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IoT e blockchain podem se completar. Entenda como

Déborah Oliveira

26/06/2018 às 14h14

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Na medida em que o número de sensores em veículos, fábricas, prédios e infraestrutura urbana cresce, as empresas buscam maneiras seguras e automatizadas de habilitar uma rede de processos. Nesse cenário, blockchain parece uma boa opção.

De acordo com dados da Juniper Research, o número total de sensores e dispositivos conectados à internet das coisas (IoT) saia de 21 bilhões em 2018 para 50 bilhões até 2022. Esse crescimento massivo é impulsionado, principalmente, por serviços de computação de ponta, com processamento de dados longe de tecnologia em nuvem e mais próximo da fonte.

Uma parcela substancial dos estimados 46 bilhões de dispositivos industriais e corporativos conectados, até 2023, dependerá da computação de ponta, segundo o estudo, revelando desafios para padronização e implantação.

Para ajudar nesse problema, blockchain poderia oferecer um método padronizado para acelerar a troca e dados e permitir processos entre dispositivos IoT sem um intermediário (um servidor que age como a comunicação central de acordo com as solicitações).

“A ideia é que não haja um agente central – ninguém aprovando e validando todas as transações. Em vez disso, o usuário participa da validação de todas as transações na rede”, explica o membro do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), Mario Milicevic.

Melhor cadeia de suprimentos

Em um ambiente tradicional, um servidor central autentica o movimento de mercadorias e materiais de um local para outro e uma autoridade central pode suspender determinados processos com base em regras pré-determinadas. Em uma rede IoT de blockchain distribuída, os dispositivos de IoT em uma rede de malha ponto a ponto podem autenticar transações e executá-las com base em regras pré-determinadas, sem um servidor central.

A tecnologia também pode melhorar a segurança por meio da interação descentralizada e da troca de dados, melhorando a confiabilidade dos dispositivos, aplicativos e plataformas. A tecnologia usa algoritmos de hashing para criar um registro imutável de transações. As informações podem, ainda, ser criptografadas e acessadas somente por meio de senhas.

Para aumentar a segurança, pode ser incorporado em cada chip IoT um software inteligente, com um código auto-executivo que determina as ações de acordo com uma condição. Essas ações só são executadas quando uma transação fosse autenticada.

Em uma fábrica de automóveis, por exemplo, quando uma peça chega, essa parte comunica a todos os outros dispositivos onde ela deveria ser alocada. Após a peça chegar, toda a rede também é comunicada. A nova mensagem seria para dizer que o trabalho pode ser iniciado.

Para isso, é necessário que a tecnologia Edge Computing (computação de “borda”) tenha crescimento no mercado, diminuindo a necessidade de banda larga e, consequentemente, o tempo de resposta dos aplicativos e melhorias na segurança de dados.

Embora as instituições financeiras e as seguradoras estejam na vanguarda do desenvolvimento e implantação de blockchain, os setores de transporte, governo e serviços públicos estão se engajando pelas oportunidades de eficiência de processos, cadeia de suprimentos e logística, segundo David Furlonger, vice-presidente do Gartner.

Como exemplo, medicamentos são obrigados a ser transportados e armazenados em condições de temperatura controlada, porém, o processo de rastreamento dessas remessas é altamente fragmentado. Muitas empresas farmacêuticas pagam aos seus fornecedores para coletar os dados ao longo da jornada para atender aos padrões regulatórios.

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No ano passado, a SAP e a IBM fizeram uma parceria para demonstrar como a IoT e o blockchain podem automatizar uma cadeia de suprimentos farmacêuticos. A SAP combinou sua plataforma de software Leonardo IoT com o serviço blockchain cloud da IBM para criar um modelo de funcionamento de um sistema que pudesse rastrear e gerenciar as cadeias de suprimento usando regras de contratos inteligentes.

A SAP concluiu, também, duas implantações de blockchain com seus clientes. Uma delas foi um pequeno teste de cadeia de suprimentos que avaliou milhões de transações usando tecnologia de contrato inteligente em dispositivos IoT. O segundo foi maior e representou bilhões de transações entre 15 diferentes usando o software de código aberto MultiChain sem código de contrato inteligente nos dispositivos.

O primeiro teste funcionou bem, mas era caro para configurar, porque exigia que um desenvolvedor de blockchain escrevesse o código, revela Gil Perez, diretor de Iniciativas de Clientes Digitais da SAP. “O custo das operações e despesas gerais foi bastante alto. Então, funcionalmente, superou as expectativas, mas da perspectiva financeira foi muito desafiador.”

O segundo abordou escalabilidade e custo e demonstrou que o blockchain pode escalar para níveis corporativos sem exigir que um desenvolvedor escreva um código de contrato inteligente para os dispositivos de IoT; em vez disso, a automação comercial foi executada em servidores separados do blockchain.

Ele não foi tão eficiente quanto o primeiro teste, mas custou menos e atendeu aos requisitos da empresa. O teste menor requeria uma lógica mais complexa na forma de código de contrato inteligente nos dispositivos.

“O fato de você colocar lógica em um servidor não significa que ele não seja automatizado”, alerta Perez. “Temos a flexibilidade de colocar a lógica em diferentes lugares. Os casos de uso de implantação e negócio precisam considerar não somente as capacidades tecnológicas, mas as implicações comerciais e de negócios.”

A SAP está trabalhando com aproximadamente 65 dos seus clientes para desenvolver softwares em blockchain. “Isso se torna parte de um ciclo de atualização. Ele é incorporado ao software padrão que a SAP fornece. Com a capacidade de estender ou ampliar o aplicativo para recursos de blockchain, acreditamos que ele também ajudará a acelerar a adoção do blockchain”, diz Perez.

A IBM também lançou, recentemente, um serviço IoT-to-blockchain como complemento ao seu serviço de conexão IoT. Ele permite que os dispositivos, como chips de localização RDFI, sejam transmitidos a um blockchain de permissão no serviço de cloud computing da empresa.

De acordo com a companhia, dispositivos capazes de comunicar dados ao blockchain podem atualizar ou validar contratos inteligentes. Por exemplo, quando uma remessa de mercadorias conectadas à IoT se move ao longo de vários pontos de distribuição, as informações de localização e temperatura da embalagem podem ser atualizadas.

Segurança dos sensores IoT

A segurança para IoT está se tornando mais relevante à medida que as indústrias se transformam com a era dos sistemas “inteligentes”, que usam minúsculos dispositivos eletrônicos para se comunicar e controlar tudo.

A ABB Wireless, por exemplo, está usando uma plataforma blockchain desenvolvida pela Xage, uma startup lançada no último mês. A empresa usou um aplicativo de segurança executado em gateways periféricos dentro de vários componentes nas subestações de uma concessionária de energia. A rede em malha permite o acesso remoto aos dispositivos para controlar as subsestações, desde a visualização de dados de manutenção até o encaminhamento de informações.

“Se você adicionar mais um milhão de medidores inteligentes a uma rede sem fio, acaba dificultando a invasão. Enquanto em uma rede tradicional, quanto mais unidades você adicionar, maior será a exposição ao hacking”, explica Duncan Greatwood, CEO da Xage.

O aplicativo blockchain possui uma tabela criptografada e imutável de credenciais de seguranças, permitindo aos profissionais se conectar a um dispositivo, ainda que a subestação esteja desconectada do data center central devido a um acidente, como um incêndio.

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“Todo mundo está com medo de que alguém consiga o controle da rede”, diz Paul Gordon, vice-presidente de engenharia e operações da ABB Wireless. “Isso fornece uma solução escalonável, para que a segurança não se torne um enorme fardo”.

Combinar criptografia com o blockchain faz com que quanto mais pontos forem adicionados, mais segura seja a rede, ao contrário dos sistemas de bancos de dados tradicionais, que possuem somente um ponto de acesso.

CIOs permanecem cautelosos

Apesar de seus benefícios, blockchain ainda é uma tecnologia pouco estudada. No banco de dados do IEEE, de 40 milhões de pesquisas, somente 480 contêm o termo “blockchain”, segundo Milicevic.

Muitos dos artigos estão focados em possíveis aplicações, muitos mencionando redes de IoT e como a combinação com a tecnologia poderia melhorar as cadeias de suprimentos. Há, no entanto, poucos exemplos de redes blockchain que realmente foram implementadas. Esse tipo de informação seria útil para entender o número de pontos, o consumo de energia e a eficiência de uma rede de IoT antes e depois da implantação do blockchain.

“Não entendemos o custo ou os problemas de segurança, como o que aconteceria se os invasores conseguissem ultrapassar a rede. Hoje, você ainda tem uma autoridade centralizada que pode desligar a rede”, comenta Milcevic. “Na rede descentralizada, não existe uma autoridade central. Ainda é necessário que façam um estudo sobre isso. Acho que todos estão esperando ver o que os outros fazem e esse é o desafio. Ninguém realmente sabe o que está fazendo.”

Ou seja, a falta de exemplos reais de implantações de blockchain é uma das razões pelas quais os executivos são cautelosos em adotá-la. De acordo com o Gartner, somente 1% dos CIOs indicaram qualquer tipo de adoção blockchain dentro de suas organizações e apenas 8% disseram que estavam no planejamento de curto prazo ou experimentação ativa com blockchain.

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