente reativo, ou seja, um paciente adoece e é somente nesse momento que o sistema é ativado para atendê-lo. Um profissional pró-ativo é muito valorizado no mercado, não sendo diferente na área da saúde. Cuidar da jornada do paciente, mesmo que assintomático ou sem comorbidades, fazendo a gestão ativa da sua saúde, aliando a tecnologia (telemedicina) nesse cuidado, traz resultados clínicos muito superiores. Nesse modelo pró-ativo, usando a Telemedicina para monitorar a saúde do paciente e gerir os dados e tomando decisão a partir deles (business intelligence), evitamos a ponta do iceberg. Essa ponta seria o infarto do miocárdio ou o acidente vascular encefálico que seriam evitados ao prevenir a hipertensão arterial e o diabetes melitus, estimulando um estilo de vida saudável e focando na atenção primária da saúde.

A gestão da saúde e dos recursos só é possível pela exponencialidade da Telemedicina. Em algumas situações, o médico presencial é quase insubstituível, principalmente quando o paciente exige esse contato próximo, mas em muitas outras, toda a abordagem assistencial pode ser realizada à distância por meio de dispositivos tecnológicos.

Exemplificarei uma consulta de rotina por Telemedicina em um cenário ideal. O médico inicia o atendimento pela vídeo chamada, anotando todos os dados no prontuário médico que está em uma nuvem e faz o atestado ou o receituário digitalmente, o qual será direcionado para diversas farmácias em sua geolocalização. E o restante da avaliação médica? O próprio paciente possui em sua casa dispositivos eletrônicos (sensores), que enviam remotamente dados do paciente referente aos sinais vitais, como a frequência cardíaca e a pressão arterial, exame físico, como a ausculta pulmonar, cardíaca e a otoscopia e até exames complementares como o eletrocardiograma.

A internet das coisas na área da Saúde, em que dispositivos enviam dados em tempo real, associados a uma inteligência artificial, com machine learning ou até deep learning (para fazer a leitura dos dados e a melhor tomada de decisão) são tecnologias que fazem parte do novo ecossistema da Saúde.

Os famosos wearables, ou tecnologias vestíveis, como o Apple Watch ou Fitbit, permitem até que o próprio usuário faça a gestão da sua saúde. Todas essas tecnologias inovadores e disruptivas, quando associadas a Temedicina, entregam um enorme valor global na assistência ao paciente.

Nada disso faz sentido se o profissional de saúde não conhecer e se capacitar para utilizar a tecnologia a favor do seu paciente. Todo o investimento para que ocorra uma revolução digital na saúde só tem real valor se beneficiar aquele que precisa ser servido, diminuindo os custos e aumentando a performance da assistência. A possibilidade de avaliar o paciente remotamente não pode afastá-los dos profissionais da saúde. O profissional de saúde do futuro será um grande usuário de tecnologia para assistir a saúde dos pacientes e terá um relação ainda mais humanizada, tornando-se um profissional high tech e high touch.

*Leandro Rubio é cardiologista, com títulos de especialista pelas Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista. É cofundador do Missão Covid