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5 perguntas para o CEO: Leonardo Vilela, da Cedro Technologies

Executivo relembra a criação da empresa, aborda tendências de mercado e projeta o futuro

Guilherme Borini

28/02/2019 às 8h01

Leonardo Reis - Cedro
Foto: Divulgação/Cedro

Fundada em 2005 por estudantes da Universidade Federal de Uberlândia, a Cedro Technologies nasceu para desenvolver soluções para corretoras de valores. Atualmente, a empresa conta com um portfólio de tecnologias para negócios digitais e para a indústria financeira, apostando na criação de produtos e serviços customizados. O escopo envolve todo o ciclo de negócios voltado ao setor financeiro: investimentos, mercado de capitais, câmbio, empréstimos, cartões, renda fixa e variável, internet banking e mobile banking.

Um dos fundadores é Leonardo dos Reis Vilela, atualmente CEO da companhia. São cerca de 450 clientes e faturamento de R$ 39 milhões em 2018. A meta para 2019, segundo o executivo, é crescer 20%.

Uma das apostas para atingir esse número é ganhar market share com produtos desenvolvidos pela própria empresa, como a plataforma de criação de bots People, e o Data Engine, que possibilita a integração de diversas fontes de dados, sejam públicas, privadas ou próprias.

Vilela participa da seção 5 perguntas para o CEO, em que relembra a criação da empresa, aborda tendências de mercado e projeta o futuro. Confira:

Computerworld Brasil: a empresa nasceu para desenvolver soluções para corretoras de valores. Como surgiu a ideia e qual era o escopo inicial?

Leonardo Vilela: Na época, começamos dentro da universidade e, em maio de 2005, fomos para uma incubadora em Uberlândia (MG). Criamos um produto, o Cedro Lite, que era para acompanhar a bolsa. Nosso objetivo era democratizar o acesso ao mercado de capitais para que pessoas pudessem ter uma ferramenta rápida para companhar a bolsa. Começamos a construir esse produto e viemos para São Paulo apresentar para algumas corretoras. Foi quando começamos a nos deparar com uma série de desafios e oportunidades que a indústria tinha e começamos a aprimorar nosso produto. Em 2007 foi quando realmente fomos para o mercado.

A ideia do negócio surgiu quando eu estudei fora e fiz um estágio na France Telecom. Todo mundo na hora do almoço ficava falando de ações e eu comecei a gostar disso. E como meu background era tecnologia, não queria mudar totalmente e comecei a pensar em como poderia aliar tecnologia com uma tendência, que era o investimento em ações e mercado financeiro. Quando voltei ao Brasil, precisava pensar em um projeto de conclusão do curso na universidade e aí nasceu a empresa.

Fintech, startup, esses nomes cools não existiam. Mas éramos uma, na verdade. Hoje até as grandes empresas querem falar que são fintechs para passar uma imagem de inovação e foco no cliente. Mas lá atrás não existia isso.

CW Brasil: qual foi a trajetória ao longo desses 13 anos?

Vilela: A Cedro começou com o Lite e identificamos que os clientes precisavam de uma ferramenta de baixo custo para acessar o mercado. Começamos a implementar o produto, mas como gastamos praticamente um ano e meio para criar a solução, porque não tinha ideia de MVP lá atrás, quando viemos para São Paulo mostrar o que tínhamos feito, o mercado já tinha mudado. E percebemos que, além de uma ferramenta para acompanhar a bolsa, era preciso uma solução para operar a bolsa. A Cedro tinha a plataforma para companhar, mas não tínhamos como operar. Fizemos uma parceria com a Macsys, em que nosso cliente operava via Macsys. Fechamos nosso primeiro cliente, que era a Intra Corretora, que depois virou Citibank, mas quando fomos colocar o produto no mercado, a CMA comprou a Macsys. Primeira coisa que fizeram foi cortar nosso acordo e ficamos de mãos atadas novamente.

Aí teve uma instituição financeira, a Spinelli, que hoje não existe mais, que nos ajudou a fazer porque não queriam ficar na mão da CMA. Foi quando começamos a fazer a parte de trading. Depois de seis meses tínhamos um produto que conseguíamos acompanhar a bolsa e também permitia fazer negociação.

Crescemos mesmo quando a BMF (Hoje B3) anunciou que iria acabar com o pregão viva-voz, seria tudo eletrônico. O banco Itaú começou a procurar uma empresa de tecnologia para criar uma plataforma de negociação. Estávamos no momento de tentar crescer e eles nos escolheram. Foi o momento que a Cedro virou empresa de fato. Foi o primeiro grande cliente. A partir do momento que o Itaú passou a confiar na Cedro, tivemos oportunidade de ir para outras instituições, como HSBC e Banco Banip.

Hoje é muito mais comum e fácil um empreendedor conseguir se associar a uma grande empresa, mas lá atrás era praticamente impossível conseguir agendar uma reunião. Ninguém te recebia. Ter um grande cliente era fundamental, porque eu falava: eu não sou a Cedro, o Itaú usa minha solução.

Começamos a perceber também que a inovação passou a ser uma agenda muito imporatnte nas organizações. Os bancos não queriam usar a mesma solução. E a Cedro se posicionou no mercado com uma plataforma que permitia aceleração do cliente, ou seja, nosso produto hoje no Itaú é diferente do que temos no Tribanco ou outra instituição. Toda nossa plataforma é baseada em APIs.

Lá atrás começamos só com bolsa e fomos para outros mercados. Hoje temos soluções para fundos de investimentos, renda fixa etc.

CW Brasil: outra linha de investimento recente da Cedro é a área de inteligência artificial, com bots cognitivos. Qual a estratégia? 

Vilela: Percebemos que os  clientes passaram a adotar serviços cognitivos, então fechamos uma parceria com a Microsoft e criamos uma plataforma de implementação de serviços cognitivos no Brasil, apojando não apenas clientes do mercado financeiro, mas empresas como Votorantim, Cargill e Expedia.

Começamos a desenvolver o People (plataforma para criação de bots) em um projeto no Itaú. A área usuária queria ter liberdade para construir seu próprio bot. Pensamos em como criar uma interface amigável de maneira que qualquer área usuária, seja RH, atendimento ou vendas, conseguisse facilmente construir um bot sem precisar conhecer de desenvolvimento. Com o People, qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento de tecnologia, pode treinar o bot, criar intenções, para criar as esteiras - se o usuário perguntar isso, o que vai responder? Fizemos tudo via texto e agora temos nova versão do People para conseguir interação via voz.

Acreditamos que a área de serviços vai crescer muito no mercado nos próximos quatro anos. É uma tendência.
Sou um pouco resistente quando empresas falam que vão reduzir custos. Claro que, com o tempo, tem uma redução, principalmente em atendimento, mas acho que o ganho da experiência do usuário, com atendimento 24/7, é uma vantagem muito maior do que redução de custos para uma organização.

Tem uma percepção de que o bot vai resolver tudo, mas não é. Quando você implanta um bot, ele é uma criança. É preciso entender o contexto que o bot está inserido, dando feedback e capacitando.

CW Brasil: qual o nível de maturidade digital do mercado financeiro? Em que estágio estamos?

Vilela: Fizemos um estudo sobre a maturidade na indústria financeira para identificarmos quantas empresas já tinham começado a transformação digital e qual era o estágio de avanço dessas organizações. Conversamos com 100 executivos, clientes da Cedro, para identificar isso. Geramos uma série de insights e um deles é que, hoje, quase todo mundo na indústria financeira diz que já iniciou a transformação digital, mas quem realmente tem processos definidos e adaptados, não só com tecnologia, são só 25%.

Criamos um indicador, que mostra que hoje estamos no potencial de 18% apenas de transformação digital da indústria financeira, porque boa parte já começou mas quem realmente está no estágio avançado ainda é a minoria.

Avaliamos (no estudo) questões como abertura da APIs, inteligência artificial etc. Entendemos que o mercado ainda tem muito a crescer e melhorar neste tema. Mutias vezes a empresa acha que a transformação  digital é criar um site novo ou um aplicativo mais bonito, mas vai muito além disso. É uma mudança do modelo de negócios da organização, criando negócios digitais.

CW Brasil: quais são as principais metas para este ano?

Vilela: Atualmente temos duas áreas: software, que são nossos produtos - como o People e o Data Engie -, e de serviços, que envolve desenvolvimento. Nossa estratégia é usar a área de serviços para implantar nossas soluções e criar diferenciais.

Como investimentos bastante nos últimos dois anos em produtos, nossa meta esse ano é ganhar market share com esses produtos. Como temos presença em grandes companhias, por uma questão de governança podemos ter um fit melhor para entregarmos novas soluções. Então, o foco é ganhar market share com produtos, principalmente em pequenas e médias empresas, que é um mercado que permite muito mais escala.

Hoje, a divisão entre as receitas de software e serviços está praticamente igual. O Objetivo é elevar software para 70% da receita até 2022. Entendemos que esses produtos farão nossa empresa ir para outros mercados e acreditamos que o momento positivo, com mudança de governo, vai nos ajudar na nossa consolidação no Brasil e, a partir disso, queremos tentar outros mercados fora do Brasil, principalmente pela nossa parceria com a Microsoft.