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APIs desafiam barreiras culturais e ganham espaço no Brasil

Saiba como grandes empresas usam o conceito para fortalecer integração de soluções, negócios B2B2C e segurança

Guilherme Borini

09/08/2018 às 8h57

API Sensedia
Foto: Guilherme Borini

Cerca de 800 pessoas estiveram reunidas nesta quarta-feira (8/8), em São Paulo (SP), para o API Experience, evento promovido pela Sensedia para discussões sobre APIs (Application Programming Interface - Interface de Programação de Aplicações, no Português). O número é praticamente três vezes maior do que as 250 pessoas que compareceram na primeira edição, em 2015. Para Kleber Bacili, CEO da Sensedia, a audiência do encontro comprova o quanto o assunto APIs está ganhando força nos últimos anos.

Números preliminares da pesquisa "Estado das APIs", que será divulgada em breve pela Sensedia, mostra que 52% dos respondentes possuem várias APIs em produção - resultado que, no último ano, era de 34%. "Saímos do estado de experimentação, quando as empresas estavam sentindo a temperatura, e agora as empresas estão efetivamente usando APIs com maior afinco", comentou o executivo, durante abertura do evento.

Segundo Bacili, a plataforma de gerenciamento de APIs da Sensedia registrou crescimento de 470%, de 2017 para 2018, no número de APIs em produção. Atualmente, os clientes da empresa usam, em média, 25 APIs. O volume, claro, impacta no faturamento da companhia, que cresceu dez vezes entre 2013 e 2018.

Outro resultado prévio apresentado por Bacili é o tempo dos projetos com APIs, desde sua concepção até o lançamento. A resposta "meses" caiu de 24% para 14% neste ano. A maioria (41%) diz que o processo dura semanas, o que, para Bacili, demonstra a evolução da maturidade do conceito.

"Equipes estão se sentindo mais à vontade e produtivas. Rompemos a primeira barreira do desafio, como design, processo de desenvolvimento de software e como as API se encaixam no ciclo de desenvolvimento de software", comemorou.

Na prática: barreiras culturais

Abrir informações sempre foi um tabu para a maioria das empresas. No entanto, os novos modelos de negócios estão mudando paradigmas. E, nesse contexto, as APIs estão inseridas, ao lado do conceito de open source, por exemplo.

Por isso, o desafio de mudança cultural é um desafio para algumas empresas na "jornada da API".

Para Luiz Adolfo Gruppi Afonso, CIO da Edenred - companhia de serviços financeiros que integra marcas como a Ticket - para Américas, a adoção da cultura de API passa pela conscientização da comunidade de desenvolvimento. O executivo considera ter passado por essa etapa, já que a aposta da companhia em APIs vem de alguns anos. Afonso cita um caso já consolidado: o virtual card number, que permite gerar um número de cartão virtual sem ter o cartão de plástico em mãos. O próximo passo são as APIs públicas, modelo de plataforma que pode ser acessada por outros desenvolvedores.

"Ainda estamos engatinhando na oferta de produtos para API pública. Tivemos mais sucesso com APIs privadas até agora. Aprendemos muito com essa mudança cultural", comentou, durante participação no API Experience.

Luzia Sarno, CIO do Grupo Fleury, acredita que a mudança cultural ligada às APIs passa pelo novo modelo de negócios e de trabalho, dentro de conceitos ágeis. "Todos da empresa começam a entender e, depois que entendem, ninguém quer voltar para o modelo anterior. Cria um ciclo positivo", destacou a executiva.

No caso da Algar Telecom, a jornada de mudança cultural foi feita em etapas. "Começamos com apenas uma equipe centralizada. Era conhecimento restrito e depois percebemos que precisávamos abrir para a equipe inteira, não só TI, mas também para as outras áreas de negócios", lembrou Melissa Kfouri Marino, diretora de TI da Algar Telecom. "A jornada não é simples, porque o entendimento de API não é fácil, mas já chegamos a um nível que as próprias áreas de negócios pedem APIs", contou a executiva.

A jornada da Algar Telecom começou em 2010, com a adoção do conceito de SOA (Service-oriented architecture) e, no ano passado, passou a utilizar APIs em projeto com a Sensedia. "O maior desafio não é a tecnologia em si, mas a escolha das APIs para fazer a diferença no mundo digital."

Relação com áreas de negócios

A facilidade integração de novas aplicações com os sistemas das companhias é uma das principais virtudes das APIs. Por isso tamanho interesse das unidades de negócios, em busca de soluções inovadoras para otimização de seus processos.

A Raízen - empresa brasileira com presença nos setores de produção de açúcar e etanol, transporte e distribuição de combustíveis e geração de bioeletricidade - está em estágio inicial do uso de APIs, como define Fábio Mota, VP da Raízen.

"Fomos no impulso inicial, na onda, e compramos um pouco (de APIs) para experimentar. Agora passo pelo desafio de como provar internamente esse benefício", apontou Mota.

O desafio, para ele, é levar a discussão para a "mesa" e provar o valor que a aposta leva dentro desse novo mundo. "Será mais natural com as áreas de negócio falando mais de tecnologia", acredita.

B2B2C

No caso da Raízen, as APIs são uma aposta para o momento atual vivdo pela companhia, que tem ampliado mercados, sobretudo com aquisições. Um dos casos é a compra da Shell na Argentina. "Somos uma empresa tradicionalmente B2B, mas que está entrando forte em B2C. É onde as APIs entram fortemente", comentou Mota.

"Pensando no mundo B2C e pelo fato de ser uma tecnologia relativamente nova, a entrada da Sensedia foi um processo quase de impulso. Já tínhamos tecnologias de integração, mas é uma nova tendência. De largada fomos simplesmente experimentar e estamos entendendo o modelo de custo e necessidades", contou o executivo, responsável pela área de tecnologia da Raízen.

Na Edenred, as APIs são fundamentais no processo do chamado B2B2C, como explica Afonso. "Somos um empresa de ecossistema, que une clientes e beneficiários. O sistema de vale alimentação, por exemplo, é composto por várias partes e API é facilitação e digitalização de processos e relacionamentos. Onde você vê oportunidade de digitalização, tem oportunidade de B2B2C. (No caso da Edenred) Empresas clientes nossas são pessoas jurídicas, mas consumidores são todos nós."

"As APIs estão no centro da estratégia digital e todos projetos que aprovamos nos comitês têm naturalmente questões ligadas a integrações", destacou Afonso.

Quem também fica de olho nos dois perfis de mercado é Luzia, no Fleury. E, segundo ela, API é o componente de arquitetura essencial para oferecer boas integrações e, consequentemente bons serviços, nos modelos B2B e B2C.

"Temos toda a experiência digital dos laboratórios do grupo, mas, do outro lado, um B2B com toda comunicação com hospitais", explicou. "Entregamos uma experiência efetivamente digital - autoatendimento, identificação digital, agendamento etc (para clientes) e, do lado dos hospitais, a comunicação de maneira mais fluída e robusta."

A ideia, segundo Luzia, é que que todas as integrações com hospitais sejam feitas via APIs. A empresa iniciou a utilização da plataforma da Sensedia há 3 meses e atualmente utiliza cerca de 40 APIs.

Maria Teresa Aarão, diretora de Inovação da Certisign, classifica APIs como uma nova dimensão de produtos e peça-chave para as integrações na companhia. "Na nossa área de inovação, a ideia é ir além do certificado digital.

Segurança

O conceito de API levanta algumas dúvidas quanto à segurança por conta da exposição de informações. Mas Luzia vê o contrário.

"Eu entendo que agregamos mais segurança com APIs. Está expondo, sim, e sempre expôs. Mas agora conseguimos controlar melhor o que está acontecendo, com monitoração, o que você está expondo e o que está mantendo dentro de casa. No meu conceito, aumentamos o nível de segurança", disse.

Como "vender"

As APIs estão ganhando espaço, mas o fato é que em grande parte das organizações o conceito ainda está em fase de maturação. Para avançar, profissionais da TI têm um papel preponderante para levar a mensagem da forma mais clara possível às lideranças e ao board.

Adam Duvander, developer Marketing da Zapier, uma das figuras mais conhecidas do mercado de APIs, recomenda que profissionais esqueçam os recursos das APIs quando foram "vender" a ideia. Para ele, o essencial é mostrar conhecimento.

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