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O que Israel pode ensinar para o ecossistema de inovação no Brasil?

Confira a entrevista com o VP do Instituto de Tecnologia de Israel

Da Redação

22/11/2018 às 15h34

Foto: Shutterstock

Israel tem mais startups, cientistas, recursos de venture capital (VCs), engenheiros, patentes médicas, taxa de gasto em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e profissionais em tecnologia do que qualquer país do mundo em termos per capita. O país é um dos ecossistemas empreendedores mais maduros do mundo, possui cultura que apoia o empreendedorismo e tem visão focada em criar negócios globais. Além disso, o governo de Israel investe cerca de 4.2% do PIB em inovação, sendo que Tel Aviv é a sétima colocada em um ranking que leva em consideração as melhores cidades do mundo para começar uma startup.

O Technion, Instituto de Tecnologia de Israel, vem ao Brasil para fomentar negócios e passar o conhecimento de pesquisa básica, tecnologia aplicada, indústria de alta tecnologia, expertise em gerenciamento global, setor de exportação e crescimento econômico.

Boaz Golany, vice-presidente do Technion, estará em São Paulo nos dias 28 e 29 de novembro para participar do SPIN Summit Brazil 2018, evento de inovação e tecnologia que visa fomentar negócios entre Estados Unidos, Israel e Brasil. Em entrevista, o especialista conta as contribuições que a universidade pode oferecer ao Brasil e ao mundo, fala do futuro do empreendedorismo, do impacto positivo que o instituto produz em Israel no que se refere a pesquisa, tecnologia, inovação, empreendedorismo, universidades STEM e da indústria 4.0, além de outros temas referentes à inovação produzida em Israel que almeja trazer ao Brasil.

Confira a entrevista na íntegra:

1 - Por que o Technion é considerado uma das principais instituições do mundo? Quais são as características que se destacam?

Boaz Golany: O Technion é a primeira universidade de Israel, fundada há mais de 100 anos, e foi fundamental para estabelecer a infraestrutura da nova nação e desenvolver sua próspera economia de alta tecnologia. Hoje, o Technion está entre as 50 melhores universidades de pesquisa científica e tecnológica do mundo, mantendo acordos acadêmicos com mais de 200 universidades e estruturas de pesquisa em todo o mundo. As descobertas da Technion abriram um caminho para a revolução da Tecnologia da Informação, que tiveram um impacto global importante na humanidade. Por exemplo, o desenvolvimento da medicação anti-Parkinson, que é muito eficaz.

2. Que impacto o Technion tem em Israel? Qual é o seu papel na sociedade?

Golany: A empresa é o motor por trás de uma nação de startups. Fui questionado muitas vezes e cheguei à conclusão de que uma universidade de classe mundial que desempenha um papel tão importante na economia deve ter três ingredientes: excelentes alunos, excelentes professores e uma declaração de missão, que deve fazer parte do DNA da universidade. A universidade mudou historicamente a economia israelense. Nossos ex-alunos são a espinha dorsal que apoia Israel como uma nação de startups. O livro Startup Nation, o best-seller escrito por Dan Senor e Saul Singer, explica porque Israel, um país pobre em recursos e com uma população tão pequena territorialmente, pode se tornar um país com a maior densidade de empresas iniciantes. O número de empresas listadas na Nasdaq de Israel excede a soma total das empresas listadas na Nasdaq em todos os países europeus.

3. Como garantir recursos para uma universidade como o Technion, relacionada à manutenção e pesquisa?

Golany: O recurso em pesquisa científica é investimento no futuro de Israel. Portanto, mesmo quando a situação econômica é difícil, não podemos permitir não olhar para frente. Israel gasta 4,71% de seu produto interno bruto em pesquisa - um número que ostensivamente coloca Israel em primeiro lugar entre os países ocidentais em seu compromisso com a ciência. O Technion ganhou reconhecimento internacional por sua pesquisa em uma infinidade de campos, incluindo medicina regenerativa, aeroespacial, ciência da computação, engenharia quântica, nanotecnologia, biotecnologia, ciências biológicas. A instituição assinou memorandos de entendimento com mais de 200 universidades e estruturas de pesquisa no exterior e, no ano passado, inaugurou o Instituto Tecnológico de Guangdong, o primeiro campus universitário de Israel na China, e celebrou a mudança do Instituto Jacobs Technion-Cornell para Nova York. Inclusive, o Technion lançou uma meta de captação de recursos muito agressiva, de US$ 1,8 bilhão até 2024, e já atingiu 40% desta meta.

4. Qual é a importância de ter uma universidade STEM + Business em um país em desenvolvimento como o Brasil?

Golany: A professora Orit Hazzan do Technion apresentou um novo modelo para desenvolvimento de negócios, a ser implementado no desenvolvimento dos profissionais em geral e no contexto de iniciativas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), particularmente na indústria, em instituições educacionais e organizações do setor público. Os autores pretendem contribuir para o campo da inovação e do empreendedorismo fundindo e consolidando diferentes metodologias e insights emprestados das "meta-profissões" (referindo-se a habilidades que podem ser expressas significativamente após a obtenção de conhecimento disciplinar e profissional) de gestão, educação e pesquisa. Tendo como alvo três grupos chaves — profissionais da indústria, instituições acadêmicas e organizações do setor público —, este modelo propõe que todos os profissionais possam desenvolver seus conhecimentos exclusivos, bem como novas habilidades, enquanto reconhecendo e aplicando as três meta-profissões em suas iniciativas, trabalho e em sua vida pessoal. As barreiras entre as disciplinas estão caindo em todos os aspectos da vida profissional, gerencial e educacional, e as habilidades de pesquisa estão se tornando cada vez mais essenciais e interdependentes.

5. Por que alguém deveria implementar uma universidade STEM e não, por exemplo, uma MINT, STREM ou STEMLE? Como escolher quais disciplinas são prioritárias para um país em desenvolvimento?

Golany: O Technion é a única universidade em Israel que tem uma faculdade envolvida com pesquisa em Educação STEM, a Faculdade de Educação, Ciência e Tecnologia. As pessoas que estudam nessa área em Israel contribuem para sua economia tanto quanto os graduados do Technion em ciência e engenharia. O foco na engenharia, ciência, educação e matemática reflete uma visão ampla das necessidades da economia israelense em geral, e do setor de alta tecnologia em particular. A pesquisa é realizada em cooperação com outras faculdades do Technion, com as principais universidades do mundo (Stanford, Cornell, MIT e outras) e com empresas líderes como Intel, Microsoft e Google.

6. Como motivar alguém a praticar o empreendedorismo? O que o futuro reserva para este setor?

Golany: Motivar o empreendedorismo em alguém pode ser feito por uma multiplicidade de fatores. Primeiro, educar esse estudante ou empreendedor. No processo, a capacidade de assumir riscos e a capacidade de sustentar falhas é muito importante. Lembre-se, entre as startups, apenas uma em dez é bem-sucedida. Alguns empreendedores são bem-sucedidos apenas em sua sétima ou oitava tentativa, portanto, você deve ser resistente a falhas. A necessidade de alcançar o objetivo é muito importante. Estas são características de imigrantes, ou pessoas que precisam viver em um ambiente ou um bairro que constantemente os desafia. O que você pode fazer para direcioná-los ou torná-los empreendedores melhores é dar algumas ferramentas a eles. Você pode oferecer modelos, e é isso que estamos fazendo no Technion. Você pode fornecer a eles algumas informações básicas que podem ajudá-los a construir seu próprio plano de negócios ou saber como apresentar suas ideias. Acredito também que personalidade e a história de uma pessoa fazem dela uma empreendedora.

7. Ao discutir a indústria 4.0, o que já está sendo aplicado e o que está por vir? A universidade produz pesquisas sobre esse assunto?

Golany: A automação dos meios de produção, digitalizando e tornando as fábricas inteligentes. Esta revolução industrial é impulsionada pela Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial e robótica, substituindo o humano em muitos casos. As máquinas agora têm recursos que nunca conheceram antes. Trabalhos em que a produtividade pode ser grandemente melhorada pela tecnologia já estão em declínio. Tarefas padronizadas, repetitivas e envolvendo modelos podem agora ser executadas um milhão de vezes mais rápido por algoritmos. A indústria 4.0 coloca assim o homem no centro das preocupações. O fortalecimento dos laços com a indústria israelense e a transferência de tecnologia desenvolvida no Technion para a indústria é um dos principais alvos da Indústria 4.0 na economia de Israel. A tecnologia investiu pesadamente no estabelecimento e modernização de dez grandes centros de infraestrutura nas várias faculdades com o setor de apoio das indústrias.

8. Na indústria eletrônica, o que diferencia os dez principais fabricantes dos demais? O que é mais inovador e quais são os produtos que se destacam? Como unir a academia/pesquisa com a indústria e as necessidades das pessoas?

Golany: O Technion resolveu estreitar seus laços com a indústria, e hoje a abordagem da pesquisa é interdisciplinar. Ao entrarmos no segundo século de existência, a relação entre o Technion e a indústria está se tornando ainda mais importante. A fim de servir efetivamente à economia israelense, é vital que a indústria esteja ciente das pesquisas atuais no Technion e das instalações e serviços avançados que o Technion oferece. Pesquisa básica e pesquisa aplicada são os dois lados da mesma moeda. Ao longo de sua história, o Technion tem apoiado a pesquisa aplicada, considerando sua relação com a indústria como sendo de primordial importância e adquirindo uma renomada experiência em identificar as necessidades das indústrias e oportunidades para o desenvolvimento da economia israelense.

9. Quando falamos de inovação, o que podemos observar das empresas israelenses? O que pode ser considerado inspirador? O que estimula a inovação? Por favor, cite alguns setores, produtos ou serviços que desaparecerão se não forem seguidos pela inovação.

Golany: Nos últimos anos, testemunhamos manchetes sobre aquisições e o aumento dos investimentos em capital de risco em empresas israelenses. Durante o ano de 2016, empresas israelenses de alta tecnologia e startups foram vendidas ou tornaram-se públicas por um total de mais de US$ 10 bilhões. Este valor reflete um aumento de 12% em relação a 2015, segundo o Relatório de Saídas de Alta Tecnologia da IVC-Meitar. No primeiro semestre de 2017, vimos as aquisições da Sevotronix, Valtech, Juno Lab, R2Net e outros, enquanto o segundo semestre de 2017 terminou com a aquisição da Mobileye pela Intel por um montante surpreendente de mais de US$ 15 bilhões. Para aproveitar a qualidade, qualificação, diversidade e dedicação, além da inovação e espírito empreendedor, empresas como IBM, Google, 3M, Microsoft, Intel, Broadcom, Apple, Facebook, Siemens, Samsung abriram centros multinacionais de P&D em Israel. No entanto, a cultura israelense não apenas produz numerosas startups com novas ideias criativas, mas também promove a inovação dentro de empresas israelenses bem estabelecidas, como Checkpoint, Sodastream, Insightec, ADAMA, Netafim, ISCAR e outras organizações de sucesso que têm presença global.

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