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Exclusivo: Google deve ampliar capacidade de data center ‘em breve’ na AL

Em entrevista a Computerworld Brasil, Robert Enslin fala sobre as estratégias da companhia para conquistar o mercado de cloud pública

Carla Matsu

11/10/2019 às 19h29

Foto: Divulgação

O Google quer deixar claro que não tem medido esforços - e contratações - para crescer a sua participação no mercado de cloud pública. Prova disso é que a divisão Google Cloud passou por uma renovação de liderança em tempo recorde. A começar por Thomas Kurian, ex-Oracle, que no início deste ano assumiu o cargo de CEO do Google Cloud, substituindo Diane Greene. "Nós estamos contratando alguns dos melhores talentos da indústria para crescer nossas vendas, e vocês verão a gente competir de forma muito mais agressiva a medida que seguimos", disse Kurian em fevereiro deste ano em conferência em San Francisco, como reportou a CNBC.

Entre as contratações está Robert Enslin, que permaneceu por 27 anos na SAP, tendo, inclusive, assumido a posição de CEO da SAP Japão. Em abril deste ano, o executivo assumiu o cargo de presidente para Global Customer Operations no Google Cloud. Já da Oracle, o Google foi buscar outro veterano da indústria. Antes de assumir a posição de presidente de Vendas para América Latina do Google Cloud, Eduardo Lopez somava uma trajetória de 20 anos na companhia de Larry Ellison. Os dois executivos concederam uma entrevista exclusiva à Computerworld Brasil nessa quinta-feira (10) durante a terceira edição do Google Cloud Summit, em São Paulo.

Batalha de gigantes

O mercado de cloud pública segue, até então, dominado pela Amazon Web Services. Segundo análise do Gartner, a AWS lidera o mercado de IaaS (Infraestrutura como Serviço). Na sequência, aparecem Microsoft, a chinesa Alibaba e o Google na quarta posição. Neste ano, durante o anúncio dos resultados financeiros do segundo trimestre, o CEO do Google Sundar Pichai disse que a divisão de cloud da companhia caminhava para uma receita anual de US$ 8 bilhões. Na mesma ocasião, Pichai prometia que a gigante de Mountain View triplicaria o tamanho de sua operação "nos próximos anos". Lopez e Enslin, entretanto, adiantam o prazo: "este crescimento se dará já para este ano".

"Quando falamos em triplicar a organização, estamos falando de colocar mais pessoas próximas ao cliente", destaca Lopez. "Estamos ampliando time de pessoas aqui no Brasil, México, na Argentina, no Chile, Colômbia, Caribe. Nós queremos estar muito próximos do cliente", complementa Lopez.

Ganhar território em cloud pública neste momento, onde as companhias avançam com projetos de transformação digital, é crucial para as gigantes que querem manter a linha de frente. Afrouxe um pouco as estratégias, e o universo de cloud pode soar uma abstração distante - e rapidamente. "Apenas aqueles fornecedores que investem capital para expandir em construir data centers em escala através de múltiplas regiões terão sucesso e continuarão a capturar market share", disse Sid Nag, vice-presidente de pesquisa do Gartner. Neste sentido, Enslin adianta - em primeira mão - os planos do Google em ampliar a capacidade "data-centrica" na região: "Estamos pensando em aumentar a capacidade de data centers na região. Esperamos fazer um anúncio em breve", revelou à Computerworld Brasil. "A questão", continua o executivo, "é dar o nível certo de cobertura, para que os clientes saibam onde estamos e para que nós possamos estar com os clientes muito mais frequentemente. Entre os casos de sucesso exibidos no Google Cloud Summit neste ano estão parcerias com a FCA (Fiat Chrysler Automobiles), com o Itaú e a B2W Digital, gigante do varejo online no Brasil que reúne Submarino, Shoptime e Americanas.com.

João Bolonha, diretor do Google Cloud Brasil e Eduardo Lopes, presidente de Vendas para América Latina

Como conquistar mercado? Sendo aberto

O Google é, essencialmente, uma empresa de dados. E a companhia tem construído seus alicerces, nos últimos 20 anos, ao redor daquilo que tem se tornado o bem mais valioso para as empresas. E para entregar valor ao redor dos dados, o Google avança soluções de inteligência artificial e machine learning em uma abordagem que Enslin gosta de ressaltar como "aberta", orientada para a comunidade. A companhia posicionou uma nova solução neste ano que vai nesta direção. Chamada de Anthos, a plataforma foi desenhada para conectar microsserviços, endereçando as necessidades dos desenvolvedores para os desafios de PaaS (Platform as a Service), assim como para atender o universo de cloud híbrida de clientes. A companhia defende o Anthos como a plataforma da transformação digital para as organizações e que pode, inclusive, rodar em nuvens concorrentes.

Ao mesmo tempo, o Anthos é uma forma do Google se antecipar para atender um mundo cada vez mais fragmentado em diferentes nuvens.  Manter o caráter open source da tecnologia, diz Enslin, é importante para atrair desenvolvedores. "O Google sempre teve uma filosofia aberta. Por que não pegamos o Kubernetes e tornamos proprietário? Não, deixamos abertos para todos usarem. E o que acontece quando você faz isso, a parte importante é como a comunidade está participando no desenvolvimento do Anthos. Temos uma comunidade de milhares de pessoas que estão construindo o Anthos ao redor do mundo e é isso que muda o jogo", complementa.

De olho em verticais

O Google Cloud tem trabalhado próximo a seis verticais: setor público, finanças, healthcare, mídia e operadoras, manufatura e varejo. Segundo o executivo, o foco que a divisão de cloud busca dar é criar conjuntos de soluções orientadas para cada vertical.

"Usamos a tecnologia e a experiência que nós temos e vamos ao mercado com isso. Com isso conseguimos determinar o valor que os clientes buscam, ao invés de entregar somente soluções de tecnologia. É dessa forma como buscamos mudar a dinâmica do mercado. Nosso foco não é ser o número 1, nosso foco é ser o mais respeitado, lembrado, porque o valor que nós oferecemos é altamente diferenciado", conclui Enslin.

Em coletiva com jornalistas, João Bolonha, diretor do Google Cloud Brasil, destacou que o Brasil se tornou o maior mercado da América Latina e que o consumo de serviços em nuvem dos clientes saltou mais de 300% em 2018. "É o nosso maior mercado e o que cresce mais rápido", disse. Questionado sobre como o Google planeja ampliar sua participação no mercado frente a Amazon e Microsoft, o executivo segue em um tom mais pacificador.

"Se você recorrer aos analistas, eles dirão que 88% das empresas têm como padrão, tudo que elas farão novo, a nuvem. Mas há empresas que nascem hoje e aquelas que já estão há muito no mercado. Na realidade atual, 15% desse mercado fez alguma movimentação para nuvem. Tem-se mais de 80% do mercado a explorar, então é mais do que se tem a fazer do que já ir atrás do que já foi feito. Não estamos preocupados em ir em base instalada de competidores", destacou.