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Transformação no Fleury inclui dados, inteligência artificial e digital

Com a proposta de colocar o cliente no centro, empresa evolui constantemente em sua estratégia

Déborah Oliveira

13/12/2018 às 9h43

Foto: Divulgação

Para um negócio quase centenário, inovar pode ser uma tarefa altamente desafiadora. Não para o Grupo Fleury, uma das maiores empresas de medicina diagnóstica e de precisão do Brasil. Há alguns anos, a companhia enveredou pelo caminho da disrupção e tem colhido uma série de frutos.

São diversas as iniciativas que a organização lança mão, não só para conquistar o cliente mais exigente, como manter-se à frente no setor de atuação. Um dos principais pilares estratégicos do Fleury no caminho da diferenciação é o desenvolvimento da medicina de precisão ou medicina personalizada, incorporando aceleradamente competências da área genômica. Fazem parte da lista ainda o investimento em soluções diagnósticas com inteligência artificial (AI), impressão 3D e parcerias com startups.

Claudio Almeida Prado, diretor-executivo de Suporte a Operações do Grupo Fleury, contou à Computerworld que o histórico de inovação e pioneirismo da empresa é de longa data. Prado lembrou que o setor de Saúde é ainda bastante analógico, especialmente no contato com os pacientes, mas que esse cenário está mudando. “Temos uma visão de ser sempre ágil, digital e manter o ciclo de transformação. É um processo constante”, disse.

No Fleury, a transformação, listou, está baseada em algumas frentes, como o uso do digital na área médica, inteligência artificial para suportar o diagnóstico e uso de algoritmos para identificar a origem primária de casos de tumores metastáticos considerados até então desconhecidos.

Na área médica, por exemplo, o Fleury tem apostado na estratégia ‘digital first’, levando o paciente a autoagendar exames com a ajuda da inteligência artificial. “Começamos a explorar técnicas de machine learning para levar inteligência para as mãos do paciente”, contou, ressaltando que hoje é possível efetuar o agendamento pelo app, chat, site, WhatsApp e telefone. “A ideia das ações é sempre colocar o cliente no centro da estratégia”, revelou.

No backoffice, o digital também ganhou força. Afinal, não adianta ter uma empresa digital se os processos são analógicos. Assim, o Grupo ganhou robôs no centro de serviços, que eliminam o trabalho de digitação de formulários e aumentaram em 50% a produtividade da área.

C&A

Em inteligência artificial, uma série de ações foi colocada em prática. Uma delas é o lançamento do sequenciamento de DNA, que usa computação cognitiva para auxiliar os médicos a identificar medicamentos e ensaios clínicos relevantes, com base em alterações genômicas de um indivíduo e dados extraídos da literatura médica.

Batizada de Oncofoco, a iniciativa provê informações por meio de inteligência artificial para auxiliar as tomadas de decisão médica na assistência personalizada dos pacientes com casos de câncer complexos. O Fleury Medicina e Saúde é o primeiro parceiro da unidade IBM Watson Health na América Latina, por meio de acordo firmado em outubro de 2016, para uso da solução Watson for Genomics no Brasil.

Nesta última vertente, a empresa também se aliou recentemente ao Hospital do Amor, em Barretos, à Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e à startup brasileira ONKOS para a criação do Teste de Origem Tumoral (TOT) para casos de câncer.

Com técnicas avançadas de Bioinformática e Aprendizado de Máquina, o TOT analisa a expressão de 95 genes a partir de amostra de metástase do paciente e cruza com um banco de dados de aproximadamente 4,5 mil padrões genéticos já mapeados e divididos em 25 tipos de cânceres. Com base no cruzamento dessas informações é que o algoritmo realiza a classificação molecular, sugerindo a origem do câncer investigado.

Mudança cultural

Prado revelou que toda a transformação demandou uma forte mudança cultural. “É algo que transcende a TI. Envolve a empresa toda”, contou ele. Segundo o executivo, organizações de saúde são essencialmente focadas em processos e todo o cuidado é pouco, uma vez que o segmento é bastante regulado. “Colocar o cliente no centro significa romper barreiras. E essa mudança precisou ser construída.”

Uma das maneiras de quebrar silos e mudar a cultura foi a criação de squads, grupos multidisciplinares que atuam em busca de um objetivo. Essa iniciativa entrou em prática há dois anos e o início da atuação em grupos foi algo bastante desafiador, como lembrou o executivo.

“Entendemos que os grupos precisam de autonomia. E essa autonomia acontece após a definição de metas claras de negócios. Temos de estabelecer o que eu quero e não como eu quero. No fundo, é um aprendizado contínuo. Olhamos sob outra óptica: não quero check-in digital, quero que os pacientes gastem menos tempo fazendo exames. O digital é isso.”

Nesse contexto, a TI entendeu ainda que tudo o que era desenvolvimento core tinha de ficar dentro de casa. “Terceirizávamos muitos desenvolvimentos de aplicações. Invertemos essa ordem e hoje temos um contrato grande com a IBM, que toca a parte de infraestrutura”, comentou, acrescentando que, agora, a TI tem posicionamento estratégico na organização.

Para agilizar os desenvolvimentos internos, portanto, o Fleury parte atualmente para microsserviços, método de desenvolvimento de software que acelera o trabalho. “Entregamos recentemente os primeiros projetos baseados em microsserviços, que encapsulam sistemas legados”, apontou ele.

Apoio em dados

Com mais de 20 anos de histórico de pacientes, é natural que o Grupo Fleury tenha um repositório gigante de dados. Agora, contou Prado, a TI trabalha para a criação de um data lake, repositório que armazena um grande e variado volume de dados, estruturados e não estruturados, que ajudará na geração de insights para aprimorar as tomadas de decisão na área médica. A empresa já conta com um time de cientistas de dados para apoiar a iniciativa, que será fortalecida a partir de então.

O executivo explicou que com exames genéticos ganhando mais espaço no mercado, a base de dados será fundamental para verificar melhores tratamentos às doenças, combinando com histórico do paciente e outros recursos informacionais. “O Fleury é uma empresa de conhecimento, mais do que execução de diagnóstico. Talvez no futuro sejamos uma empresa de TI”, avisou ele.

Tecnologias emergentes

Cada vez mais tecnologias emergentes ganharão espaço no setor de saúde, como dispositivos vestíveis, atendimento digital em laboratórios e atendimento móvel e Blockchain, acredita o executivo.

O Plano de Expansão do Grupo Fleury, anunciado no último trimestre de 2016, prevê a abertura de um total de 73 a 90 unidades até 2021. Desde então, já foram inauguradas 44 unidades, sendo dez delas com recepção digital. Nelas, o cliente faz o check-in digital 48 horas antes do horário do exame, e ao chegar à unidade apresenta sua confirmação via QR Code, tendo acesso a um processo de atendimento mais ágil e simplificado.

Com Blockchain, as discussões começam a esquentar. “É possível, por exemplo, usar o Blockchain para o relacionamento com operadoras, que hoje funciona essencialmente por meio de um arquivo XML. Há outra visão embrionária também sobre o uso de prontuário eletrônico baseado em Blockchain em rede fechada. Temos conversado com o backoffice para entender a tecnologia e como usá-la”, adiantou.

E as healthtechs?

O Fleury entende que a conexão com startups é parte fundamental da sua evolução. Assim, em junho a empresa anunciou investimento na Qure, venture capital de startups na área de saúde do fundo de investimento israelense Ourcrowd, que concentra seus investimentos em tecnologias que melhoram significativamente a qualidade do atendimento ao paciente, reduzem custos, criam transparência de informações e capacitam os consumidores a fazer melhores escolhas para sua saúde.

Segundo a empresa, além de Israel, acordos com outros hubs de inovação estão sendo firmados, em países como Suíça, Canadá, United Kingdom e Brasil. Essa aliança culminou no desenvolvimento de projetos com 20 startups. Em solo nacional, a companhia conta com um espaço no inovaBra, hub de coinovação do Bradesco.

“Nosso próximo passo é criar uma cultura interna de inovação, formando parcerias de negócios com essas empresas. Estamos buscando modelos para nos associar. Reconhecemos que é uma parceria de valor”, comentou ele.