Home  >  Negócios

5 perguntas para Paula Paschoal, do PayPal

Diretora-geral da companhia no Brasil, vê com bons olhos crescimento e consolidação de players de e-commerce e elogia visão inovadora do Banco Central

Vitor Cavalcanti*

01/08/2019 às 14h47

Foto: Divulgação

Embora não abra números locais, o PayPal tem ido bem no Brasil, com avanço significativo e a expectativa interna, e provavelmente, dos investidores é de mais crescimento, haja vista aprovação recente do Banco Central para que a companhia opere como instituição de pagamentos no País, o que deve acelerar a chegada de novos produtos ao portfólio trabalhado pela subsidiária brasileira como o Working Capital, uma espécie de dinheiro de capital de giro para pequenas empresas cujo pagamento é feito por meio de um porcentual das vendas realizadas pela plataforma PayPal.

Paula Paschoal, diretora-geral da PayPal Brasil, se mostra bastante otimista com o cenário local, ainda que a macroeconomia não tenha respondido tão fortemente. Parte do ânimo da executiva vem do aquecimento do mercado de e-commerce no Brasil, que recentemente teve a compra da Netshoes pelo Magazine Luiza, mas também ao que ela classifica de uma atuação mais sofisticada do Banco Central. A seguir, você confere um resumo da conversa que tivemos com ela, onde, além de outras coisas, ela também fala sobre o trabalho que ela realiza com outras executivas para incluir mais mulheres em posições de liderança.

IT Trends - O mercado de e-commerce no Brasil tem crescido e aponta até para uma consolidação de grandes players, como se viu no caso da Magazine Luiza comprando Netshoes. Como vocês têm visto e o que enxergam de oportunidades?

Paula Paschoal - A gente vê com bons olhos. Não só o e-commerce, como o digital como um todo, e isso inclui todos os aplicativos móveis. A gente vem num momento muito positivo por três principais fatores. O primeiro é o engajamento do usuário com aplicativos móveis e meios digitais como um todo, o brasileiro gasta mais de 5 horas por dia no telefone. Eu tenho uma população sedente por inovação e tecnologia. O segundo é a inclusão financeira. Ainda temos no País mais de 60 milhões de desbancarizados, mas acredito que, com a chegada de fintechs, se unindo à confiança e segurança que os bancos tradicionais têm, a gente pode chegar a ter muito sucesso com essa população. E o terceiro está no fato de que o varejo online representa menos de 5% do varejo tradicional, enquanto que, em países mais maduros, esse cenário chega a 15%. Mesmo com todo cenário macroeconômico, temos um ambiente de roubar monte, de roubar movimentação do varejo fixo para o online, capturar em cima dessa migração.

IT Trends - Você está no PayPal desde 2010, em 2017 assumiu a liderança. Como você vê a expansão desse tipo de serviço no País desde que assumiu o posto?

Paula - É um ambiente regulatório cada vez mais sofisticado. Tenho enxergado um Banco Central bastante ativo e num bom sentido, em busca da competição e da inovação. Isso é muito bom e tende a beneficiar o consumidor, trazendo segurança e produtos inovadores e esse movimento vem desde 2017. O ambiente é cada dia mais competitivo, não só pela entrada de novos players, mas por um movimento claro dos grandes de tentarem ser mais ágeis, mais digitais, mais jovens como um todo. E o terceiro ponto é a questão da briga pela inclusão como um todo, igualdade de gênero, oportunidades iguais para pessoas de diferentes raças, idades, e isso traz um time bastante diverso, capaz de pensar em soluções cada vez mais ágeis.

IT Trends - Você falou de concorrência e no Brasil você tem os locais, como Mercado Pago e Pag Seguro, e mais recentemente pesos como Samsung Pay e Apple Pay. E o brasileiro, em tecnologia, é muito ligado à marca. Como você avalia a concorrência nesse contexto?

Paula - É um ambiente bastante competitivo e isso me faz reforçar a importância de parcerias estratégicas. Um exemplo que o PayPal aposta muito é o Itaú. Como que consigo tirar o melhor de uma marca global como o PayPal, que traz o aprendizado não só dos Estados Unidos, mas de 200 países, junto de uma marca tão conhecida e respeitada como o Itaú. Esse tipo de parceria se faz cada vez mais necessária para conquistar o brasileiro, mantendo esse reconhecimento de marca, esse respeito que o brasileiro tem pela marca, com inovação.

IT Trends - Você fala que a gente melhorou muito em questão regulatória, que o Banco Central está mais sofisticado. O quanto regulação impede ou posterga o PayPal de levar serviços como o Working Capital para o Brasil?

Paula - Não chega a impedir nenhuma tomada de decisão. O que a gente precisa sempre fazer, e a PayPal é uma empresa conservadora neste quesito e trabalha sempre muito próxima do regulador, é avaliar todo o impacto e entender se tenho produto, da maneira que está disponível, pronto para se adaptar à regulação local, não vejo isso como um impeditivo para nosso lançamento de produtos.

IT Trends - Você, junto com outras executivas no Brasil, lidera a bandeira da igualdade de gênero e inclusão de todas as formas na empresa. Como fazer com que esse discurso não seja contaminado e politizado pela polarização existente no País?

Paula - Tem um lado positivo nisso. Sou sempre muito contra extremos e acho que o equilíbrio é ponto-chave da vida. Mas vejo meu papel indo muito além dos números do PayPal, mas com uma função importante, um papel social de mostrar para outras mulheres de que é possível ser mulher, ser mãe, ser autêntica e, ao mesmo tempo, trabalhar para ter uma carreira, seja em qual área for. Existe essa falta, e eu senti isso ao longo da minha carreira, que é de exemplos de mulheres que são capazes de equilibrar e ter uma vida saudável sendo o que quiser ser.

Ao longo dessa jornada, também me ficou muito claro de que eu sou uma privilegiada. Não é dizer que todo mundo pode ser que acordará e tudo estará mudado. Eu trago uma base muito sólida. Tive oportunidade de estudar sempre em escolas muito boas, tenho uma família estruturada, sou branca, então, eu saio muito à frente. Não é só o fato de contar que é possível, mas para outras mulheres é muito mais difícil do que foi para mim. Então, eu penso que meu papel é deixar um legado para que outras possam ter as mesmas oportunidades que tive.

Voltando à polarização, o que tento fazer é ouvir. As pessoas estão muito preocupadas no que dizer, em como se defender, se posicionar, e muitas vezes a gente não ouve o argumento do outro. E são questões que geram conflitos, as opiniões são diferentes e a gente não precisa concordar, mas precisa ouvir.

*A IT Trends viajou a Nova York a convite do PayPal