Home  >  Carreira

Executivas contam experiência ao encarar novos desafios durante gravidez

Elas pensaram em não aceitar a proposta, mas toparam mudar toda a vida profissional na gestação

Tatiana Olaya

08/03/2019 às 16h16

Foto: Shutterstock

Recente pesquisa feita pelo Catho, site brasileiro de classificados de empregos, apontou que quase 30% das mulheres deixam o emprego depois de se tornarem mães e 21% consomem três anos para voltar ao mercado de trabalho. Os dados não são alentadores para as mães, nem para aquelas que têm planos de maternidade.

A pergunta é: será que existe outra alternativa? Aparentemente sim. Isso porque, algumas empresas estão revolucionando esse panorama para as mulheres, mostrando que é possível ser mãe e crescer profissionalmente ao mesmo tempo, seja no mundo corporativo ou como empreendedoras. Confira algumas histórias que já estão marcando o Brasil.

“Pensei em declinar a proposta”

Quando Larissa Di Pietro, diretora de Marketing da Cisco Brasil, soube que estava grávida durante o processo seletivo, pensou em declinar a proposta feita por Laércio Albuquerque, presidente da empresa no Brasil. Ela tinha medo de encarar todas os desafios dessa mudança profissional durante essa etapa, e certamente muitas mulheres concordariam com esse pensamento. No entanto, ela aceitou a posição, uma vez que a companhia oferecia um novo propósito e a motivava a seguir seu crescimento profissional, mesmo em uma etapa que geralmente o mercado corporativo mostra um comportamento de rejeição.

Na época, a executiva trabalhava na CA Technologies, empresa de software estadunidense, comprada no final de 2018 pela Broadcom. Ela atuava como líder da área de Marketing e após dois anos na empresa, se sentia bastante estável. Mesmo assim, pela indicação de alguns colegas, seu currículo chegou nas mãos da Cisco. Iniciou o processo seletivo de forma despretensiosa, até chegar na última etapa, da qual declinaria, pois tinha acabado de descobrir a gravidez. Após uma longa conversa com Laércio Albuquerque, encarou o desafio.

Ela afirma que a gravidez foi bastante tranquila e de certa forma a ajudou a focar mais na geração de resultados, uma vez que tinha só seis meses antes de iniciar a licença maternidade. Durante o Cisco Connect, um dos maiores eventos da empresa no Brasil, nasceu a Filipa, hoje com quatro meses. Ela chegou, inclusive, a sair do evento e ir diretamente para a maternidade.

“Não deveria ser uma surpresa, mas comum”

Em setembro de 2018, Marcela Caldeiras foi contratada como designer pela Thoughtworks, consultoria global de software. O acontecimento teve significativa repercussão nas mídias porque ela estava com nove meses de gestação. Marcela já contava com uma trajetória na área de TI, o que facilitou sua contratação na multinacional.

Como Marcela cumpre o período de licença maternidade, Lisiane Rocha, gerente-geral da empresa em Belo Horizonte, Minas Gerais, concedeu entrevista à reportagem. Segundo Lisiane, foi uma surpresa o impacto causado pela contratação da profissional. Na sua opinião, a gravidez não deveria ser um fator de discriminação nas empresas, uma vez que não tem nenhum tipo de impacto nas competências das profissionais. Ela percebe que muitas companhias não contam com mulheres grávidas nos processos seletivos pelos custos adicionais que elas poderiam representar para o caixa da organização e não levam em conta as vantagens de tê-las no dia a dia de trabalho.

A consultoria norte-americana visa diversificar o ambiente corporativo, tanto o seu como o dos clientes, por meio de boas práticas que vão muito além da contratação de Marcela. Hoje, são realizadas discussões internas que promovem a diversificação do talento e espaços de integração com a família. Agora, a empresa também está desenvolvendo "workshops" focados no fortalecimento da liderança feminina e empoderamento.

“A liberdade é algo que não tem preço”

Para Kélita Myra, diretora e fundadora do Fogo no Paiol, empresa de produção de conteúdo, PR e Marketing Digital, o melhor caminho para conseguir desfrutar da sua família é o empreendedorismo, mesmo que essa não tenha sido sua primeira opção. Após uma trajetória de 11 anos na área de comunicação corporativa do Grupo Universal Music, ela decidiu buscar novos desafios.

Nessa jornada, iniciou cursos relacionados à criação de produtos digitais, “copy writing” e marketing digital. Entre uma atividade e outra, Kélita descobriu a gravidez. Ela esclarece que apesar de não planejada, a maternidade fortaleceu seu espírito empreendedor e a encorajou a acelerar a abertura da sua empresa, assim como a incentivou a desenvolver projetos profissionais ao lado do seu marido.

Kélita vivenciou a maternidade em sua atuação na Universal. Na época, ela contou com a compreensão tanto da sua equipe, como da liderança da empresa. Porém, sabe que na maioria das vezes, o mercado age de forma totalmente diferente, obrigando a profissional a escolher entre sua carreira ou a maternidade.

Hoje, ela dedica-se a sua empresa Fogo no Paiol e, em paralelo, está desenvolvendo uma plataforma virtual que reúne músicas para crianças, compilando artistas, shows e novidades. Nesse projeto, a empreendedora usa toda a sua expertise profissional, enquanto administra seu tempo de tal forma que consegue dedicar mais tempo para seus três filhos: Malu (seis anos), João (dois anos) e Liz (um mês).

Balanço vida familiar-profissional

Há alguns anos, a sociedade impôs a crença de que a maternidade era algo essencial na vida das mulheres. Hoje, a situação é diferente, uma vez que uma significativa parte do talento das empresas é feminino. A maioria posiciona seu crescimento profissional como prioridade, enquanto a maternidade passou a ser uma opção.

O mundo corporativo ainda não abraçou esse novo contexto. A boa notícia é que algumas empresas estão mudando suas estruturas para atrair e reter esses talentos, facilitando a vida delas e de suas famílias por meio do trabalho remoto, horários flexíveis, espaços de integração e outras atividades que as motivam a continuar seus rumos profissionais sem perder os melhores momentos da maternidade. Mesmo assim, essas iniciativas ainda não estão nos planos de muitas empresas.

Para as entrevistadas, o principal desafio é conciliar carreira-maternidade, uma vez que existe uma grande dificuldade em desligar o ‘chip’ profissional. Nessas horas, há uma constante autocobrança. Em outras palavras, elas querem demostrar que podem fazer as duas coisas ao mesmo tempo, seja por conta do contexto da empresa ou para abrir mais espaço para outras mães no mercado corporativo.

Além disso, elas ressaltam que mesmo que as empresas tenham sido compreensivas e que elas se sentiram apoiadas durante tudo o processo, a realidade do mercado é bem diferente. Tanto Larissa como Kélita sabem que as empresas têm um certo receio em reter às mulheres grávidas, por conta da disponibilidade de tempo, os cuidados necessários para ter uma gravidez tranquila e, outros fatores associados a uma possível queda de performance da colaboradora. Todos esses mitos são derivados da falta de informação, apontam as executivas.

Mais mulheres grávidas no mercado corporativo

Larissa, Kélita e Lisiane enxergam na maternidade uma oportunidade de evolução profissional gigantesca, uma vez que para elas quando a mulher se torna mãe há dois caminhos: a autolimitação ou o empoderamento. Elas optaram pelo segundo caminho. Na sua experiência tanto no mercado como no empreendedorismo, as profissionais que continuam seu crescimento profissional nessa etapa mostram-se mais determinadas a atingir suas metas, alavancam a performance e otimizam a utilização do seu tempo. “A empresa ganha duas profissionais em uma”, sentencia Kélita.

Para Larissa, as empresas precisam vencer as barreiras culturais com relação à contratação e à retenção das mulheres grávidas com planos de maternidade, uma vez que elas possuem a mesma competência do que qualquer outro colaborador. Ela acredita que por meio de atividades de educação no ambiente corporativo, esses obstáculos possam ser superados. Além disso, considera essencial motivá-las para se candidatarem às vagas, assim como implementar ações que facilitem o balanço carreira-maternidade.

Na Thoughtworks, a liderança visa compor equipes mais diversas, aponta Liliane. Para a consultoria, a diversidade traz inovação, inclusão e alavanca o crescimento da empresa.  Ela sabe que toda revolução começa de dentro para fora. O primeiro passo é promover políticas estratégicas sobre o assunto internamente antes de promover discussões externas voltadas para a inclusão no mercado de TI.

Finalmente, as executivas convidam as empresas a repensarem suas estruturas atuais e incluir as mulheres. Além disso, incentivam o mercado a discutir mais sobre as práticas de diversidade e inclusão. Faz parte do desejo delas também motivar as mulheres grávidas ou com planos de maternidade a continuar seu crescimento profissional, enxergando essa nova etapa como uma oportunidade de fortalecimento.

Boas práticas que mudam o cenário

Felizmente, para as futuras mães, o mercado de TI já está começando a abrir mais espaço para elas. Recentemente, a Youse, plataforma de venda de seguros on-line da Caixa Seguradora, contratou Érika Mello como gerente de marketing. A executiva foi convidada a assumir o cargo durante a licença-maternidade. “A Érika já estava pronta para assumir uma posição de liderança, tinha todas as qualificações para o cargo. Quando a vaga foi aberta, fazia todo sentido consultá-la primeiro em vez de procurar alguém no mercado”, afirma Wilson Lima, diretor de RH da Youse.