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Projeto de criptomoeda do Facebook irá sobreviver ao êxodo de empresas?

Sete dos 29 membros fundadores da Libra Association abandonaram o projeto da criptomoeda do Facebook. PayPal, Visa, Mastercard estão entre elas

Lucas Mearian, Computerworld (EUA)

18/10/2019 às 18h59

Foto: Shutterstock

Após a saída de sete dos 29 membros fundadores da Libra Association, conselho sem fins lucrativos da criptomoeda do Facebook, o destino do projeto parece cada vez mais incerto.

PayPal, Visa, Mastercard, eBay, Stripe, Mercado Pago e Brooking Holdings desistiram da participação na coalisão. A decisão foi tomada quando todos os membros se encontraram na Suíça para formalizar seu compromisso com o projeto.

"De várias maneiras, PayPal, Visa e todos os outros tomaram a única decisão sensata que poderiam tomar nessas circunstâncias", disse a vice-presidente de pesquisa da Forrester, Martha Bennett, por e-mail. "Dada a contínua falta de engajamento regulatório ... e a contínua falta de detalhes sobre os principais pontos da Libra (a moeda), governança da rede, administração do fundo, etc., o risco de danos à reputação era simplesmente enorme."

Além dessas preocupações imediatas, há também o potencial de haver violações de conformidade no futuro - algo que nenhuma das empresas que se retirou aceitaria, acrescentou Bennett. Vale destacar que a Libra está programada para entrar em operação em 2020.

Dante Disparte, chefe de políticas e comunicações da Libra Association, afirmou por e-mail que o conselho não lançará o sistema global de pagamentos "até que perguntas e preocupações dos reguladores sejam abordadas".

"Isso está programado em nossa longa lista antes do lançamento, ajudando a informar reguladores, formuladores de políticas e outras partes interessadas ao redor do mundo sobre nosso compromisso com a inovação financeira responsável e uma forte supervisão", declarou Disparte. "Nossa missão de inclusão financeira conta com amplo apoio global. Mais de 1.500 entidades entraram em contato com a associação de forma proativa."

Especialistas do setor e analistas de pesquisa especularam que as saídas da Libra Association são o resultado da avaliação regulatória sobre a criptomoeda, principalmente a respeito de dúvidas sobre sua capacidade de impedir lavagem de dinheiro e de aderir às regras governamentais do KYC.

Em declarações separadas após a partida, o eBay e o fornecedor de software de pagamento Stripe disseram que "respeitam" ou "apóiam" a visão da Libra Association.

“No entanto, o eBay tomou a decisão de não avançar como membro fundador. No momento, estamos focados em implementar a experiência de pagamentos gerenciados do eBay para nossos clientes", anunciou a empresa.

Em setembro, reguladores franceses e alemães argumentaram que a Libra poderia ameaçar o valor do euro e privatizar ilegalmente o dinheiro. No ano passado, o Banco Central da Índia (RBI), anunciou a proibição do uso de criptomoedas por qualquer entidade financeira regulamentada por conta dos riscos associados.

Os legisladores dos EUA, incluindo membros do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, também expressaram preocupação de que a Libra possa permitir a lavagem de dinheiro ou outras atividades ilícitas. Logo após o anúncio da criptomoeda em junho, o comitê solicitou ao CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, que "cessasse os planos de implementação até que os reguladores e o Congresso tivessem a oportunidade de examinar" as questões e tomar as devidas medidas. Outros legisladores incentivaram os membros da Libra Association a reconsiderar o apoio ao projeto.

Em um esforço contínuo para aliviar as preocupações regulatórias dos EUA, Zuckerberg deve agora testemunhar perante o Comitê de Serviços Financeiros da Câmara em 23 de outubro.

Ao contrário do bitcoin, Ethereum e outras criptomoedas que não são lastreadas por moeda fiduciária, a Libra teria valor de 1: 1 em relação ao dinheiro real. "Isso significa que, para que qualquer unidade de Libra exista, deve haver um valor equivalente em sua reserva", revelou o chefe de criptografia do Facebook, David Marcus, em uma série de tweets defendendo o projeto. "Como tal, não há criação de dinheiro novo, que permanecerá estritamente às nações soberanas."

Katie Haun, parceira do escritório de advocacia Andreessen Horowitz - membro fundador da Libra Association - reiterou que os membros existentes seguiriam em frente com o projeto, twittando após a reunião: "Mesmo que alguns dos membros originais tenham mudado, continuamos comprometidos com o trabalho da Libra."

"Também é importante olhar para este projeto no contexto global", twittou Haun em outro post. "Ao tentar bloquear a Libra antes mesmo de ser construída, os formuladores de políticas dos EUA correm o risco de ceder a liderança sobre uma das tecnologias emergentes mais importantes."

"Não está claro para mim em que direção eles seguirão", disse Avivah Litan, vice-presidente de pesquisa do Gartner, em entrevista anterior. "Acho que a Libra pode ser adiada ou reduzida. Espero que eles possam avançar em países onde não há resposta regulatória."

Após a saída da Mastercard, Visa e eBay na semana passada, Marcus twittou: "É claro que não são boas notícias a curto prazo, mas de certa forma são libertadoras. Fique ligado para mais em breve. Mudar essa magnitude é difícil. Você sabe que está pronto para algo quando a pressão aumenta."

Em um tweet de acompanhamento, Marcus escreveu que agora existem 22 membros oficiais da Associação Libra com "muitos mais por vir".

Wayne Chen, CEO da fintech Interlapse Technologies e co-fundador da plataforma digital Coincurve, explicou que o "efeito bola de neve" das saídas da Libra Association não está ajudando a criptomoeda.

"Com mais de 2 bilhões de usuários globais no Facebook, a emissão de uma nova moeda digital global por uma corporação centralizada pode parecer avassaladora. Isso traz uma grande responsabilidade social, econômica e financeira", afirmou Chen. "As criptomoedas enfrentaram desafios maiores no passado, então a Libra, sendo única em seu próprio design, pode não afetar o mercado atual da forma que as pessoas pensam."

Disparte anunciou que a Libra Association está focada em construir "uma forte associação de algumas das principais empresas do mundo, organizações de impacto social e outras partes interessadas, a fim de alcançar uma implementação segura, transparente e amigável ao consumidor de um sistema global de pagamentos."

"Embora a composição dos membros da Associação possa crescer e mudar ao longo do tempo, o princípio de governança e tecnologia da Libra, juntamente com a natureza aberta deste projeto, garante que a rede de pagamentos Libra permaneça resiliente", acrescentou Disparte.

Quando o Facebook anunciou originalmente seus planos para carteira digital Calibra, em junho, a gigante da tecnologia tinha 27 apoiadores. Esperava-se que essas empresas não apenas aceitassem a Libra como forma de pagamento, mas também servissem como processadores de pagamento: A MasterCard e a Visa deveriam converter as moedas fiduciárias nacionais em Libra e vice-versa. Agora, com a perda dos principais apoiadores de serviços financeiros, o projeto enfrenta, no mínimo, novos obstáculos.

"Eu ainda não descartaria a iniciativa, mas o trabalho da Libra Association se tornou muito, muito mais difícil", declarou Bennett. "Dado que as principais preocupações do PayPal e de outras empresas de pagamento estavam relacionadas à falta de detalhes significativos em relação à conformidade regulatória, é necessária uma mudança real nesse aspecto."

As declarações recentes de porta-vozes da Libra Association não apresentaram planos detalhados, mas seguiram reiterando que a Libra não representará risco para o sistema monetário. "Se reguladores e governos concluírem que sim, será necessária uma resposta mais abrangente e profunda", concluiu Bennett.