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Como as crises ensinaram e fizeram da Positivo a empresa que é hoje

Em entrevista à Computerworld, Hélio Rotenberg relembra a trajetória da companhia que completou 30 anos e suas principais reinvenções e apostas

Carla Matsu

10/07/2019 às 10h00

Foto: Guilherme Pupo

Era 1988 quando o engenheiro Hélio Rotenberg, então, professor de informática das Faculdades Positivo teve um grande insight que iria dar base a toda história da Positivo Tecnologia, empresa com sede em Curitiba (PR). "Eu tinha 27 anos, na época", lembra em entrevista à Computerworld Brasil. "Eu comecei a perceber que as escolas tinham que ensinar informática, mas elas tinham poucos computadores e, junto com professores, comecei a pensar em formas de fabricar um computador localmente. Era um mercado muito fechado na época", destaca Rotenberg. Na época, o Grupo Positivo já tinha uma rede de mais de mil escolas conveniadas.

Se atualmente a oferta de computadores, notebooks, smartphones e até mesmo objetos conectados parece algo trivial, a uma distância de um clique no e-commerce, há 30 anos o contexto era outro. O Brasil ainda engatinhava na democracia e o mercado brasileiro era fechado às importações. Entretanto, a demanda reprimida de alguns setores, como o da educação, pareciam certos para que a Positivo aumentasse as suas apostas - mas não sem vivenciar sua parcela de crise. "Quando [Fernando] Collor assumiu, ele abriu o mercado de informática. Menos de um ano depois, em março de 1990, o mercado mudou totalmente e as escolas não tinham mais poder de investimento. Repensamos a empresa na crise e começamos a vender para outros mercados", conta Rotenberg.

O executivo lembra de crises que marcaram o Brasil e que desafiaram a sustentabilidade da empresa. Do mercado de educação, a Positivo passou a vender software e computadores para empresas e também para o governo, por meio de licitações. "O ideograma japonês, que fala que a crise está na oportunidade sempre marcou a minha vida. Crise significa oportunidade", aconselha o executivo.

O consumidor dita as regras

A maior revolução da Positivo, na visão de Rotenberg, vem em 2004, quando a empresa se lança para o varejo. Se em 2003, a Positivo vendia 21 mil computadores pessoais, em 2004, a companhia saltou para 150 mil PCs vendidos. "Em 2004, éramos líderes no mercado consumidor", destaca. Em 2011, eram 2 milhões de unidades vendidas, segundo dados da própria companhia. Rotenberg lembra que para dar continuidade ao crescimento da Positivo, foi decisiva a abertura de capital da empresa em 2006.

Em um mercado disputado com grandes representantes internacionais, a grande sacada da Positivo foi apostar no consumo da Classe C. "O que mais nos orgulha é ter contribuído para a informatização da sociedade brasileira. Em 2003, o nível de informatização era muito baixo. Hoje, temos mais de 30 milhões de dispositivos criados e entregues", conta.

Outro ponto alto na trajetória da Positivo foi o lançamento da marca de smartphones Quantum, em 2015. Atualmente, a fabricante lidera as vendas dos chamados feature phones, aparelhos de entrada que oferecem acesso limitado à internet e aplicativos. "A gente tem que tentar entender que há toda uma classe social que não consegue pagar mais de 500 reais por telefone, mas existe uma necessidade para que consumidores usem, por exemplo, WhatsApp no celular. Então lançamos um feature phone que ofereça o WhatsApp", indica o executivo. Em junho último, em parceria com o Google, a empresa revelou um aparelho de entrada com um botão dedicado para acionar o Google Assistente.

Os próximos passos

Em três décadas, a Positivo já destinou meio bilhão de reais para pesquisa e desenvolvimento. A diversificação do portfólio de produtos vai além dos computadores pessoais, smartphones e soluções educacionais. Em março deste ano, a companhia anunciou investimento em duas startups do setor de agronegócios, a Agrosmart e a @Tech. Os aportes se deram por meio do Fundo de Investimento em Participações (FIP) da Lei de Informática.

Outra grande aposta da Positivo vê nas casas inteligentes um novo horizonte. Recentemente, a companhia anunciou uma série de produtos conectados, como câmera e lâmpadas também acionados com o Google Assistente. "Quando falamos de IoT, telefone, soluções inteligentes, qual é o preço que o consumidor brasileiro pode pagar para ter Internet das Coisas em casa? Qual é a aplicação de automação que poderá economizar energia, oferecer um alarme, a um preço de 99 reais? Lançamos uma solução para o mercado brasileiro que exemplifica muito a nossa história de fazer produtos adaptados para a classe média brasileira", defende o executivo.

Olhando para os 30 anos da companhia, Rotenberg destaca que o grande trunfo da Positivo foi "o tempo inteiro entender o mercado". Empreender em sua visão, é "antecipar movimentos, estar criando e brigando para entender o mercado, o consumidor. Temos uma trajetória de muita luta e muito orgulho. Trinta anos não é para qualquer empresa. Estamos em um novo momento, não somos mais só uma empresa de informática", atesta Rotenberg.