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Digitalização evitaria problemas em viaduto que cedeu em São Paulo. Entenda

Um mix de tecnologias poderiam transformar forma de armazenar e acessar dados da infraestrutura da cidade

Déborah Oliveira

21/11/2018 às 14h12

Foto: Shutterstock

Na madrugada de 15/11, enquanto os paulistanos aproveitavam o feriado da Proclamação da República, um viaduto cedeu na pista expressa da Marginal Pinheiros em São Paulo, no sentido da rodovia Castello Branco, em frente ao Parque Villa Lobos. Um buraco de 70 cm por 70 cm se abriu no chão.

Imediatamente, o local foi fechado e apesar de menos pessoas na cidade, o trânsito logo se formou. Isso porque, a Marginal Pinheiros é a segunda via mais movimentada da cidade. Para se ter uma ideia, em apenas uma hora, no horário de pico, 13 mil veículos passam por ali. A partir de hoje (21/11), a expectativa é de altos índices de congestionamento na região, podendo impactar outras localidades, em razão da volta às aulas e ao trabalho depois de seis dias de feriado.

A solução para o problema está em construção e ao que tudo indica pode levar mais tempo do que o esperado. Isso porque, o viaduto foi construído no final da década de 1970 pelo governo do estado e o projeto não foi localizado até o momento. Vitor Aly, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, informou que caso o documento não seja encontrado, uma tecnologia de retroanálise será usada.

O problema no viaduto não é um caso isolado no Brasil. Em fevereiro deste ano, a Ponte JK, em Brasília, teve três peças de borrachas desprendidas da sua estrutura. Considerando que grande parte das construções do tipo foram erguidas na década de 1970, não seria raro presenciar outras situações do tipo.

O cenário, contudo, pode ser sido evitado ou remediado com o uso da tecnologia, indicam especialistas. Para Pedro Soethe, especialista técnico da área de Arquitetura, Engenharia e Construção (AEC) da Autodesk, a Modelagem da Informação da Construção (Building Information Modeling - BIM) seria uma saída.

O BIM é considerado um dos maiores desenvolvimentos na indústria de arquitetura, engenharia e construção. O sistema envolve representação de projetos com uma combinação de “objetos” que levam suas geometrias, relações e atributos a um novo nível de complexidade.

Trata-se de uma solução inteligente com base de dados 3D que equipa os profissionais de arquitetura, engenharia e construção com ferramentas para concepção, projeto executivo, construção, e gerenciamento de obras e infraestruturas mais eficientes. Alguns dos seus benefícios mais emblemáticos incluem melhora na visualização do projeto, produtividade, coordenação de documentos, velocidade de entrega, redução de custos e identificação de problemas antes da construção.

“Hoje, o governo no Brasil está em processo lento de adoção de BIM”, resumiu ele. Isso porque, a ferramenta gerou trabalho adicional no nível de projeto. “Antes, errava-se muito no projeto. A era BIM passou a identificar problemas já nessa fase, pois cria modelos que podem ser testados em ambiente controlado. A área de AEC tem como premissa criar estruturas personalizadas, mas peca em testar em um ambiente controlado. O BIM, portanto, alinha mundo da arquitetura, da criação e da manufatura”, completou.

Lançando mão do conceito que a manufatura usa há décadas, o BIM conta com uma espécie de gêmeo digital e permite que os talentos levantem informações sobre o entorno da estrutura, suas interferências visíveis e não visíveis, considerando, ainda condições climáticas. Todas as informações ficam registradas digitalmente. “No cenário tradicional, depois de construída a estrutura, os ativos somem. É como ficar sem memória”, comentou.

Cidades como Washington e São Francisco, nos Estados Unidos, usam o modelo gêmeos digital para simular incidentes. Washington, por exemplo, está usando BIM para eliminar a pegada de carbono da cidade. Assim, as autoridades locais estão identificando prédios onde podem ser instalados jardins, que ajudarão a minimizar a pegada de carbono.

Os Estados Unidos, inclusive, estão avançando bastante na digitalização e melhoria das suas estruturas. O país realizou um estudo de qualidade de infraestrutura do qual identificou que sua nota é D, especialmente em rodovias. Para mudar o quadro, o país investirá US$ 1 trilhão em manutenção rodoviária.

Reconstrução digital

Como o projeto do viaduto de São Paulo não foi localizado até o momento, é possível que as autoridades que atuam no caso recorram à uma tecnologia de reconstrução digital. Eni revelou que o processo funciona e não seria complicado de se colocar em prática. “É possível realizar escaneamento manual e via drones, por exemplo, para transformar o viaduto em um modelo tridimensional e identificar a patologia. A tecnologia existe e não é cara.”

Uma solução do tipo, inclusive, pode ser usada para transformar em modelos 3D todas as cerca de 5 mil pontes no Estado de São Paulo. “Hoje, se quisermos saber os dez problemas mais comuns das pontes e dos viadutos de São Paulo, não é possível”, observou Soethe.

Além de fazer a reconstrução digital de estruturas do tipo, a tecnologia também pode aplicar conceitos de business intelligence (BI) para fazer manutenções preditivas, evitando rachaduras e outros tipos de problemas.

E o custo?

Eni defende que é possível digitalizar toda a cidade e seu custo não seria impeditivo. Mais do que digitalizar, no entanto, é preciso extrair valor dos dados. Concorda com ele Pietro Delai, gerente de Consultoria e Pesquisa da IDC Brasil. Delai relata que na área de plantas, a indústria começou a produzir arquivos digitais no começo da década de 80 no Brasil, mas a maior parte das prefeituras ainda exige a entrega de documentos no formato físico. “Ainda há muita dependência de papel no processo e isso tem um custo elevado”, contou.

O cenário digital, por outro lado, promete cortar esses custos. “Uma planta média de um prédio ocupa menos de 1 MB em formato digital, dependendo do nível de detalhe. É algo muito fácil para salvar na nuvem ou em uma fita”, exemplificou. Já há, inclusive, na Europa prefeituras indo além e usando Blockchain para armazenar esse tipo de informação envolvendo todas as partes interessadas e garantindo a integridade do dado.

O custo e a manutenção de armazenamento em fita, defendeu Delai, também são competitivos. São menos R$ 500 já com impostos e uma capacidade de armazenamento de 6 TB a 15 TB em uma única fita. “Tomando como referência uma planta de 1 MB, caberiam 1 milhão de plantas”, justificou, acrescentando que seria preciso menos do que um espaço de um armário de um quarto para armazenar essas informações.

Delai cita a fita, que não é a tecnologia mais avançada da atualidade, em razão da reticência de uso da nuvem pública no governo. “Além do impeditivo da Lei de licitações 866 e da aprovação de um orçamento que acontece por exercício fiscal”, comentou. Esse cenário, no entanto, começa a mudar. “A adoção da nuvem pelo governo vem evoluindo. A área onde estava mais difícil é a camada federal, mas isso tem-se dissipado, especialmente depois de o TCU ter adotado cloud na modalidade broker”, comentou.

Digitalizar leva tempo?

Delai conta que, naturalmente, digitalizar a infraestrutura do País leva tempo, mas é algo completamente factível. No caso de São Paulo, ele sugere a criação de um bureau começando pelas pontes. Pelos seus cálculos, 500 horas de trabalho seriam demandadas, algo que consumirá cerca de três meses.

“Essa poderia ser uma ação estadual, cobrindo todas as prefeituras. Rapidamente, a iniciativa poderia ganhar escala. O Plano Nacional de Digitalização já está definido, foi assinado por Michel Temer neste ano e certamente sua execução poderia aproveitar esses incidentes, inclusive o do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e resolver para o País todo”, finalizou.