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Preservada, Amazônia pode ser uma das bases da 4ª Revolução Industrial

Na biodiversidade tropical estão contidas, em várias frentes, possíveis tecnologias disruptivas cujas tendências vão mudar nosso cotidiano

Por Arie Halpern*

28/08/2019 às 18h21

Foto: Shutterstock

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O impacto da exploração econômica da Amazônia tem sido motivo de preocupação entre os círculos dos quadros técnicos e dos ambientalistas, tendo ganhado as manchetes dos jornais, além de entrar na agenda de discussão das ruas no Brasil e no exterior.

É um fato conhecido que, principalmente, nas porções sul e leste, há uma pressão sistemática sobre a floresta, que cede terreno a atividades agropecuárias e à mineração. As soluções para a questão ambiental certamente são multifatoriais, mas antes de mais nada dependem do redimensionamento da forma como o próprio problema é colocado.

Os debates públicos, na maior parte das vezes, levam a uma falsa contradição entre a geração de riquezas e a preservação do ambiente natural. No entanto, esses termos só são assim postos porque deixam de lado o conceito-chave para compatibilizar preservação e interesse econômico: o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias.

A evolução de plantas e animais, que durante bilhões de anos se adaptaram para sobreviver e se reproduzir, criou uma diversidade espetacular que nós, seres humanos, habitantes recentes deste planeta, recebemos como legado – com o direito de usar, mas também com o dever de preservar. Essa infinita sucessão de tentativas, erros, adaptações e acertos da seleção natural é o maior e mais rico laboratório do universo conhecido. Ele proporciona respostas que estão muito além da capacidade de cálculo de qualquer modelo de previsão que possamos sonhar em desenvolver. E justamente esse magnífico acervo de dados, se assim quisermos chamar, tem seu capítulo mais rico nas florestas tropicais, a maior delas fundamentalmente localizada no território brasileiro.

A maneira como pensamos a Amazônia deve mudar de acordo com esse ponto de vista. Como apontado por um importante estudo publicado por pesquisadores brasileiros, chefiados por Carlos Nobre, na revista científica internacional PNAS, o modelo de ocupação da floresta brasileira fica entre as áreas de preservação e aquelas que são liberadas para atividades econômicas com baixa produtividade, ou seja, insustentáveis. Essa formação tende, segundo a pesquisa, e provocar um retalhamento das áreas verdes, o que, em longo prazo, inviabiliza a própria sobrevivência da floresta como sistema complexamente integrado.

A saída para esse falso impasse entre economia e meio ambiente é privilegiar formas de geração de riqueza que agreguem valor pela pesquisa e aplicação de tecnologias, tirando da floresta aquilo que de melhor ela pode oferecer: conhecimento útil para áreas como farmacêutica, engenharia de materiais, biotecnologia, energia e até mesmo mecatrônica.

Na biodiversidade tropical estão contidas, em várias frentes, possíveis tecnologias disruptivas cujas tendências vão mudar nosso cotidiano nas próximas décadas. Além das aplicações mais claras, como o desenvolvimento de novos remédios a partir do estudo de substâncias produzidas por vegetais, anfíbios e répteis, ou o uso de enzimas para melhorar processos produtivos do agronegócio, há ainda a tendência global de pesquisas biomiméticas, nas quais equipamentos artificiais imitam procedimentos de animais e plantas desenvolvidos no longo processo evolutivo.

E essa forma mais inteligente de exploração econômica da floresta está sendo apontada por especialistas de todo o mundo como uma das bases da chamada 4ª Revolução Industrial. A 1ª Revolução, há cerca de 200 anos, foi propiciada pela mecanização e energia do carvão, a 2ª pelo petróleo e eletricidade, a 3ª pela informatização.

Agora, passamos por um novo momento de ruptura, tendo como fatores de propulsão a Internet das Coisas, a Inteligência Artificial e também – com muita ênfase – a biotecnologia. Suas aplicações ao longo do século 21 vão transformar totalmente as maneiras pelas quais tratamos da saúde, nos relacionamentos com os modos de produzir, de utilizar vestuários, transportes, de nos alimentar.

No último dia 19, a população de São Paulo teve um vislumbre do que pode representar uma tragédia ambiental, quando no meio da tarde o céu se tornou escuro como noite, resultado da adição de fuligem das queimadas do Norte que encontrou uma frente fria passando pelo Sudeste. São sinais muito eloquentes do que está ocorrendo e cabe, a toda humanidade, mas particularmente aos brasileiros, no portal nessa nova era do conhecimento que começa, decidir se vamos usar nosso mais precioso bem para um salto tecnológico ao futuro ou, da maneira como já fizemos com a Mata Atlântica, desperdiçá-lo, o transformando em área transitória de monoculturas e pastagens.

*Arie Halpern é economista e presidente da Tonisity International, empresa irlandesa de biotecnologia para a nutrição animal, e investidor do setor de tecnologia e inovação