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Michael Dell: “se você não usar dados em sua vantagem, você falhará”

Companhia celebra 20 anos de operação no Brasil e contou com presença do CEO no Dell Technologies Forum

Carla Matsu

01/10/2019 às 22h26

Foto: Carla Matsu

A Dell Technologies completa em novembro seus 20 anos de operação no Brasil. A efeméride foi lembrada durante o Dell Technologies Forum, realizado nesta terça-feira (1/10) em São Paulo em clima de nostalgia e com Michael Dell, CEO e fundador da fabricante, com uma participação surpresa ao palco. Desde a última vez que o executivo esteve no Brasil já se foram 10 anos. "Penso que os próximos 35 anos serão ainda mais animadores pela transformação digital, com tudo inteligente e conectado", afirma o executivo relembrando a trajetória da companhia que ele deu início em 1984 quando ainda frequentava os corredores da Universidade do Texas, em Austin. "Acho que não vimos nada ainda. A jornada digital está apenas começando", completou.

Era novembro de 1999 quando a Dell inaugurava sua sede e fábrica em Eldorado do Sul (RS). Se a companhia se lançava no País para a produção local de desktops, dois anos depois dava a largada na fabricação de servidores. Em 2007 migrava sua fábrica para Hortolândia, interior de São Paulo, para melhor atender a demanda crescente vinda da região sudeste. Atualmente, a operação brasileira conta com 4 mil colaboradores, sete escritórios e se prepara para inaugurar, em breve, o Digital Labs - braço da companhia dedicado a trabalhar com startups e desenvolver, em parceria com clientes, soluções calcadas nas metodologias ágeis.

Luis Gonçalves, presidente da Dell Technologies Brasil, reforçou que os altos investimentos no Brasil - apesar de não serem divulgados publicamente - visam atender um mercado em crescimento. "Hoje o Brasil está entre as 10 maiores economias do setor de TI do mundo. O setor cresce nove vezes mais rápido do que o PIB brasileiro, e o setor de software quase ao dobro, o Brasil tem números superlativos", resume.

Transformação digital também atravessa a Dell

Para atender o tipo de transformação digital que os clientes estão endereçando, a Dell também precisou se reinventar. Segundo Greg Bowen, CTO da Dell Technologies, é um trabalho que nunca terminará. Bowen também é vice-presidente sênior da divisão da companhia chamada de The Dell Digital Way, que se debruça sobre práticas ágeis e squads para acelerar projetos de clientes.

O executivo destaca uma pesquisa recente divulgada pela Dell e realizada em parceria com a Intel. O estudo buscou entrevistar líderes ao redor do mundo para avaliar o grau de maturidade da transformação digital das empresas. A primeira vez que foi aplicada era 2016. Dois anos depois, o estudo evidencia que pouco mudou. Apenas 5% das empresas entrevistadas se sentem confortáveis - ou confiantes - de que são líderes digitais. "A maioria ainda está na infância da transformação digital", sinaliza Bowen.

Entre os principais desafios encontrados pela companhia, a maioria delas (91%), para entregar projetos de digitalização estão barreiras em tempo, falta de talentos, investimentos e a capacidade de assumir riscos, este um fator relacionado intrinsecamente à mudança de cultura das companhias.

Bowen endossa o coro de que a transformação digital não deve ser encarada como um gasto. "Toda a indústria e todas as tecnologias estão formando um ecossistema de dados. Dados que estão se movendo entre as tecnologias, criando, analisando e pegando insights", diz o executivo. "Muitos gostam de dizer que dados são o novo petróleo. Mas gosto de pensar neles como a água, pois água suporta tudo o que fazemos. Dados são renováveis, inesgotáveis e nós produzimos mais rapidamente", reflete ao citar um dado da consultoria IDC que estima que até 2025 serão produzidos 163 zetabytes de dados. "Com sorte, hoje temos mais poder computacional e recursos. Edge, inteligência artificial, 5G", complementa.

Michael Dell é um pouco mais categórico quando joga luz à importância do chamado data-driven. "Se você não está usando em sua vantagem (dados), para fazer melhor decisões e expressar suas vantagens competitivas em software, você está fazendo errado", alerta. "Vai ser muito difícil ser competitivo no futuro se você não estiver usando essas ferramentas para expressar essa competitividade. E como os dados estão alcançando todos os lugares, não funcionará se você não aplicar inteligência artificial e Machine learning".

O futuro? Não dá para prever, mas dá para apostar

Em um curto espaço dedicado a responder perguntas, Michael Dell foi indagado sobre o movimento incomum que a companhia fez no final do ano passado quando se tornou uma empresa pública novamente - em 2013, a Dell se tornava uma empresa privada. "Mudou alguma coisa?", veio a pergunta da plateia. "Diria que não houve mudanças", ponderou Dell. "Quando nos tornamos privados, nós mudamos o horizonte. Pensamos em uma empresa para ser mais curto a médio prazo. E agora que somos uma empresa pública novamente, nós temos um controle que nos dá flexibilidade para pensar no negócio a longo prazo. Nós temos acionistas que controlam cerca de 19% dos votos da companhia e eu controlo a maioria. Isso é legal", ironiza em tom de brincadeira. "Isso nos permite não sermos super obsessivos com o curto prazo", complementa. Vale lembrar que a VMware, empresa do grupo líder em virtualização, recentemente anunciou a compra de duas companhias - Carbon Black e Pivotal. As aquisições reforçam a estratégia da Dell Technologies no movimento que a indústria chama de "futuro definido por software".

Encontre-se em um evento de tecnologia e as pessoas ao seu redor trabalharão para lhe dar um bom senso do que está por vir. Michael Dell foi indagado sobre qual tecnologia teria o poder de inspirar novas revoluções. Foi a deixa para ele sair com bom humor. "Uma coisa que eu sei sobre o futuro é que ele é muito difícil de ser previsto. E olhando para a história, as pessoas que tentaram fazer isso, a maioria falhou. Bill Gates, Andy Grove, esses caras, eles foram bons em prever o futuro? Horríveis. Por que eu seria diferente?", brincou. "É claro que temos de fazer algumas apostas. E não é apenas nossos engenheiros, PhDs, cientistas desenvolvendo produtos. Nós temos bilhões de interações com clientes a cada ano e agora as máquinas estão falando com a gente. Mas acho que a inteligência artificial será dominante (...) Acho que o 5G, a medida que se desenvolve, haverá muitas inovações nos modelos de negócios no topo da tecnologia e isso vai ser fantástico. Acho que não temos uma bola de cristal perfeita. O melhor é ter ouvidos e escutar o que nossos clientes estão nos falando. Eu comecei essa empresa há 35 anos em meu quarto na Universidade do Texas e como saímos de lá para estar aqui hoje em São Paulo? Nós ouvimos. E nós resolvemos os problemas que não estavam sendo solucionados e nós amamos o nosso trabalho", concluiu.