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Como as APIs podem trazer vantagens competitivas às empresas financeiras

Bancos ainda precisam empreender em uma grande mudança cultural e estratégica, para compartilhar seus dados com terceiros, segundo especialistas

Adriano Bottas, Leo Monte e Rogério Melfi*

24/06/2019 às 19h00

Foto: Shutterstock

Recentemente, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que o sistema de Open Banking é “inevitável”. Tecnologicamente, o que está por trás desse sistema é o uso de APIs (Application Programming Interface), que são funcionalidades que realizam uma tarefa específica dentro de um aplicativo, programa ou software. A nova regulação sobre a detenção de informações dos clientes chega para criar padrões básicos na troca de informações dos milhões de clientes que hoje confiam seus dados a um sistema financeiro.

As APIs podem ser utilizadas pelas instituições financeiras para vários objetivos, como: melhorar a integração de sistemas internos para refinar a entrega aos usuários; trocar informações com outras empresas; oferecer produtos e serviços diferenciados e personalizados; além de levar os serviços financeiros para dentro de outras empresas, como varejistas.

No Brasil, alguns bancos utilizam APIs de operadoras de telefonia para enviar comunicação via SMS a clientes ou por meio das redes sociais, como LinkedIn e Facebook. São ações para obter informações extras sobre os clientes que permitem uma análise de perfil mais detalhada.

Em 2016, o Banco Original foi pioneiro em utilizar APIs, mostrando o saldo de conta corrente no Facebook e Instagram. No ano seguinte, o Banco do Brasil utilizou uma API para que micro e pequenas empresas (MPEs) integrassem suas informações bancárias (saldo e fatura) à uma plataforma de gestão dos negócios, o ContaAzul. A experiência foi um diferencial, por não ter que importar arquivos da conta bancária ou redigitar as informações no software do ContaAzul, são dados que circulam sem atrito entre uma empresa a outra.

As corretoras também estão aproveitando as vantagens da API. Seus robôs de investimentos, que avaliam a posição de um investidor e realizam ordens de compra ou venda automaticamente, comunicam-se com a corretora e usuários, por meio da ferramenta. As fintechs, claro, também surfam na mesma onda, oferecendo crédito ou melhor entendimento aos usuários sobre suas finanças. Trata-se de uma tecnologia que sincroniza contas bancárias dos usuários e faz análises detalhadas de todos os gastos, sem que a pessoa precise anotar.

O uso de APIs na Europa, região em que o Open Banking já é regularizado, mostra que há um mundo de possibilidades a ser explorado. Os bancos ainda precisam empreender em uma grande mudança cultural e estratégica, para compartilhar seus dados com terceiros, como concorrentes e fintechs. Ou seja, para se manterem competitivos, não poderão ficar fechados consigo mesmos.

Se os bancos não abrirem e “conversarem” - por meio de APIs - com outras empresas, fintechs e parceiros, dificilmente fornecerão uma experiência personalizada, sendo ela uma alta demanda dos usuários. A preparação para o futuro requer uma mudança na mentalidade de que tudo deve ser feito dentro de casa, preparando a base tecnológica para a interação e compartilhamento de dados.

Hoje, com a democratização dos serviços financeiros, as pessoas têm acesso a diversas tecnologias de gestão para utilizarem, sendo elas, inclusive, criadas fora do setor que atuam. Na China, o WeChat tornou-se o maior banco do país, sem ter sido criado com esta finalidade, com um sistema próprio de pagamento e integrado a diversos serviços.

Atualmente, uma empresa inovadora não é aquela que tem a melhor tecnologia. Mas sim a que está preparada para receber qualquer solução tecnológica. Apesar dos avanços, as instituições financeiras brasileiras ainda precisam quebrar uma série de paradigmas, como a ideia de que se abrir para outros segmentos, é renunciar à segurança de dados de seus clientes.

Os bancos sempre foram ricos com informações, mas deixaram de aproveitar esses dados por décadas. Com a inclusão das APIs podem conectar as informações de comportamento, gasto e consumo dos clientes a outras empresas, com o objetivo de oferecer experiências inéditas. Vale ressaltar que se fizerem bem, de maneira segura, rápida e acessível, haverá grandes possibilidades de serem escolhidos como canal único para esses serviços.

Em um futuro bem próximo, não haverá mais a instalação de 20 aplicativos de serviços para utilização. Hoje, os usuários gastam muito mais horas nas redes sociais do que nos aplicativos dos bancos. No processo de transformação digital do setor financeiro, as instituições precisam ser capazes de trazer mais conteúdo, informação e serviços que atendam de maneira efetiva os usuários. Se não, quem vai virar um grande banco é o Facebook, por exemplo.

*Adriano Bottas é CEO do GR1D, Leo Monte é Head de Design, Marketing e Produto e cofundador do GR1D e Rogério Melfi é gerente do Programa de APIs do GR1D