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Não seja um museu tecnológico: transformação digital começa no back-end

Enquanto o front-end deslumbra com aplicativos modernos e chamativos, o back-end é geralmente negligenciado e sobrecarregado

Carlos Kazuo Missao*

07/05/2018 às 19h54

fintech
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A transformação digital é certamente o desafio do século para o setor financeiro. No entanto, alguns tomadores de decisão não perceberam que a digitalização deve, em primeiro lugar, começar no back-end. E essa é precisamente a fonte do problema.

Enquanto o front-end deslumbra com aplicativos modernos e chamativos, o back-end é geralmente negligenciado e sobrecarregado. Bancos e provedores de serviços de pagamento precisam adequar as suas empresas ao futuro, mas se deparam com as capacidades limitadas de desempenho de seus sistemas de TI, bem como com a pressão para conter custos.

Soma-se a isso a pressão para implementar requisitos e demandas regulatórias obrigatórias. Ao mesmo tempo, os bancos precisam garantir flexibilidade, escalabilidade e um time-to-market mais rápido para os novos produtos financeiros. Como resultado do forte aumento das transações por canais digitais, que estão gerando poucos negócios adicionais até agora, os problemas se intensificam continuamente. Como os bancos podem capitalizar as funcionalidades existentes? A resposta é simples e ao mesmo tempo complexa: a chave é modernizar os aplicativos principais no back-end.

O sistema de core banking é a espinha dorsal da TI bancária. No entanto, em muitas instituições financeiras é tão desatualizado que ameaça atrapalhar os processos de negócios. Em alguns casos, o back-end bancário foi implementado antes do início da era da Internet e é caracterizado por uma arquitetura que é tanto complexa quanto opaca, permitindo dificilmente quaisquer efeitos de sinergia. Inclusive, em muitas situações nem é aconselhável mudar para um sistema de core banking completamente novo, devido aos altíssimos custos, tempo de conversão muito longo e grande potencial de risco.

Ao modernizar os principais aplicativos no back-end, os aplicativos conectados ao front-end podem ser otimizados gradualmente e de maneira direcionada – e de forma sustentável também. Essa abordagem estabelece o acesso a processos digitais de ponta a ponta com a jornada do cliente e sem grandes brechas. Além disso, novos produtos e serviços baseados em tecnologias inovadoras, como inteligência artificial ou blockchain, podem ser integrados adequadamente.

Um exemplo prático: o gerenciamento de identificação cria complexidade e redundância

Na prática, existem inúmeras abordagens, como o gerenciamento de identificação. Os principais aplicativos dos bancos geralmente usam identificadores diferentes para acessar os mesmos dados do cliente no sistema. Isso cria um alto nível de complexidade e redundância. Para evitar isso, é necessária uma chave primária central para cada cliente consistente em todos os sistemas, para que o consumidor tenha sempre o mesmo número de identificação (ID).

O segmento financeiro tende, contudo, a optar por soluções de transição ou bypass para incluir mais e mais funcionalidades ou aplicativos adicionais o mais rápido possível. Como resultado, isso aumenta a quantidade de patchwork (‘retalhos’) no back-end e agrava o problema. Ou seja, sem modernização, os sistemas de TI em breve estarão sobrecarregados, comparáveis a museus de tecnologia. O objetivo do ponto de vista de TI, contudo, é tornar os sistemas adequados para o futuro - sempre com a busca por minimizar custos e riscos.

Investimentos no back-end são críticos para o sucesso e compensam a longo prazo

O que se nota atualmente é que os grandes bancos estão postergando as suas renovações de seus sistemas de core bancário. Como eles têm uma enorme capacidade de investimento, optam pelo desenvolvimento de novas camadas de arquitetura para minimizar os problemas do back-end e viabilizar a transformação digital. O resultado disso é a criação de grandes camadas de integração, muitas vezes gerando uma sobreposição de camada sobre camada, fazendo com que os sistemas legados estejam cada vez mais distantes do front-end. Quanto mais profundo é este caminho a percorrer entre as duas pontas, mais tecnologia e capacidade de processamento são requeridos.

Por outro lado, os bancos menores têm aproveitado as necessidades da transformação digital para promover esta renovação ou, pelo menos ajustes, mais profundos do ponto de vista arquitetural. Certamente a menor complexidade destes sistemas permitem às essas instituições implementar tais iniciativas, com custo, risco e prazos menores que os grandes do mercado.

Por enquanto é possível conviver com estas camadas de integração entre o front e o back, mas é difícil precisar até quando soluções temporárias darão conta do recado, uma vez que as tecnologias digitais estão evoluindo e o volume de negócios e transações inevitavelmente migrarão para os canais digitais.

Aplicativos inovadores no front-end devem, primeiramente, fazer uma coisa: surpreender o cliente. Eles terão, no entanto, pouco efeito se o back-end não for modernizado ao mesmo tempo. Somente aqueles que investiram em ambas as áreas no longo prazo sairão da transformação digital como vencedores. Caso contrário, os complexos problemas de TI que as instituições financeiras enfrentam só irão piorar. Os bancos já têm excelentes aplicativos, mas o objetivo de trabalhar o Core Application Renewal é fazer com que eles, assim como o back-end, sejam bem-sucedidos na próxima década.

*Carlos Kazuo Missao é diretor de Desenvolvimento de Negócios na GFT Brasil