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Quais os impactos da questão cambial na contratação de serviços de nuvem?

É errado imaginar que estaremos livres dos efeitos do câmbio simplesmente por contratar um provedor local de tecnologia

Ricardo Bueno*

17/10/2018 às 8h59

Foto: Shutterstock

Sim, o câmbio tem influência no custo de serviços contratados no modelo de computação em nuvem. Da mesma forma que o câmbio influencia os custos de qualquer país que esteja inserido na ordem econômica global, ao contratar serviços de computação em nuvem, estamos sujeitos à variação cambial. Isso também é verdade para a gasolina que colocamos em nossos carros ou o açúcar que utilizamos para adoçar nossos alimentos. E vale também para a contratação de serviços de tecnologia, não importando se o contrato é assinado com um provedor local ou externo.

É errado imaginar que estaremos livres dos efeitos do câmbio simplesmente por contratar um provedor local de tecnologia. Da mesma forma que não estamos livres de aumentos no preço do açúcar produzido no Brasil, quando há uma desvalorização do Real (R$), sofremos com aumentos nos preços de produtos importados que servem de insumo para o setor de tecnologia.

Quando falamos do impacto que a variação cambial pode trazer aos nossos negócios devemos, primeiramente, entender a dinâmica do mercado de câmbio. Somente depois disso é possível avaliar como podemos lidar com o fato. O mercado de câmbio sofre com fatores externos e internos sobre os quais as empresas não têm controle. Entender esses fatores e como eles impactam a taxa de câmbio é essencial para uma boa administração, pois permite lidarmos racionalmente com seus efeitos.

Recentemente tivemos dois excelentes exemplos de fatores externos que mexeram com o mercado de câmbio. Primeiro veio o Brexit e depois a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Se a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia trouxe forte desvalorização à libra esterlina sem maiores impactos ao Real, a opção do povo americano pelo candidato republicano causou fortes variações no mercado de câmbio mundial e, consequentemente, com desvalorização da nossa moeda.

Já nossa instabilidade política, contas públicas descontroladas e a eterna dúvida que paira sobre a segurança jurídica no Brasil são apenas alguns exemplos dos diversos fatores internos que promovem variações na taxa de câmbio.

Desde 1999, o regime cambial adotado pelo Brasil é o flutuante. Neste regime a taxa de câmbio é, predominantemente, determinada pela lei da oferta e da procura. Na prática temos um mercado cambial muito sensível em nosso país, com variações elevadas tanto de valorização quanto de desvalorização da moeda. Como consequência, infelizmente vivemos uma realidade de “flutuação suja” onde o governo promove intervenções no mercado como forma de atenuar essas variações.

É neste cenário que estamos inseridos. O que fazer, então, se tanto os provedores locais quanto os provedores externos de soluções em computação em nuvem estão sujeitos à variação do câmbio e à realidade do nosso país só faz potencializar seus efeitos?

Primeiro, deve-se entender que o mercado como um todo está sujeito a isso e promove ajustes naturalmente, seja por meio dos indexadores presentes em nossa economia há tanto tempo, seja pela livre iniciativa da regulação do mercado, conceito básico do sistema capitalista.

Se a economia de mercado é responsável pelos ajustes de médio e longo prazo, as empresas podem tomar ações para se protegerem no curto prazo. No mercado financeiro é possível contratar produtos de hedge cambial. No entanto, se faz necessário avaliar se o custo dessa operação é razoável frente a outras alternativas de mercado. Procure por empresas que ofereçam soluções de pagamento antecipado que garantem uma taxa de câmbio fixa na contratação do serviço. Seja como for, o importante é avaliar o seu custo de oportunidade (custo do dinheiro).

É preciso desmistificar a retórica de que serviços de computação em nuvem estão sujeitos à variação cambial como se isso fosse uma exclusividade deste setor ou de provedores externos. Estamos inseridos em uma economia global onde os insumos são produzidos em larga escala ao redor do planeta. As melhores condições virão daqueles que souberem tirar proveito dessa realidade, sendo o fator cambial uma variável que nivela as diferentes ofertas (ao contrário daquilo que muitos tendem a acreditar). Os diferenciais estão em outros fatores como fazer o melhor uso possível da tecnologia e se adequar a um mercado que inova a um ritmo frenético.

*Ricardo Bueno é diretor Financeiro da Dedalus