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Depois de 28 anos, Apple retorna à CES 2020. O que podemos esperar?

Quais lições a gigante de Cupertino reserva às organizações? Consumerização da TI é o grande foco

Jonny Evans, Computerworld (EUA)

07/01/2020 às 15h07

Foto: Shutterstock

A Apple retornou oficialmente à CES, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo dedicada ao público consumidor. Na última vez que marcou presença no evento - há 28 anos - a Apple apresentava o seu dispositivo Newton. Desta vez, no entanto, a gigante da tecnologia está falando sobre segurança e Internet das Coisas (IoT).

Lições para a empresa

O Newton foi concebido como a grande ideia do então CEO da Apple, John Sculley: o primeiro exemplo mundial de um dispositivo para comunicação, entretenimento e produtividade. "O Newton representa talvez o primeiro vislumbre tangível do futuro da tecnologia, uma visão agora compartilhada por muitas das maiores empresas de alta tecnologia do mundo", escreveu a Mercury News na época.

O produto definiu (ou talvez profetizou) algumas das tendências que continuam a transformar as empresas atualmente: mobilidade, serviços em nuvem, comunicação e o que agora é visto como a rápida consumerização de todas as partes da indústria. Embora tenhamos passado décadas em uma distinção artificial entre TI para consumidores e empresas, essa diferenciação está chegando ao fim. As melhores empresas de hoje sabem que as suas próprias ferramentas devem ser tão fáceis de usar quanto o sucessor do Newton, o iPhone.

A grande mensagem da Apple para a CES: Segurança

Jane Horvath, executiva da Apple, deve participar do painel de discussão sobre privacidade do consumidor nesta terça-feira (7). Essa participação é significativa por conta da diferença de 28 anos desde que a empresa apareceu pela última vez na feira. Também é importante como uma expressão clara de como a Apple vê a privacidade em uma era cada vez mais conectada.

Assim como aconteceu com o Newton, outros da indústria devem observar os movimentos da Apple: a companhia é um posto de sinalização, enquanto muitas outras permanecem como cata-ventos, soprando para onde quer que seus interesses de curto prazo as levem.

As questões sobre privacidade devem ser significativas para todas as empresas. Os dados são ouro em pó, a proteção de dados é fundamental e a carga regulatória de manipulação de dados está se tornando cada vez mais onerosa, razão pela qual a decisão da Apple de coletar o mínimo de dados possível para fornecer seus serviços deve ser copiada. A proteção desses dados é efetivamente importante. Essa é a lição de número um. Quais outras lições os profissionais da Apple devem tirar da CES 2020?

Os padrões são importantes, então faça-os trabalhar juntos

Uma declaração da Apple publicada pouco antes do Natal afirmou que a companhia de Tim Cook, Amazon, Google, Zigbee Alliance e outras empresas formaram um grupo (o projeto Connected Home over IP), para desenvolver um padrão aberto para dispositivos domésticos inteligentes. Esse é um passo bem-vindo sobre o qual podemos aprender mais na CES 2020.

É uma etapa bem-vinda, porque o mercado de dispositivos de IoT gerou dezenas de padrões concorrentes para dispositivos de consumo e corporativos, incluindo padrões próprios para verticais específicas do setor. Isso era bom quando a IoT foi definida por um par de aspiradores de pó automatizados, alguns mecanismos para portas e automações para fazendas e fábricas. Mas não é tão bom assim quando a expectativa é de que mais de 20 bilhões de dispositivos IoT sejam instalados até o final de 2020. Essas implantações incluem pátios de carga inteiros, vastas extensões de terras agrícolas e um mercado em expansão nos sistemas domésticos conectados, incluindo os muitos dispositivos compatíveis com o HomeKit que estão sendo apresentados na CES 2020.

Se o projeto Connected Home over IP conseguir criar um padrão aberto para dispositivos de IoT domésticos, parece uma etapa natural para as empresas do setor procurar empregar esse mesmo padrão em seus próprios sistemas industriais. Dessa forma, eles podem utilizar o conhecimento de segurança das maiores empresas de tecnologia do mundo, melhorar os seus próprios, protegê-lo com os acordos CyberSOC e agrupar tudo isso em sistemas que combinam a segurança robusta de que você precisa ao gerenciar (digamos) uma usina nuclear conectada com os aplicativos que as pessoas que trabalham nas suas estações utilizam.

Fazer padrões que funcionem bem com os outros é uma oportunidade para todos. Essa é uma lição não apenas para profissionais da empresa, mas para provedores de serviços corporativos - e certamente deve ser lembrada por qualquer serviço de sourcing corporativo. Até o iCloud pode ser acessado usando um navegador compatível com os padrões.

Consumerização da TI

Alguns profissionais presentes na CES 2020 deverão procurar entender como a consumerização de TI impactará ainda mais os seus negócios. No curto prazo, isso pode significar implantações da Apple TV em sistemas de sinalização pública e salas de conferência; certamente significará o desenvolvimento contínuo de aplicativos úteis voltados para o consumidor; provavelmente sugere novas aplicações para dispositivos de áudio (AirPods) e acessórios (Apple Watch); e definitivamente se movimenta em direção a sistemas de monitoramento e proteção da saúde dos funcionários.

Além disso, pense em como os veículos autônomos sob demanda podem substituir as frotas corporativas em cidades inteligentes, ou como os sistemas de realidade aumentada podem ajudar a reduzir os custos corporativos e as emissões de carbono, reduzindo as viagens aéreas, durante treinamentos.

A inteligência artificial também desempenha seu papel. À medida que a IA se torna mais consciente do mundo (e há exemplos disso na CES), como a infraestrutura inteligente pode melhorar os processos de negócios e aumentar a eficiência da empresa?

A rede em questão

Todo mundo está falando sobre o 5G. As empresas já estão se preparando para isso, mas a cobertura ainda não está pronta e, portanto, usaremos redes híbridas por algum tempo. Nesse cenário, o Wi-Fi 6, os roteadores protegidos pelo HomeKit e o padrão de rede IoT aberto no qual o grupo Connected Home over IP está trabalhando são igualmente importantes. Não apenas isso, mas se você pretende lançar novos serviços online, convém garantir que eles funcionem bem com o 4G, já que esse é o padrão móvel que a maioria dos seus clientes usará. (Se você tem bilhões em fundos de capital de risco para utilizar apenas o 5G, a situação pode ser um pouco diferente, suponho - mas a maioria das empresas não estará nessa posição.)

O marketing sobre o 5G está em pleno fluxo, e é importante que as empresas reconheçam que, além do hype, a grande necessidade é de networking. Os dispositivos conectados precisam de redes para funcionar, o que significa que as redes híbridas serão importante; sistemas conectados não têm sentido se não puderem ficar online.

No momento, apenas algumas empresas estão ficando ricas com o 5G, mas muitas outras ganham dinheiro com outros padrões de rede. É improvável que isso mude.

Personalização - e análise

A maioria das grandes empresas e muitas outras menores estão usando análise de dados. Essas informações ajudam os supermercados a planejar estoques loja a loja, informam os sistemas de transporte e entrega, gerenciam armazéns e muito mais. A satisfação do cliente, a eficiência dos negócios e os novos modelos de negócios são impulsionados pelo uso efetivo desses dados, e coletá-los é uma enorme tendência na CES.

O robô que leva papel higiênico não está apenas atraindo a cobertura da mídia, mas também coletando informações bastante pessoais. O mesmo acontece com aquelas latas de lixo inteligentes, sistemas de entretenimento e qualquer outra coisa conectada no evento. Esses sistemas trazem perguntas, além de conveniência. Como as informações coletadas serão usadas? Que informação é razoável coletar? Quais controles os consumidores devem ter sobre esses dados? Como esses dados serão protegidos? Quem tem acesso a eles? Qual é a abordagem da sua empresa para essas questões e como os seus negócios podem ser impactados por concorrentes equipados com essas ideias? Qual o papel que os consumidores devem desempenhar no gerenciamento de tais informações? Quais sanções devem existir para evitar o abuso de tais informações? Como nossa sociedade pode se proteger contra o impacto dessa vigilância?

A presença da Apple na CES 2020 garante que essas conversas se intensificarão neste ano - talvez gerando uma discussão tão profunda quanto a que aconteceu com o primeiro dispositivo móvel em 1992.