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Diversidade, na prática

Em discussão no mundo, o tema a cada dia está mais presente no universo corporativo. Como as empresas estão lidando com a questão?

Solange Calvo

18/10/2018 às 20h20

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Quando se fala em diversidade, o que vem à mente de imediato é a dupla: gênero e raça. Mas o conceito vai muito além. Envolve, cultura, religião, regionalidade, deficiência física e contextos mais sutis como a forma de se vestir, de andar e de se posicionar. E a luta nesse cenário, em sua forma mais extensa ou não, está relacionada fundamentalmente ao respeito e não somente à doutrina de aceitação. É o que relatam os heads de Recursos Humanos (RH) da CI&T e da Cigam.

Se no amplo universo social a questão provoca conflitos, divergências e posições inflamadas, no corporativo, mais consolidado e estreito, a diversidade é uma fratura exposta que está em discussão, transição e evolução. Cada organização em um dos estágios ou até mesmo nos três ao mesmo tempo.

De acordo com estudo da consultoria McKinsey, empresas com maior diversidade de gênero, por exemplo, têm 21% mais chances de apresentar resultados acima da média do mercado, comparadas com as que possuem menor diversidade do grupo. Reunir visões, crenças e culturas diferentes é estratégico, portanto, pode trazer resultados surpreendentes.

Mas a maioria das empresas não possui programas de diversidade e não está totalmente preparada para lidar com o assunto. Ao menos é o que comprova levantamento divulgado neste ano pela Vagas.com, empresa de soluções tecnológicas de recrutamento e seleção, e a Talento Incluir, que atua na inclusão de pessoas com deficiência na sociedade no mercado de trabalho. Cerca de 62% dos profissionais de RH respondentes afirmaram que suas empresas não estão totalmente preparadas para lidar com a diversidade.

Vanderlei Reinhart, diretor de RH da Cigam, diz que a empresa tem trabalhado o tema de forma transversal em suas práticas de recursos humanos. “Estamos atentos a isso em nossos processos seletivos, programa de integração, práticas de retenção e desenvolvimento. Não temos uma prática específica, ao contrário, a diversidade acontece de maneira natural.”

A empresa acredita, segundo o executivo, que trabalhar a diversidade não é priorizar a seleção de determinados grupos de pessoas, mas proporcionar as mesmas oportunidades a todas elas, sem preconceitos.

Carla Borges, head of People da CI&T

Lidando com as resistências

Para Carla Borges, head of People da CI&T, a questão é delicada porque não se trata de aceitação e sim de respeito. “É preciso entender todo o time de colaboradores e ajudar aqueles que foram criados uma vida inteira em uma cultura exclusiva e trazê-los para a importância da inclusão, do respeito e da convivência”, alerta.

Ela orienta que é preciso tratar a questão de maneira sensata, pois do contrário, formam-se grupos que levantam bandeiras e excluem quem está confuso. “Um executivo me procurou para ajudá-lo nesse processo de aceitação do homossexualismo. Isso porque teve uma criação orientada ao preconceito. O fato de pedir ajuda, já demonstra mais do que respeito, confiança na empresa para lidar com o assunto, bem como respeito.”

Na Cigam, diz Reinhart, a estratégia é trabalhar principalmente com as lideranças. “São elas que fazem a gestão das pessoas na prática e por isso precisam estar preparadas e dispostas a lidar com a diversidade. O mais importante para nós é o respeito.”

O executivo relata que a empresa procura evitar as resistências sendo transparente. Uma das ações para isso é a comunicação. As pessoas precisam conhecer para respeitar, alerta. “Há alguns meses, realizamos um trabalho de sensibilização e conscientização sobre a inclusão de deficientes. Antes dos treinamentos, levantamos as dúvidas das equipes, a fim de respondê-las.”

Além do treinamento e das discussões, a Cigam promoveu dinâmicas com o intuito de as pessoas se colocarem no lugar do outro, vivenciando na prática como seria ter alguma limitação. “Quando falamos em diversidade, precisamos falar em empatia, ou seja, capacidade de compreender a visão, postura e opiniões dos outros, livre de preconceitos.”

Vanderlei Reinhart, diretor de RH da Cigam

Transição e evolução

Há cerca de três anos, a CI&T criou o Comitê de Diversidade. Carla percebeu que a partir dessa ação, a empresa deixou clara a sua preocupação com tema, seu envolvimento e seu posicionamento. “Os colaboradores entenderam que a empresa, de fato, respeita a diversidade. Foi a materialização do apoio. Pessoas se assumiram sem medo, outras pediram ajuda em diversos aspectos. Hoje, formamos um grupo bastante diversificado, que inclui transsexual”, conta.

Carla ensina que é muito importante que o RH busque constantemente informações, especialmente sobre como outras empresas estão se organizando seus programas, como estão se estruturando para lidar com a diversidade. “Para montar o Comitê de Diversidade, observamos a movimentação das organizações, porque tínhamos pouco conhecimento. Não podemos ingressar nessa jornada porque é favorável para nossa imagem e sim porque é, de fato, importante para as pessoas. Temos de saber fazer.”

Segundo Reinhart, é muito importante a comunicação, orientando e avisando as equipes sobre as diferenças. “Por exemplo, para respeitar, a equipe precisa estar ciente que o integrante do time tem uma religião diferente e por isso se retira mais cedo na sexta-feira. Quando uma equipe não está preparada, lidar com a diversidade pode se tornar muito difícil. É preciso muito cuidado.”

“Proporcionar oportunidades a todos, além de ser eticamente correto, também traz vantagem para as organizações. As pessoas de forma geral são todas diferentes e o trabalho só tem a crescer com as diferenças. É do confronto de ideias diferentes que surgem os melhores projetos”, acredita Reinhart.

Ele acrescenta que a diversidade não pode ser entendida como assistencialismo. “Não queremos uma política de cotas ou simplesmente atender à legislação. A diversidade precisa ser algo positivo para a empresa e para as pessoas. Para a empresa, pois por meio dela podemos oferecer produtos e serviços diferenciados. Para as pessoas, pois conviver com a diversidade também contribui para o crescimento pessoal de cada colaborador.”