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Transformação digital requer planejamento e participação dos colaboradores

Ganesh Hegde, diretor de Product Marketing da GE Digital, falou com exclusividade sobre boas práticas e oportunidades para a Indústria 4.0

Mônica Wanderley

02/10/2019 às 11h32

Foto: Shutterstock

Com mais de 20 anos de experiência em tecnologia, Ganesh Hegde desenvolveu boa parte da sua carreira no setor industrial, focado em projetos com foco no uso de soluções digitais para otimizar o trabalho realizado por fábricas de diversos segmentos. Conhecimento bastante útil nesse momento, no qual as empresas estão adaptando suas operações para se adequarem aos requisitos da Indústria 4.0, que pede por estações de trabalho mais conectadas e pessoal especializado em análise e extração de dados.

No cargo de diretor de Product Marketing da GE Digital, Hedge esteve recentemente no Brasil para um evento organizado pela Aquarius Software, que oferece suporte na aplicação de todos os serviços que a GE Digital disponibiliza localmente para a indústria.

Em entrevista exclusiva para a Computerworld, o executivo comentou sobre os fatores necessários para se realizar uma implementação bem sucedida, os desafios de segurança e como ele acredita que será o futuro do uso de tecnologia nas fábricas. Confira:

 

Computerworld Brasil: As empresas estão se reinventando para atender as demandas da Indústria 4.0. Dentro da sua experiência, existe alguma característica em comum compartilhada pelas companhias que estão superando esse desafio?

Ganesh Hedge: A Indústria 4.0 funciona como uma estrutura ou um princípio. Tecnologia  recentes como Internet das Coisas, Nuvem e Big data, em conjunto com novos modelos de negócios, estão impulsionando a adoção de soluções 4.0, que são utilizadas para transmutar digitalmente os negócios para um formato diferente.

E essa alteração não envolve apenas novas tecnologias: ela inclui a transição de processos de negócios e uma mudança da cultura da organização. Isso pode ser desafiador se não houver o nível certo de apoio interno ou se os parceiros de negócios não estiverem envolvidos.

 

 

CW: No caso das firmas que não estiveram na primeira onda de transformação digital e que se encontram atrasadas nesse processo, quais aspectos precisam ser priorizados para alcançar a concorrência?

Ganesh: A transformação digital não é um projeto único ou algo que possa ser implementado de uma vez: ela é uma jornada que as empresas precisam seguir. Companhias estão em vários estágios nessa jornada; seja realizando a adaptação individual das plantas, integrando a rede de manufatura, desenvolvendo produções colaborativas ou processos orientados por solução orquestrada.

Diferentes empresas estão em diferentes níveis e estágios nesta jornada. A primeira coisa que elas precisam garantir é que os equipamentos da fábrica tenham a capacidade de gerar os dados e armazenar os sistemas necessários para extraí-los. É preciso entender qual a meta que o negócio pretende atingir e qual nível de transformação de processos é necessário para concretizá-la.

Depois, o passo seguinte é integrar as operações, processos e ativos alinhados ao novo modelo de negócios. Uma vez feito, os clientes podem levar essa estrutura ao próximo nível de otimização para toda a planta, de forma a avançar para a fabricação orquestrada orientada por soluções.

 

 

CW: Quais as melhores práticas que podem ser adotadas para que a implementação da tecnologia de Internet das Coisas seja feita de forma eficiente e segura dentro das fábricas? 

Ganesh: É importante entender qual tipo de transformação o negócio precisa passar para alcançar a meta definida pela empresa e, em seguida, entender quais são as principais habilidades ou recursos necessários para chegar ao objetivo.

Tenha a certeza de que o time executivo e os parceiros de negócio compreendam e apoiem o processo de mudança e estejam dispostas a realizar a mudança de cultura necessária para incluir o uso dessas tecnologias no dia a dia.

O sucesso do setor 4.0 depende da capacidade de desbloquear recursos de dados usando análises e outras tecnologias, como aprendizado de máquina e IA. Identifique a equipe de análise nas unidades de negócios, de acordo com os objetivos estratégicos.

Também existem outros fatores mais técnicos que precisam ser considerados: a capacidade de gerenciamento de dispositivos da fábrica, de forma a entender se as questões de segurança e conectividade estão atualizadas; entender e definir o modelo de arquitetura, já que grandes fábricas necessitam de diferentes abordagens, dependendo do setor; e desenvolver um planejamento de conectividade capaz de enriquecer os dados com contexto e fornecer visibilidade em toda a rede de manufatura.

Comece pequeno com um piloto, prove o valor comercial e escale a partir daí.

 

 

CW: É possível aplicar Inteligência Artificial em operações de pequeno e médio porte ou essa tecnologia ainda só é acessível para grandes corporações? 

Ganesh: O uso de IA como tecnologia ajuda até mesmo as pequenas e médias empresas a serem competitivas no mercado. Com a adoção da indústria 4.0 e tecnologias como IA, pequenas e médias empresas podem competir com sucesso com grandes corporações.

A Inteligência Artificial é um recurso que ajuda os clientes não apenas na redução de custos, mas também a melhorar a produtividade e o tempo de finalização de um produto para ir ao mercado. A combinação de inteligência artificial, robôs avançados, fabricação aditiva e a Internet das Coisas (IoT) será combinada para dar início à quarta revolução industrial.

A maioria das empresas de manufatura, cerca de 80%, espera ver efeitos positivos das iniciativas de IA, com um aumento previsto na receita de 22,6% e uma redução de 17,6% nos custos.

 

 

CW: Como é a abordagem da Indústria 4.0 em temas como privacidade e segurança de dados e o que as empresas podem fazer para se proteger suas fábricas contra ameaças externas?

Ganesh: Muitos sistemas de controle, como CLPs (Controladores Lógicos Programáveis) e IHMs (interação humano-computador), são projetados para funcionar de forma independente. Com a convergência de TI  e OT (tecnologia operacional) ao longo da Indústria 4.0, é provável que os sistemas de controle sejam expostos na Internet como resultado da crescente conectividade entre a OT e as redes de TI.

À medida que mais sistemas conectados forem implantados, as oportunidades de ataques contra a fabricação aumentarão. Os dados da cadeia de suprimentos (incluindo informações de pagamento e registros confidenciais de clientes) são tentadores para criminosos. Um ataque bem-sucedido contra apenas um elemento de uma cadeia de suprimentos, feito no momento certo, pode causar grandes problemas.

Uma abordagem de ‘segurança em primeiro lugar’ para a implantação de novos sistemas conectados é essencial. As empresas que compram essas tecnologias devem insistir que os fornecedores de tecnologia e os fabricantes de equipamentos conectados se comprometam com correções e auditorias regulares de segurança e software.

 

CW: O setor de Product Marketing faz parte de uma das área que mais se beneficiaram com a evolução da tecnologia, já que podem usar dados para tomar decisões mais estratégicas e orientadas a resultados. Quais conselhos você daria aos CMOs que estão planejando criar uma cultura de dados em suas empresas?

Ganesh: Os princípios que indústria 4.0 aplica no setor de manufatura também podem ser utilizados pelos setores de marketing que atuam neste mercado.  Trata-se de integrar e transformar processos de negócios alinhados com os novos modelos de negócios que estão impulsionando a mudança.

Por exemplo: uma das principais tendências do setor é a fabricação centrada no consumidor. Com isso, as empresas precisam prever a demanda com mais precisão em tempo quase real. Para que isso seja possível, as organizações de marketing precisam produzir previsões precisas com o uso de uma cultura orientada a dados. As novas tecnologias, como big data, analytics e IA, permitem que eles façam isso.

Os CMOs precisam entender os novos direcionadores de negócios e adotar novas tecnologias como IA, big data e analytics em todas as suas atividades de marketing (tanto internas como externas.)

 

 

CW: O uso de Internet das Coisas em plantas fabris é uma tendência que há anos já estava no radar dos especialistas, mesmo quando sua aplicação era impossível de ser executada.  Você consegue imaginar o que, no futuro, será utilizado para melhorar a eficiência das fábricas, mesmo que execução seja apenas em um futuro distante?

Ganesh: É verdade que as indústrias possuíam anteriormente sistemas e equipamentos conectados. Mas essa operação era feita em silos. A Indústria 4.0 é uma jornada que envolve diferentes empresas em estágios distintos desta caminhada. Muitos deles estão na fase "Reagindo" [às mudanças) ou  em "Operações integradas".

Quando as empresas sentem a necessidade de avançar para a fabricação colaborativa orquestrada e orientada para a solução, elas precisam adotar novas tecnologias nos moldes do setor 4.0. As tendências futuras seriam sistemas mais autônomos, com a Inteligência Artificial incorporada em equipamentos e sistemas que tomam decisões instantâneas, permitindo que fábricas e operações sejam mais inteligentes do que antes.

 

*Perguntas e respostas foram editadas para melhorar a fluidez do texto