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O que está por trás das ambições do Facebook em lançar uma criptomoeda própria?

Lucas Mearian, Computerworld (EUA)

25/03/2019 às 8h32

Foto: Shutterstock

Embora o Facebook não tenha confirmado oficialmente o desenvolvimento de uma criptomoeda própria para pagamentos, ao menos duas reportagens da Bloomberg e do The New York Times jogam luz sobre as novas ambições da empresa de Mark Zuckerberg. E o movimento tem o potencial de fazer bilhões de dólares para a rede social, além de ajudar a eliminar notícias falsas e bots.

Em comunicado enviado à Computerworld, o Facebook disse explorar a tecnologia blockchain, mas não compartilhou detalhes: “Como muitas outras empresas, o Facebook está explorando maneiras de alavancar o poder da tecnologia blockchain. Essa nova equipe pequena está explorando muitas aplicações diferentes. Não temos mais nada a compartilhar”.

Embora os detalhes sejam poucos, fontes não identificadas ouvidas pelas reportagens afirmam que uma criptomoeda permitiria que os usuários do Facebook e da plataforma de mensagens WhatsApp enviassem dinheiro para os contatos, semelhante a maneira como a Venmo ou o PayPal permitem pagamentos internacionais; a diferença é que não haveria intermediário (ou seja, um banco central ou empresa de compensação).

De acordo com o artigo do NYT, o Facebook já falou de trocas de criptomoedas e sobre a venda de moeda criptografada própria aos consumidores; outros acreditam que a empresa de rede social não vinculará os pagamentos a uma “criptomoeda” rígida, optando, em vez disso, por usar uma moeda estável apoiada por dólares americanos e outras moedas fiduciárias.

“Eles conseguirão intercâmbio para os clientes a bordo com o processo KYC [conheça seu cliente] e permitirão a eles comprem a moeda”, disse Avivah Litan, vice-presidente de pesquisa do Gartner. “Os detalhes são incompletos, mas meu palpite é que eles aumentem a receita publicitária e ofereçam aos usuários uma experiência parecida com o PayPal... também que não sejam muito regulamentados”.

As redes de moedas estáveis exigem que os operadores mantenham garantias em um banco, de modo que, se US$ 1 bilhão em moeda digital for emitida, uma quantia equivalente deve estar disponível no depósito ou na reserva, de acordo com Litan. Criptomoedas, como o bitcoin, que não são apoiadas por moedas fiduciárias, não têm nenhum valor intrínseco além da oferta e da demanda.

Em uma nota aos investidores nesta semana, Ross Sandler, analista de Internet do Barclays, disse que uma “moeda do Facebook” pode render à rede social até US$ 19 bilhões em receita até 2021, segundo um relatório da CNBC. “Estabelecer meramente esse fluxo de receita começa a mudar a história das ações do Facebook em nossa opinião”, disse Sandler à CNBC.

Como as redes de pagamento baseadas em blockchain eliminam a necessidade de bancos centrais, os quais possibilitam o processamento de pagamentos, o tempo e as taxas associados ao pagamento, compensação e liquidação podem ser reduzidos. A DLT também possui a atração adicional de evitar a regulamentação, que ainda não alcançou a indústria de blockchain.

O interesse do Facebook reflete a reunião de interesse em usar redes baseadas em blockchain para movimentar dinheiro.

Em fevereiro, o maior banco dos EUA por depósitos, J.P. Morgan, lançou sua própria moeda estável. O JPM Coin, como o banco está chamando, tem o valor equivalente a um dólar americano. Recentemente, a IBM lançou um serviço de pagamento usando uma moeda estável para transferências internacionais de dinheiro.

No Facebook, os usuários que querem comprar produtos anunciados devem digitar informações de cartão de crédito – não é algo trabalhoso usando um computador de mesa, mas uma experiência um pouco mais árdua em um dispositivo móvel, que leva as pessoas a abandonarem o site, de acordo com Litan.

“Falei com alguém que usa o Facebook extensivamente para publicidade e negócios, e ele disse que o blockchain é bom para os anunciantes porque vai converter mais clientes, pois é um pagamento com um clique”, disse Litan. “Então, [os clientes] terão uma moeda específica de pagamento, e desta maneira, [o Facebook] manterá todos os pagamentos dentro da sua própria rede, com mais conversões e taxas de publicidade mais altas”.

Jack Gold, presidente e principal analista da J. Gold Associates, acredita que o Facebook está interessado em entrar no “lucrativo” mercado de pagamentos móveis, em que vai concorrer com a Apple Pay, o Google Pay, o Samsung Pay e outros. “Eles têm uma enorme base instalada e, se conseguirem aproveitar uma oportunidade de pagamento, podem gerar grandes receitas para eles”, disse ele.

O Facebook, no entanto, também poderia lucrar com a criptografia nativa do blockchain, que permite aos operadores da rede autenticar usuários por meio de chaves de hash uma vez registrados; o processo mantém as identidades privadas, o que significa que há um usuário autêntico do outro lado e não um bot.

“Ele também pode ser usado para aumentar a capacidade deles de combater... ‘notícias falsas’, exigindo que todas postagens sejam registradas e tenham uma trilha de auditoria”, disse Gold.

A tecnologia Blockchain cria um registro imutável, em que um arquivo ou “bloco” de dados está inextricavelmente ligado ao anterior por meio de um hash; é uma tecnologia de escrita única acrescida de muitas.

Devido às suas capacidades de criptografia, blockchain também pode ajudar o Facebook a cumprir novas leis internacionais de privacidade, como o Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Européia (GDPR), que visa informações pessoalmente identificáveis dos cidadãos (PII), proporcionando transparência sobre seu uso e dando às pessoas o direito de restringir o uso ou solicitar que seja tudo excluído. Se um usuário excluir sua chave hash, suas informações não estarão mais acessíveis, o que significa que a exclusão criptográfica é tão eficaz – se não mais – quanto à exclusão de dados tradicional.

Hoje, registrar-se com blockchain é difícil devido à necessidade de confirmar a identidade dos usuários (por exemplo, exigindo que eles tenham um ID, uma foto etc), disse Gold por e-mail. “É um processo muito manual, por isso a pessoa pode ser confirmada. Mas isso poderia ser simplificado para as necessidades do Facebook”.

Há, no entanto, uma desvantagem em coletar informações do usuário para autenticá-las; isso significa que o Facebook agora se torna o repositório de muitas informações pessoalmente identificáveis.

“Mas suspeito que haverá uma barreira menor na identidade dos usuários do Facebook, que ainda pode oferecer algum nível de identidade sem toda a confirmação séria necessária nas transações financeiras”, disse Gold. “Embora qualquer sistema de pagamento ainda possa precisar disso, pode haver níveis de confirmação de identidade”.

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