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CEO da Uber dá conselho a Travis Kalanick: escute mesmo quando não quiser ouvir

Em bate-papo com Marc Benioff, Dara Khosrowshahi disse que CEOs estão entrando em período 'doloroso' e precisam ser 'transparentes'

Carla Matsu

04/10/2018 às 14h29

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"Se você pudesse voltar no tempo e dar algum conselho para o ex-CEO da Uber, Travis Kalanick, o que você falaria?". A pergunta é feita por Marc Benioff, cofundador e co-CEO da Salesforce, para aquele que atualmente ocupa o cargo máximo da empresa de mobilidade urbana, Dara Khosrowshahi. Os dois se encontraram durante a Dreamforce 2018, conferência anual da Salesforce, que aconteceu na última semana em São Francisco (CA).

Em tom cordial, Khosrowshahi cita o que aprendeu com o ex-chefe, Barry Diller, enquanto foi CEO da Expedia: "Ouça que você não quer ouvir." E acrescentou: “Há uma lei universal que indica que o quanto mais alto você sobe [em uma empresa], menos você realmente sabe o que está acontecendo nela", disse referindo-se a todas as barreiras que se criam no dia a dia para ter acesso aos CEOs de companhias. "Você tem que cultivar a habilidade de ouvir o que está acontecendo no momento", continuou Benioff.

Há mais de um ano no cargo, Khosrowshahi entrou na Uber em um momento em que a companhia sofria para lidar com uma série de escândalos de gestão e postura corporativa tóxica que envolveram desde denúncias de assédio, vazamento de dados de usuários e até mesmo roubo de propriedade intelectual. "Deve ter sido um pesadelo", cutucou Benioff para Khosrowshahi que, na visão do chefe da Salesforce, assumiu o papel de "CEO salvador" da Uber.

"A Uber tem coração?"

Benioff parece recorrer sempre a dois termos para definir se uma empresa está realmente comprometida com valores e o seu cliente, seja ele corporativo ou final: "coração" e "transparência". Aparentemente, não é coisa de sentimentalismo, mas diz mais sobre como as empresas estão se posicionando em um mundo onde cada vez mais se cobra delas responsabilidade social e clareza sobre seus modelos de negócio. Benioff lembrou que Travis Kalanick esteve em uma edição passada da Dreamforce. "Eu perguntei a ele se a Uber tinha um coração e eu acho que foi aqui que a conversa terminou", ironizou.

Apesar de não citar nomes, Benioff fez clara menção ao Facebook e ao Google. O primeiro que tem sofrido reveses de executivos do alto escalão saindo da empresa e a segunda por pressão de funcionários para interromper projetos de armas autônomas com o exército norte-americano. "A Uber passou por isso. Qual é sua reflexão sobre a nossa indústria?", indagou Benioff. "Acho que o conselho é faça a coisa certa e ponto. Não podemos prescrever exatamente como isso acontece. Mas para mim é aquela coisa de alinhar o coração e a mente. Quando o coração diz que algo está errado... Mas quando ajo apenas com o coração, entramos no campo da aposta. A lógica não está lá. Somos falíveis, cometemos erros. Acho que desde que venha de um lugar verdadeiro e de transparência", resumiu. Para o executivo, na era da digitalização massiva, CEOs estão entrando no que ele chamou de um período doloroso. "CEOs deverão ser mais transparentes. Eles terão de usar ferramentas que não estão acostumados, e terão de fazer ajustes e acho que é uma coisa boa".

estudantes

Indagado por Benioff sobre como a Uber tem se responsabilizado com seus motoristas, Khosrowshahi reforçou que a empresa tem lançado uma série de recursos colocando o motorista em perspectiva como parte do programa "180 dias de mudanças", lançado no ano passado. Entre os recursos da leva foi a possibilidade de acrescentar gorjeta às corridas no aplicativo. Khosrowshahi ainda afirmou que cogita Benefícios para os motoristas. Segundo ele, é algo que a Uber está "pensando mais e mais".

“Nós realmente temos que pensar em benefícios para trabalhadores temporários onde os benefícios são móveis e você os obtém independentemente de estar mudando de um emprego para outro. Temos um programa em vigor na União Europeia. Gostaríamos de criar um sistema em que possamos fornecer benefícios aos nossos parceiros, se isso puder funcionar no ecossistema. Neste momento, é algo delicado", declarou.

*A jornalista viajou a São Francisco a convite da Salesforce