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Pagamentos Instantâneos e Open Banking: o que o regulador ‘traz de novo’?

Há muito tempo já se fala de transformação digital e mais recentemente de reinvenção digital, mas Open Banking é um passo muito além

Mirian Cruz*

11/06/2019 às 18h10

Foto: Shutterstock

Há pouco mais de 18 anos, o Brasil se posicionava com destaque no mercado financeiro global ao implantar o Sistema de Pagamentos Brasileiro, entrando – na época - na nova era dos pagamentos em tempo real. Durante muito tempo o Brasil dividiu esta posição de destaque com poucos países. Desde 2017, o mundo vem se atualizando a passos largos, tanto a Europa com o PSD2, quanto os EUA com o NACHA / Fast Payments, passaram de mercados sem sistema único de transferências entre bancos para modelo integrado e com um roadmap de pagamentos instantâneos já em conclusão.

Aqui estamos exatamente na discussão regulatória destas transformações. Desafios a enfrentar, transformar (ou recriar) as transações em tempo real para instantâneas, ou seja, ser transacional 24x7, já com o padrão ISO 20022. Para isso, há muito o que fazer, adequar os sistemas legados dos bancos para permitir a conciliação financeira em tempo real, criar os instrumentos do regulador que passa a ser mais atuante no ciclo das transações e tudo isso com a expectativa de implantação em novembro de 2020.

Tudo isso para se obter um aumento no controle da liquidez, tanto pelo banco quanto pelo regulador, aumento da competitividade e por consequência da oferta e ainda o alinhamento global na adoção do padrão ISO 20022 (um passo para o “cross boarder”). Mas o que ainda poucos veem é a transformação que isso trará para os modelos de negócios de pagamentos no Brasil.

E ainda tem mais. A Europa e mais alguns países da Ásia foram ainda mais longe, entraram definitivamente na era do “Open Banking”. Mas quem puxou quem? O ecossistema que está buscando cada vez mais novos modelos de negócios ou o regulador que quer fazer a “abertura do mercado”? Na minha opinião, tanto lá fora, quanto aqui este mérito vai para o regulador, exceto para a Ásia.

Quem passou pelas transformações do Arranjo de Pagamentos iniciada em 2013 não imaginava que uma onda maior ainda de transformações chegaria ao mercado brasileiro, mas o que se espera de tudo isso é a verdadeira inclusão de novos entrantes no mercado financeiro. Mas por quê?

O Brasil ainda sustenta uma das maiores taxas de MDR - Merchant Discount Rate, taxas sobre transações de cartões de crédito pagas pelo varejo para se “habitarem” a receber suas vendas por meio de cartão de crédito, mesmo com a recém iniciada guerra de queda das taxas entre os adquirentes no mercado brasileiro, já sabemos o final desta história. Os adquirentes brasileiros que hoje têm sua gestão concentrada pelos bancos possuem em comum o principal objetivo: garantir ativos, recebíveis de cartões, para lastrear suas operações de crédito aos clientes ‘pessoa jurídica’. Mas até aonde isso vai?

Tendo novamente como base o modelo que vem de fora, vamos ver os próprios varejistas e outros segmentos investindo cada vez mais em modelos de negócios financeiros e de pagamentos, diferenciando a oferta de seus produtos e serviços, sem pagar tanto quanto ao terem parcerias com instituições financeiras. E como isso pode acontecer?

O modelo declarado “Open Banking” permitirá a integração de parceiros de negócios em um modelo de “broker” na oferta de produtos e serviços não só financeiros. Mesmo ainda não regulamentado no Brasil, vai se inspirar no modelo europeu (PSD2) o qual acabou por entrar na sua última fase. Mas pelo nosso regulador, vai dar um passo além, não haverá um padrão de plataforma pré-definido, isso o mercado se incumbirá.

Há muito tempo já se falava de transformação digital e mais recentemente de reinvenção digital, mas Open Banking é um passo muito além destas transformações de experiências de usuários e automações de front end. De verdade a agenda de projetos dos bancos precisa ter priorizado a transformação do seu core, cada vez mais ficará claro que a tardia adoção de plataformas híbridas de cloud, a organização por micro serviços, ou seja, a adoção de uma arquitetura flexível é determinante para esta disputa.

Um outro ponto importante que estamos vendo com a evolução do PSD2 na Europa, são os bancos cada vez mais preocupados com esta “abertura”, terem que compartilhar dados dos seus clientes e “aceitarem” as APIs de outros se conectarem ao seu core, os colocam sob forte pressão de concorrência. Mas como “vencer”?

O que os bancos mais tem são dados dos seus clientes, transacionais, estruturados e não estruturados, e é fato que fazem pouco uso dos mesmos. Parte da batalha será vencida por quem efetivamente personalizar o relacionamento e oferta com seus clientes a partir do uso intensivo de ciência dos dados, machine learning, tecnologias cognitivas e ainda mais à frente quantum computing.

Por fim, na dimensão dos negócios podemos concluir que com tudo isso o negócio cartão de crédito será abalado, mas considerando toda a jornada necessária para esta transformação, ainda fica difícil de prever o quanto. É fato que muitos modelos de negócios migrarão para plataformas P2P baseada em pagamentos instantâneos, mas mesmo assim os cartões ainda serão o maior meio de pagamento “cross-boarder”. Pelo menos por enquanto.

*Mirian Cruz é líder de soluções para a indústria financeira da IBM Brasil