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Como o trabalho de pesquisadores brasileiros contribui para a compreensão do coronavírus

Pesquisadores sequenciaram genoma completo do covid-19 apenas dois dias após a confirmação do primeiro caso no Brasil

Da Redação

02/03/2020 às 17h20

Foto: Shutterstock

Dois dias após o primeiro caso de coronavírus ser confirmado em São Paulo, capital, pesquisadores brasileiros do Instituto Adolfo Lutz e das universidades de São Paulo (USP) e de Oxford (Reino Unido), publicaram a sequência completa do genoma viral, batizado de SARS-CoV-2. O feito tem um peso e tanto não só para a comunidade acadêmica como para o desenvolvimento de possíveis vacinas e testes diagnósticos. Os dados foram publicados no site Virological.org, que compartilha dados e engaja a comunidade de especialistas em saúde pública, epidemiologistas e virologistas para discutirem e contribuírem para rastrear a origem e dispersão de novos surtos pelo mundo.

À Agência Fapesp, Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP, reforça a importância do trabalho dos pesquisadores: "Ao sequenciar o genoma do vírus, ficamos mais perto de saber a origem da epidemia". Ela explica que na Itália, onde há registros de novos casos e de onde veio o primeiro caso confirmado no Brasil, os pesquisadores locais até então não conseguiram identificar a origem do surto, pois ainda não fizeram o sequenciamento de suas amostras.

Segundo a especialista, para entender como está ocorrendo a disseminação e como o vírus está evoluindo é preciso mapear o genoma completo, não bastando sequenciar apenas trechos do genoma. A sequência brasileira é muito semelhante à de amostras sequenciadas na Alemanha no dia 28 de janeiro, mas já apresenta diferenças em relação ao genoma identificado em Wuhan, epicentro da epidemia na China, onde o balanço mais recente indica que 2.912 pessoas morreram devido a complicações desencadeadas pelo coronavírus.

Antecipando-se

Ester Sabino, ao lado de Nuno Faria, da Universidade de Oxford, coordena o Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), projeto apoiado pela Fapesp, Medical Research Council e Fundo Newton (os dois últimos sendo do Reino Unido). O consórcio tem como objetivo estudar em tempo real epidemias como dengue e zika.

Por meio do projeto foi criada uma rede de pesquisadores dedicada a responder e analisar dados de epidemias em tempo real. "A proposta é ajudar os serviços de saúde e não apenas publicar informações meses depois que o problema ocorreu", destacou Ester à Agência Fapesp.

Segundo ela, assim que o primeiro surto de covid-19 foi confirmado na China, em janeiro, a equipe do projeto se mobilizou para obter os recursos necessários para sequenciar o vírus assim que ele chegasse ao Brasil.

“Começamos a trabalhar em parceria com a equipe do Instituto Adolfo Lutz e a treinar pesquisadores para usar uma tecnologia de sequenciamento conhecida como MinION, que é portátil e barata. Usamos essa metodologia para monitorar a evolução do vírus zika nas Américas, mas, nesse caso, só conseguimos traçar a origem do vírus e a rota de disseminação um ano após o término da epidemia. Desta vez, a equipe entrou em ação assim que o primeiro caso foi confirmado”, contou.

O primeiro caso do covid-19 no Brasil foi confirmado no dia 26 de fevereiro pela equipe do Instituto Adolfo Lutz. À Agência Fapesp, Claudio Tavares Sacchi, responsável pelo Laboratório Estratégico do Instituto Adolfo Lutz (LEIAL), explica que o instituto e parceiros já vinham se preparando para observar a epidemia caso algum caso chegasse ao território brasileiro.

“Conseguimos quebrar algumas barreiras com esse trabalho. A Universidade treinou equipes e transferiu tecnologia para que o sequenciamento pudesse ser feito no lugar certo, que é o centro responsável pela vigilância epidemiológica. É assim que tem de ser”, disse Sabino.

O que será feito

Em São Paulo, onde um segundo caso de paciente com coronavírus foi confirmado neste final de semana, o Instituto de Infectologia Emílio Ribas e o Hospital das Clínicas da USP foram escolhidos como instituições referência para atender os casos graves.

Segundo o professor da FMUSP Esper Kallás, também foi criado um grupo de trabalho para discutir protocolos de estudos clínicos que serão feitos com os pacientes diagnosticados e atendidos na rede pública estadual.

Impacto global

Os casos de coronavírus também têm impactado o trânsito de empresas globais. Nos Estados Unidos, foram 70 casos confirmados e as principais companhias como Amazon e Google deram ordem para que viagens, tanto nacionais como internacionais, sejam realizadas apenas em casos de necessidade extrema, além de evitar locais em que a presença do vírus esteja mais consolidada, como China, Irá e Itália.

A realização de conferências globais, eventos tradicionais do setor, também foi colocada em risco pelo receio da propagação do covid-19. Após o cancelamento da MWC, evento de telefonia que deveria ter ocorrido em fevereiro, o Google cancelou o Google News Initiative Summit, que deveria acontecer no final de abril e o Facebook também desistiu de organizar a F8, sua conferência com desenvolvedores.

Com informações do Jornal da USP