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Como o open source saiu da comunidade de Devs para ganhar o mundo?

Conceito ganhou escala e deu origem ao movimento de cultura colaborativa, passando a fazer parte das estratégias de muitas empresas

*Gilson Magalhães

03/11/2019 às 9h45

Foto: Shutterstock

Há pouco mais de duas décadas, o termo open source ganhou destaque no Brasil. Podendo ser traduzida como código aberto, em português, a expressão inicialmente se referia a softwares que as pessoas podiam modificar e compartilhar como e quantas vezes quisessem. Mas o que antes se reservava a uma parcela pequena de desenvolvedores e apaixonados por esse modelo disruptivo, hoje se expande vertiginosamente. O conceito ganhou escala, deu origem ao movimento de cultura aberta e colaborativa, e passou a fazer parte das estratégias e do dia a dia de muitas companhias, nos mais distintos segmentos da economia.

Aos poucos, o open source foi conquistando seu espaço, saindo de trás das cortinas, e passando a fazer parte do cotidiano de muita gente. Hoje quase todo mundo já teve contato com alguma tecnologia aberta – ainda que possa não ter se dado conta. Em razão do incrível aumento na capacidade de inovação que essas tecnologias promovem, quase todos os aplicativos em alta no momento, sejam eles de mobilidade urbana, alimentação ou hospedagem, foram construídos baseados nesse elemento. E não para por aí!

Apps bancários também apostam no código aberto para mudar o modo como as pessoas consomem os produtos e serviços dos seus bancos, oferecendo uma experiência muito melhor para os usuários. Instituições financeiras de modo geral estão se esforçando para mergulhar de cabeça na transformação digital, implementando inovações, muitas das quais amparadas pelo open source. O conceito, aliás, é a base para um tema que tem ganhado atenção: o open banking, modelo aberto e colaborativo no qual os dados bancários de clientes são compartilhados de forma segura entre instituições financeiras, para fornecer funcionalidades aprimoradas.

Por trás do universo dos apps, existe ainda mais um exemplo bastante conhecido de código aberto, o Android. Criado pela gigante de tecnologia Google, ele está disponível para diversos fabricantes de celulares, podendo ser adaptado a diversas estruturas. Ainda que existam controvérsias e questionamentos sobre o seu aspecto “aberto”, não se pode negar que o sistema traz diversos elementos de uma plataforma open source.

O avanço dos conceitos colaborativos é tão amplo que o modelo de compartilhamento chegou até ao universo da moda. Fundada por um designer holandês, a Post-Couture Collective é uma marca fashion open source na qual qualquer pessoa pode fazer download de um modelo no site, escolher o tecido, cortá-lo e montar a roupa em casa. Outra indústria entrante nesse mercado é a automotiva. Um case interessante é o da Local Motors, que desenvolveu carros usando pequenas fábricas, com inovação aberta e uma manufatura digital. O processo mescla autonomia com co-criação, conceitos atrelados à inovação. O consumidor se cadastra em uma comunidade e ajuda a desenvolver um carro, desde o design até o motor, como foi o caso do Fiat MIO, carro conceito, todo criado em um processo de colaboração intenso dos próprios clientes da marca.

Até o esporte encontrou um jeito de adaptar o conceito de open source para a sua realidade. Em busca de recursos para manutenção do time, o Esporte Clube Cruzeiro, da região metropolitana de Porto Alegre, desenvolveu o Cruzeiro Open Source, projeto que mescla criptomoedas e o conceito de colaboração. O torcedor que adquirir um token do clube ganha o direito de participar ativamente do processo de gestão, definindo desde questões estéticas, como a cor dos uniformes, até aspectos cruciais como a escalação dos atletas. Ainda que não seja a ideia completa do open source, é um spin-off interessante do conceito de cultura aberta fora do mundo virtual.

Os móveis open source também vêm revolucionando a forma de comprar itens para a casa. O site Opendesk foi a primeira plataforma do mundo em produção de móveis open source. Nele, você pode encontrar cadeiras, bancadas, estantes, armários e mesas de centro. Basta baixar o “layout” e fazer os cortes da madeira numa oficina pessoal ou em FabLabs (laboratórios de fabricação digital).

A comunicação também não fica de fora do universo colaborativo. No último mês, o portal UOL lançou uma iniciativa open source. O portal criou e distribuiu um código gratuito para identificar cidades brasileiras. Usando a base de dados do IBGE, a ferramenta permite encontrar os municípios com base em coordenadas de latitude e longitude. A partir dessas informações é possível oferecer ao usuário conteúdo direcionado e mais atrativo, além de gerar insights para diversos tipos de negócios.

Em comum, todas essas ideias carregam o DNA do conceito open source: colaborar com a vida das pessoas. Criar e desenvolver tecnologias, produtos e serviços que possam facilitar o dia a dia, transformando a sociedade em um ambiente muito mais ágil e integrado. Baseado nessa premissa, posso afirmar que esse é só o começo de um infinito mundo de possibilidades. O open source quebra paradigmas, fronteiras, barreiras e oferece um jeito novo de pensar, interagir e se comunicar. E esse é só o começo, porque ainda há muito mais por vir.

*Gilson Magalhães é Presidente da Red Hat Brasil