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Mais inteligência, menos artificial. Leis regulatórias já! – Parte III

Proponho que a sociedade se manifeste global e publicamente contra a evolução indiscriminada da AI

Pyr Marcondes*

15/01/2019 às 8h02

Foto: Shutterstock

Continuando a nossa conversa. Caso tenha perdido, confira as Partes I e II. 

Fei-Fei

Uma das vozes mais destacadas recentemente no discurso de alerta sobre a evolução sem controle da AI é o da pesquisadora e cientista, ela mesma, de AI, a chinesa-norte-americana Fei-Fei Li.

Se quiser ver um vídeo legal sobre o que ela pensa, clique no link adiante. Mas, basicamente, o que ela defende é o óbvio. Num caso tão radical como o poder de transformação da raça humana, ou melhor, o poder de extinção da raça humana, o que ela defende é que, em se tratando de AI, "With Great Power Comes Great Responsibility”.

Assim a Wired descreve Fei-Fei: “Como pesquisador da Stanford e do Google, Li ajudou a aperfeiçoar e disseminar a tecnologia de aprendizado de máquina que permite que os computadores entendam o mundo por meio de imagens e vídeo. Ela fez parte de um boom recente da inteligência artificial que levou a frotas de carros autônomos e tornou o reconhecimento facial poderoso e onipresente”.

Para Fei-Fei, com todos esses feitos, em vez de irmos na direção que estamos indo, em que sistemas de AI tenham autonomia individual e, em verdade, andem para o lado que a cabeça de um cientista maluco qualquer deseje, ou ela mesmo defina, teríamos que, como Humanidade, "pense mais sobre como o software inteligente pode trabalhar com pessoas, para pessoas. O que é realmente importante é colocar a humanidade no centro".

Para ela, todo o poder adquirido e atingido pela AI hoje - fora o que se avizinha, que é exponencialmente maior - é extremamente perigoso. E temos que, como defendo, agir já. Em suas palavras: "Esses poderes, é claro, podem ser perigosos. Vamos chegar a um momento em que será impossível corrigir o curso. Isso porque, a tecnologia está sendo adotada tão rapidamente e de longe. Temos que agir agora".

Complementando, ela coloca: “Se fizermos mudanças fundamentais em como a AI é projetada - e quem a projeta - a tecnologia será uma força transformadora para o bem. Se não, estamos deixando muita humanidade fora da equação".

E voltando à questão do "artificial" versus "humano", ela é categórica: "Não há nada artificial sobre AI”.

Wow!

E explica: "É inspirado por pessoas, é criado por pessoas e, o mais importante, impacta as pessoas. É uma ferramenta poderosa que estamos apenas começando a entender, e essa é uma responsabilidade profunda”.

 A perda de empregos humanos é só o começo do pior.

Indo além, o que pega em suas declarações é sua consciência social sobre a revolução tecnológica (algo que parte significante dos cientistas não tem em seu HD): “Com a devida orientação, a AI tornará a vida melhor. Mas sem ela, a tecnologia pode ampliar ainda mais a divisão da riqueza, tornar a tecnologia ainda mais exclusiva e reforçar os preconceitos que passamos gerações tentando superar”.

É a mesma preocupação de Yuval Noah Harari, de Sapien e Homo Deus, em seu último livro “21 lições para o século XXI". “Apesar do surgimento de muitos empregos humanos (por conta da geração tecnológica), podemos testemunhar o surgimento de uma classe inútil. Podemos, na verdade, obter o pior dos dois mundos, sofrendo simultaneamente com o alto desemprego e com a escassez de mão de obra qualificada. Muitas pessoas podem compartilhar o destino não dos motoristas de carroções do século XIX, que passaram a dirigir táxis, mas de cavalos do século XIX, que foram sendo cada vez mais expulsos do mercado de trabalho. Além disso, nenhum trabalho humano remanescente jamais estará a salvo da ameaça de automação futura, porque o aprendizado de máquina e a robótica continuarão melhorando.”

É o resultado social do desgoverno. Mas a perda de postos de trabalho e o alijamento ainda maior dos desvalidos e das classes de menor poder, ou seja, a parcela mais significativa das pessoas do Mundo, de qualquer ambiente de trabalho ou expressão social será só o começo. Vai piorar. E piorar muito.

Estamos alimentando e retroalimentando os neurônios das máquinas durante anos com zilhões de dados, ensinando-as a "pensar" como pensa um cérebro humano e nem sequer temos mais controle sobre o que os algoritmos estão, de fato, "pensando". Nem que "decisões" irão tomar. Eles são estupidamente espertos (com perdão do trocadilho) por conta disso. Mas era o que deveríamos ter feito? É o que temos que continuar fazendo? Mesmo? Nope.

Meu manifesto / opinião

Proponho que a sociedade se manifeste global e publicamente contra a evolução indiscriminada da AI. Que leis internacionais sejam votadas pelo controle das pesquisas de AI. Que elas sejam transparentes e possam ser avaliadas pela Humanidade como um todo e não apenas por um bando de manés cientista, geniais muitos deles, mas que nem sempre se pautam pela Ética e pelo Humano, prioritariamente. Já vimos isso ocorrer mais de uma vez na História e deu merda forte.

Manifesto-me totalmente contra a liberdade irrestrita da pesquisa científica da Inteligência Artificial por acreditar sinceramente que esse é o começo do nosso fim.

Fim.

*Pyr Marcondes é jornalista, consultor, autor de livros e empreendedor.