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Microsoft: chegou a hora de esquecer o passado

Kevin Turner, COO da fabricante, reforça a mensagem de que não vale chorar pelo leite derramado em oportunidades perdidas no passado recente

Por Gregg Keizer - Da Computerworld (USA)

20/07/2015 às 8h05

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Em um discurso entusiasmado no World Partner Conference 2015, o diretor de operações da Microsoft aconselhou os parceiros da empresa a esquecerem o passado. A mensagem de Kevin Turner pode, facilmente, ser encarada com uma alusão fracasso da companhia no negócio de smartphones.

“É tão bom, senhoras e senhores, não sermos mais cobrados por algo que não temos”, afirmou o executivo, durante uma longa apresentação, que abriu o terceiro dia da conferência de parceiros da empresa em Orlando (EUA). “Temos tudo que precisamos. Se falta algo, isso virá”, adicionou. 

Em outras palavras: não vale chorar pelo leite derramado das oportunidades perdidas. “Estamos vivendo um grande momento. É a hora de trabalharmos juntos e aproveitarmos as chances que estão a nossa frente”.

Apesar de Turner não ter falado expressamente as palavras “telefone” ou “smartphones” até aquele momento, parecia claro que sua mensagem era sobre aquilo que a Microsoft não tinha: um portfólio amplo de celulares inteligentes.

De fato, isso tem rondado muito do que se fala a respeito da companhia desde que fez a baixa contábil avaliada em US$ 7,6 bilhões relativas à Nokia. No mesmo anúncio, a empresa revelou que demitiria 7,8 mil funcionários da sua divisão de mobilidade.

Satya Nadella também tem se esforçado em mensagens otimistas que colocam panos quentes quanto aos rumos da organização. No email que enviou a funcionários, reforçou a mudança de uma estratégia focada em dispositivos autônomos para uma abordagem que visa a crescer e criar um ecossistema vibrante em torno do Windows. “No curto prazo, vamos executar um portfólio de telefone mais eficaz e focado, mantendo a capacidade de reinvenção de longo prazo em mobilidade”.

Analistas interpretaram essa postura de interrupção dos negócios relacionados à Nokia como um ajuste de foco, no curto prazo. Olhando para o futuro, eles acreditam que a postura sinaliza um dos últimos passos antes de a Microsoft inevitavelmente sair do negócio de hardware de smartphone.

Não surpreendentemente, Turner não abordou um plano de saída dessa disputa – afinal, falava para uma audiência em uma conferência de vendas. O COO talvez seja o maior e melhor vendedor da fabricante e não haveria nenhum ganho em admitir uma derrota naquela ocasião. Mas ele enunciou significados que algumas mudanças anunciadas na semana anterior nas operações da companhia.

“Nós nos preocupamos com telefones, ainda estamos nessa disputa”, reforçou. “Nós não estamos desistindo desse negócio, apenas redefinindo as estratégias para alcançarmos um crescimento rentável”, adicionou.

Para atingir tal objetivo, acrescentou Turner, a Microsoft vai atuar “focada em alguns dispositivos ‘matadores’ para capturar market share” e mostrar seus serviços e software, em especial o Windows 10 Mobile, uma versão do sistema operacional para smartphones e tablets que será lançada ainda este ano.

Pelo menos em termos gerais, essa é a mesma estratégia que a companhia manifestou (e executou) para sua linha de dispositivos mais-que-tablet-quase-um-notebook Surface. Embora a versão Pro 3 do equipamento tenha sido considerada uma máquina vencedora por muitos críticos, o produto ainda não tem muito peso nas receitas da provedora, que sequer divulga números precisos sobre ele.

Turner foi um dos keynotes de destaque no WPC 2015, muito por sua mensagem comercial sempre agressiva e franqueza ao defender a Microsoft frente a seus concorrentes. “Tivemos um ano muito, mas muito forte”, vangloriou-se, no auge de sua apresentação. “Amo essa nossa nova missão. É corajosa e ambiciosa. É o nosso destino e para onde estamos indo”, adicionou. Ele prosseguiu: “Temos a dinâmica do mercado”.

O executivo citou uma pesquisa (sem dizer a fonte da informação) que indicava que 46% dos entrevistados afirmavam que iriam ampliar os gastos com produtos da marca. “Podemos ir em busca disso, certo?”, indagou, também tecendo elogios ao Windows 10, nova versão do sistema operacional que chega ao mercado em algumas semanas. “Esse será o último lançamento monolítico que teremos”, definiu, sinalizando que se tratará de um “software como serviço”.

Uma coisa Turner não fez foi fornecer uma atualização sobre sua mais ousada declaração dada no WPC do ano passado. Em 2014, ele reconheceu que a participação da Microsoft no espaço global de sistemas operacionais era de apenas de 14%. Na ocasião, o executivo alardeou a oportunidade de ampliar essa fatia.

“Sabemos que ainda temos muito trabalho a fazer”, admitiu, no ano passado. “Mas estamos fazendo progressos nesta transformação. Na verdade, nós estamos fazendo realmente, realmente bom progresso. Queremos ir de 14% [na participação em dispositivos] a 18%, de 18% para 25%, de 25% para 30%. Essa é a beleza deste modelo... [a oportunidade] é muito maior do que qualquer coisa que já tivemos no passado”.

Turner baseava seu discurso em um dado divulgado pelo Gartner uma semana antes da palestra no evento. A consultoria revelou um estudo apontando que o sistema operacional estava em 14,4% dos dispositivos do mundo, número que segue sendo revisado (para baixo) e deve fechar na casa dos 13,2% ao final de 2015.

Apesar disso, o executivo manteve a animação alta, como é de seu perfil. “Estamos a fazer progresso”, repetiu, na quarta-feira (15/07/2015). “Mas ainda temos muito mais a fazer”, adicionou. Pelo visto, algumas coisas nunca mudam.

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