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Empresas precisam definir valores para conquistar e reter talentos

Em entrevista, presidente da GPTW Brasil, Ruy Shiozawa, destaca como a diversidade também pode ser sinônimo de produtividade para as empresas

Carla Matsu

18/10/2018 às 20h23

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À medida que as empresas são cada vez mais cobradas a se posicionarem sobre valores que dizem respeito à diversidade, inclusão e sustentabilidade, o estudo deste ano das Melhores Empresas para Trabalhar em TI, publicado pela IT Mídia, também confirma que para além das oportunidades de crescimento, muitos funcionários defendem que o alinhamento de valores entre o que eles acreditam e o que a empresa propõe é fundamental para mantê-los nos empregos.

De quebra, as empresas têm em mãos não só um ambiente inclusivo, como também mais produtivo. "Essa compatibilidade de propósitos gera resultados muito superiores. Quando um funcionário faz algo porque acredita, e não porque recebe uma tarefa, seu poder de transformação de recursos é totalmente diferente", destaca o presidente da GPTW Brasil, Ruy Shiozawa. A 13ª edição do estudo nacional contou com 273 empresas inscritas que representam mais de 261 mil funcionários.

Entretanto, representatividade é algo que as companhias, de forma geral, ainda caminham para servir de exemplo. A distância entre profissionais homens e mulheres em cargos de alta liderança é considerável. Segundo o estudo, mulheres formam 55% das empresas avaliadas, mas 81% dos cargos de alta liderança são preenchidos por homens.

"Ainda há um gap enorme nesse sentido, e o setor de TI ainda é menos desigual que a média nacional", avalia Shiozawa, que reconhece que como parte da estratégia das empresas, muitas têm aplicado práticas que visam maior diversidade, com pautas que estimulam desde a diversidade de gênero à questão étnico-racial, funcionários portadores de deficiências e aqueles com mais de 50 anos.

Ao mesmo tempo ambientes de trabalho mais diversos e inclusivos tendem a contribuir com o clima das empresas, algo que é bem avaliado pelos funcionários das melhores empresas para se trabalhar em TI no Brasil. De acordo com o ranking, 92% deles concordam que o local onde trabalham seja um lugar descontraído e que aspectos de "camaradagem" e "cuidar" são recorrentes. Uma média que está bem acima de outros setores, segundo Shiozawa.

E dada a crescente competição que as companhias enfrentam no ritmo da transformação digital, algo que pode colocá-las em destaque da concorrência diz respeito a um hábito antigo no mercado: ouvir aqueles que estão todos os dias lá.

Empresas que encorajam seus funcionários a enviar sugestões de melhorias e estão mais aptas a implementar seus projetos são tidas como mais inovadoras. Apesar dos programas de recepção de sugestões não serem nada novos, eles estão cada vez melhor estruturados e são melhor aproveitados, ressalta o presidente da GPTW Brasil.

De acordo com o estudo, as empresas reconhecidas no ranking receberam mais de 17 mil sugestões de funcionários no ano de 2017, e dessas 36% foram implantadas. "Mostra que as empresas têm ouvido cada vez mais seus funcionários. São eles que atuam no dia a dia e são as melhores pessoas para propor algo novo", pontua Shiozawa. "Com certeza, é uma tendência e continuaremos monitorando essas práticas", acrescenta.

Mas, afinal, o que faz de uma empresa uma Great Place to Work? Na entrevista a seguir, Ruy Shiozawa dá mais detalhes sobre como as companhias estão se atualizando para reforçar o ambiente ideal para seus funcionários.

Computerworld Brasil - Na edição do ano passado, o estudo mostrou que três a cada quatro empresas listadas entre as melhores para trabalhar no Brasil ofereciam bolsas para cursos de idiomas, de pós-graduação ou graduação. Essa tendência se repetiu neste ano? Como as empresas estão lidando com o crescimento intelectual e as habilidades de seus profissionais?

Ruy Shiozawa - Esse número se repetiu neste ano. Continuamos com três quartos das empresas oferecendo bolsas para cursos de idiomas, graduação e pós-graduação. O que percebemos foi um aumento de 41% para 48% na concessão de verba para funcionários utilizarem no programa de desenvolvimento que quiserem. Isso contribui para que os colaboradores tenham uma formação mais completa e cresçam mais com novas habilidades.

CW - Empresas têm tido grande dificuldade em reter talentos, sobretudo, na área de tecnologia. Segundo o estudo, a rotatividade voluntária representou, no período, cerca de 35% do total de demissões. Esse número é um reflexo na competição de contratação de talentos? Existe um melhor caminho para reter um talento em TI?

Shiozawa - A área de TI realmente sofre para manter funcionários por bastante tempo. Esse número é um reflexo, sim, da competição por talentos. No GPTW, não falamos mais em retenção, e, sim, em permanência, pois as empresas é que devem transmitir seu propósito e estimular que as pessoas se mantenham na mesma organização porque querem, e não porque se sentem obrigadas a ficar anos e anos. O melhor caminho é deixar a missão clara, reforçá-la, e saber que o propósito é que moverá os colaboradores.

CW - Segundo a pesquisa, 81% dos cargos de alta liderança das empresas melhor avaliadas são preenchidos por homens. Um contraste quando vemos que as mulheres formam 55% das empresas avaliadas. Como as empresas devem melhorar essa distância?

Shiozawa - Ainda há um gap enorme nesse sentido. O setor de TI ainda é menos desigual que a média nacional. Para melhorar o equilíbrio, entendemos que devemos promover discussões sobre gênero no trabalho, ter mais mulheres nos comitês de avaliação e de decisões organizacionais, além de estar consciente sobre essas diferenças para que sejam evitadas.

CW - O que os profissionais de TI mais valorizam na GPTW?

Shiozawa - Os profissionais de TI valorizam muito as oportunidades de crescimento. Assim, 46% dos funcionários afirmam que o principal fator de permanência seja a questão do desenvolvimento. O segundo maior motivo é a qualidade de vida (24%). Apenas 12% entende que o principal ponto seja remuneração e benefícios, quebrando uma noção de senso comum que as pessoas trabalham apenas por dinheiro.

CW - Qual o seu conselho para uma empresa que não atingiu pontuação satisfatória nesta edição?

Shiozawa - A empresa deve investir em pessoas. E esse investimento não é exatamente financeiro, e, sim, no cuidado, no respeito, na credibilidade e na confiança. Os líderes são os grandes responsáveis por criar e manter um ambiente agradável, e assim ter equipes mais motivadas, felizes, engajadas e produtivas. As notas das pesquisas são apenas um reflexo dessas ações feitas todos os dias nas empresas.