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Por que sua empresa precisa de um pirata para desbravar a inovação?

Conheça o termo "Piratas Corporativos" e como ele pode ser essencial para a transformação digital

Guilherme Borini

23/08/2018 às 9h56

Foto: Shutterstock

"É melhor ser um pirata do que se alistar na Marinha". A frase é de Steve Jobs, um dos grandes visionários do mundo da tecnologia, no início dos anos 80, e que ditou o ritmo no início do desenvolvimento do Macintosh. O final da história todo mundo conhece: hoje, a Apple é a maior empresa de tecnologia do mundo, com valor de mercado de US$ 1 trilhão.

Na década de 1960, o físico Thomas Kuhn, ao analisar a história do pensamento científico, chegou a conclusão de que não há espaço para revoluções dentro do paradigma. Para de fato haver uma revolução científica é necessário ocorrer uma ruptura. Precisaria vir dos piratas do lado de fora.

Na economia, Joseph Schumpeter, um dos economistas mais importantes do Século XX e que há mais de cem anos colocou a inovação no papel central da economia, explora o tema sob o conceito “Destruição Criadora". Na visão dele, não se atinge o novo por sucessivos incrementos do antigo.

O fato é que, para de fato atingir inovação - algo muito buscado por organizações -, é preciso fazer diferente. E os piratas estão aí para isso.

"Pirata é o talento que quer mudar o status quo, o inovador, que até extrapola as regras de negócios em busca de ideias", define Denis Balaguer, diretor do Centro de Inovação da EY Brasil.

Para o especialista, pirata, no mundo corporativo, tem muito a ver com a ideia de que o processo de inovação necessita que a empresa supere verdades estabelecidas

"Está muito ligado ao que Clayton Christensen (professor da Universidade de Harvard) disse em seu livro: empresas bem-sucedidas são máquinas de fazer bem o que elas fazem. Mas, na maior parte das vezes, fazer bem não é suficiente. Seja o modelo de negócios ou tecnologias, tudo tem um ciclo final de desenvolvimento", afirmou.

O caso da Kodak, como lembrado por Balaguer, é emblemático. Em 1974, um engenheiro da empresa apresentou um projeto de uma máquina fotográfica digital. À época, a companhia rejeitou a ideia, afinal, o mercado mais forte da Kodak era a venda de filmes. "O presidente deve ter olhado e pensado: você está maluco? O que paga seu salário é o filme."

"A Kodak achava que era uma empresa que vendia filme, mas o negócio não era esse. Eles se apaixonaram pela solução, não pelo problema", pontuou Balaguer.

E é justamente o problema que o pirata gosta de atacar. "É o profissional que tira as amarras dentro da empresa e se apaixona pelo problema. Ele quer resolver o problema de melhor forma possível, com desprendimento de enxergar soluções muito além do tradicional. Diferente é ir além", comentou.

Limites

O fato é que é impossível ir além com uma agenda só de eficiência e buscando seguir o tradicional. A história de inovações prova isso: quem fez sucesso buscou o novo e inesperado.

Mas existem alguns riscos para quem segue esse tipo de perfil dentro de organizações. Balaguer cita o caso do próprio Jobs, que ficou marcado na sua primeira passagem pela Apple por não manter uma boa cultura de gestão de pessoas

Primeiramente, o pirata deve seguir o que é legal e ético, e, obviamente, não ir contra regras da empresa. Ainda, deve manter um bom diálogo com os colegas. "Ter um profissional que se intitula o dono da verdade e que vai fazer tudo acontecer não é bom para as empresas. A cultura da inovação tem de ser inclusiva."

Na prática: o que fazer

A palavra transformação digital está na moda. Mais do que simplesmente migrar sistemas para ambientes digitais, companhias estão buscando levar a inovação para o dia a dia. Mas como colocar em prática?

Balaguer defende a adoção do conceito definido pelo Gartner como TI Bimodal, que corresponde a implementar duas abordagens distintas para o desenvolvimento de soluções – chamadas de “Modo um” e “Modo dois”. O Gartner caracteriza o novo Modo 2 de uma maneira bastante distinta do tradicional Modo 1 e as empresas devem escolher cuidadosamente a abordagem adequada para cada iniciativa.

"As empresas foram criadas em uma lógica tecnológica que está sendo superada. Para operar, não adianta ficar tentando só fazer pequenas melhorias na base tecnológica. É preciso pensar a empresa como se fosse criada hoje. É a transformação bimodal, do modo um para o dois, para passar a pensar de outra forma."

Outra recomendação do especialista é seguir o exemplo de Jeff Bezos, fundador da Amazon e hoje o homem mais rico do mundo. "O Bezos usa a analogia do Dia 1. Ele fala que todo dia na Amazon é o Dia 1, porque, quando você começa o Dia 2, já entra no caminho da irrelevância. Todo dia é dia para resolver meu problema de uma forma melhor. A bandeira do Dia 1 e o Bimodal são muito ilustrativas sobre o que significa o pirata", concluiu.

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