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O 5G não invalidará o edge computing

Para especialista e pesquisador da HPE, mesmo que promessa do 5G seja 100% cumprida, haverá espaço e necessidade para processamento local

Vitor Cavalcanti*

20/06/2019 às 18h19

Foto: Shutterstock

Depois de uma forte onda da migração do processamento de informações para nuvem, nos últimos três anos a indústria de tecnologia, em parte por conta do crescimento de projetos de Internet das Coisas (IoT, da sigla em inglês), passou a trabalhar o tema edge computing que, nada mais é que processar localmente. Mas depois de tanto trabalho para levar dados e sistemas para ambientes compartilhados, qual a necessidade de uma mudança de rota em pelo menos parte desses dados? Experiência do cliente, segurança, controle, custo, velocidade de acesso às informações, confiabilidade, largura de banda, políticas, só para citar os principais.

Os motivos listados não foram pensados pela redação, mas cunhados pelo pesquisador e líder global da HPE em edge e IoT, Tom Bradicich, que concedeu uma entrevista durante o Discover, principal evento da fabricante para clientes e parceiros, em Las Vegas. Além da lista de razões pelas quais qualquer empresa, na visão dele, deveria investir em um projeto de edge computing, ele afirma que trabalhar nesse tipo de iniciativa exige um olhar minucioso para o que ele chama de 3 Cs, em português vira 2 Cs e um P: conectividade, processamento e controle. Mas se hoje a demanda é grande, questionamos Bradicich, como ficaria o cenário com a chegada do 5G que, entre outras coisas, promete muito mais velocidade e fim da latência?

“O 5G hoje é uma promessa que pode ou não ser cumprida. Pegue como exemplo a fusão nuclear era prometida para 1986 e até hoje não aconteceu. Mas minha opinião é que, se 5G acontecer como na promessa, irá reduzir a demanda por edge computing. A conectividade de nuvem será melhor e fará muita coisa em tempo real. Mas e se não acontece como previsto? A demanda vai crescer, e muito”, explica o executivo

Ele lembra, no entanto, que não importa o quão rápida seja a rede 5G sempre haverá um dos motivos listados acima que poderá manter uma demanda, ainda que menor, para computação de borda, além disso, seja por analytics, machine learning, entre outras ferramentas cada vez mais utilizadas, como ficaria o cenário para acessar teras de informações em um banco de dados distante? “A Foxconn tem uma grande fábrica que processa na ponta com machine learning e inteligência artificial, imagine toda essa comunicação numa nuvem distante, você pode comprometer o desempenho da fábrica. Por isso, mesmo com 5G haverá uma demanda, porque o custo ainda estará lá, você paga pelo tráfego de informação e como as coisas estão mudando, sempre haverá necessidade de tomar ações mais rapidamente”, relata.

Outro ponto levantado por Bradicich está ligado não apenas ao custo para trafegar informação, mas também à largura de banda o que fará, na visão dele, com que os provedores de telecom incentivem que você processe mais coisas localmente para ter a banda livre para outras ofertas. “Você faz streaming no avião? Seria possível, mas as operadoras não querem, elas preferem que você baixe os filmes e assista offline ou processe localmente no avião. E com isso a banda fica livre para outras vendas”, detalha.

Em resumo, com ou sem 5G, qualquer empresa que tenha problema com alguns dos motivos citados, o executivo entende que faça sentido investir e que o retorno vem rapidamente. Não importa se do setor de saúde, banco, educacional ou varejo, se é uma empresa, por exemplo, que não queira gastar muito com processamento e conectividade para transferência de dados, já é uma boa razão para investir e isso seguirá mesmo se o 5G entregar tudo que promete.

“A banda não é gratuita e hoje ainda temos muitos problemas de conectividade. Pegue o mercado de carros autônomos que ainda é pequeno. Uma das preocupações é latência pelo risco embutido. Num carro tradicional, a latência está entre a troca de informações dos seus olhos, cérebros, mãos e pés. No carro autônomo é uma câmera que conversa o tempo todo com uma nuvem”, exemplifica. Mas ter edge computing dentro dos carros não inviabilizaria o futuro do segmento? “Hoje ainda seria um problema, mas com o tempo o custo cai. Eu não entraria de forma alguma em um carro autônomo se tudo fosse processado em nuvem, é um risco. E isso é senso comum, resultados de estudos práticos”, complementa.

*O jornalista viajou a Las Vegas a convite da HPE