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A cultura competitiva e muitas vezes sem noção do registro de patentes

Por que é importante tirar os holofotes das invencionices e focar na estratégia por trás do conceito apresentado

Da Redação

23/08/2019 às 10h00

Foto: Shutterstock

Olhando de fora, o setor de patentes para um ambiente no qual mentes brilhantes se reúnem diariamente para construir produtos ou serviços que irão revolucionar o mundo. Só que vida real é bem menos altruísta e mais prática do que parece.

Essa super reportagem publicada pelo portal Slate explica como é o processo de produção de patentes e como as empresas usam a metodologia como um escudo para se proteger da concorrência. Sem falar no fato de que, ao contrário do que se acredita, nem tudo o que está registrado no documento foi sequer testado, quanto mais comprovado.

Abaixo, colocamos um resumo sobre os principais temas abordados que explica um pouco desse universo:

Parece, mas não é

Para ser registrado, um pedido de patente precisa conter um resumo da invenção, um sumário, uma seção de background, ilustração e um capítulo reivindicando alguma habilidade ou tecnologia. Essa é a parte mais importante do documento, pois vai dizer, de fato, o que a empresa quer proteger.

Porém, na maioria das vezes a descrição da patente é tão vaga ou confusa que deixa o objetivo final muito aberto à interpretação. Por exemplo: em 2012, a Sony patenteou um recurso para TV na qual o telespectador poderia cortar os comerciais ao gritar o nome de uma marca. Só que, no registro de patente, a descrição estava como “Um método executado por um processador para fornecer conteúdo multimídia interativo”.  Não muito fácil de entender, convenhamos.

Dinheiros e papelada

Patentear uma invenção custa caro: cerca de US$ 10 mil entre honorários e taxas nos Estados Unidos. Até por isso, é comum que apenas grandes empresas consigam registrar uma grande quantidade desse documento. O processo de criação de uma patente, aliás, é bem menos interessante do que se imagina.

Em geral, acontece uma reunião entre cientistas e desenvolvedores, na qual eles sugerem produtos ou serviços que achem úteis e apresentam alguns conceitos para fundamentar a ideia. A partir daí, é função de um advogado organizar de forma coerente o emaranhado de informações e apresentar o documento para registro.

"Exemplos proféticos"

O termo acima é um dos pontos mais importantes que você precisa saber sobre a redação de patentes. E ele significa o seguinte: que você pode escrever o que a sua invenção vai fazer sem a necessidade de comprovar a hipótese. Ou seja, se uma empresa quiser patentear um modelo de aeronave que não use asas ela pode, mesmo sem ter a menor ideia de como fazer isso.

Um caso prático aconteceu com a Theranos, startup que fez sucesso nos EUA afirmando ter desenvolvido uma máquina que, com uma gota de sangue, conseguia testar a amostra para mais de 200 enfermidades.

No registro de patente do equipamento, havia um trecho explicando que “micro-agulhas automaticamente retiravam pequenas quantidades de sangue indolorosamente. Um atuador mecânico insere e retira a agulha”. Nada disso era verdade.

Patentear ou não patentear?

Enquanto registrar uma invenção pode ser estratégica para segurar os negócios, nem sempre as empresas desejam fazer isso registro. Isso porque ela se trata de um documento público e é impreterível que ela explique como o projeto funciona.

A SpaceX, por exemplo, quase não possui patentes divulgadas. Em uma entrevista, Elon Musk, fundador da empresa, explicou o motivo: “Nossa principal concorrente de longo prazo é na China. Se publicássemos patentes, seria um tiro no pé, porque os chineses só as usariam como livro de receitas ”.

Briga (corporativa) de foice

Para quem já está em um mercado bastante competitivo e deseja impedir que a concorrência ganhe mais terreno, investir em patentes pode ser uma boa. Dentro de diversos mercados, a produção desse tipo de documento é vista como uma espécie de “corrida armamentista”, na qual as marcas se cercam de todas as formas possíveis.

Por conta da quantidade de documentos produzidos, em casos de fusões ou negociações de patentes, as empresas não analisam uma a uma para que a divisão seja igualitária. Grosso modo: a companhia maior fica com mais patentes.

Visão além do alcance

E daí você pergunta: “Se a maioria das patentes são apenas protecionistas e as informações nem sempre são de coisas comprovadas, porque vale a pena lê-las?” A questão é que esse tipo de documento mostra qual é a preocupação recente da companhia.

A Amazon, por exemplo, emitiu em 2016 uma patente que falava sobre uma espécie de jaula na qual os funcionários usariam para andar na fábrica sem o perigo de serem machucados por máquinas. No final, a empresa acabou encontrando uma solução melhor. Mas o documento ajudou a perceber que essa era uma questão importante dentro da empresa.

Por isso, quando o assunto é patente, é importante se atentar para o geral e não ligar muito nos pormenores, por mais fantásticos que eles pareçam.