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Disrupção da disrupção. Um paralelo entre fitas K7 e cloud computing

Nuvem está fazendo com a música, o mesmo que vem fazendo em TI: proporcionando enorme variedade de serviços, escalabilidade imbatível e preço democrático

Henrique von Atzingen*

19/06/2015 às 8h30

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Era final da década de 80. Depois das atividades distribuídas entre os colegas da escola, ficou para eu gravar as fitas K7 para o churrasco da sala. E lá estava, com três fitas TDK de 90 minutos nas mãos, ajoelhado no chão da sala, botões REC e PAUSE pressionados esperando que a rádio da moda tocasse os hits do momento. Voltando 160 anos atrás daquele fatídico dia, encontraríamos um certo senhor Ludwig van Beethoven praticamente surdo compondo sua maravilhosa 9a sinfonia.

No tempo de Beethoven, música era privilégio de poucos. Só era possível ao vivo, diante dos músicos. No final da década de 80 a música já era bem mais acessível. E agora em 2015 tudo está totalmente diferente no mundo do entretenimento musical. Um novo modelo de distribuição musical mudou completamente a forma com que as pessoas interagem com a música, esse modelo se chama cloud.

Naquele tempo em que eu passei o domingo pressionando PAUSE, e várias vezes reclamando dos radialistas que insistiam em falar em cima das músicas, o mundo musical era dominado por gravadoras e distribuidoras. Os cantores, bandas, trabalhavam na construção de discos, com várias músicas, chamadas faixas. Geralmente duas, ou três músicas eram as mais famosas, pois tocavam mais nas rádios.

Para ter as músicas em casa, sem vozes de radialistas tagarelas, as pessoas compravam LPs ou CDs, que eram tocados em aparelhos de som. Nas salas de visitas, o aparelho de som tinha seu espaço privilegiado assegurado. Pensem agora que se a sala de visitas daquela época fosse um data center, o aparelho de som seria o servidor, os LPs e CDs seriam as mídias onde estão gravados os softwares, isto é a música! Era comum ver lojas e mais lojas de música, para se comprar CDs. Amigo secreto? CD! Dia dos pais? CD! Aniversário do vizinho? Vale CD!

Só que no final dos anos 90 o reinado do aparelho de som nas salas de visitas estava caminhando silenciosamente para o fim. Em 1997 o formato MP3 finalmente foi padronizado e adotado por todas as empresas do mundo. A música deixara de ser uma faixa, agora era um conjunto de bits e assim poderia ser entregue de outras formas.

Os primeiros MP3 players começaram a aparecer no mercado, dezenas de marcas, mas nenhum simples e intuitivo. Foi em 2001 que o iPod surgiu. Um aparelho simples, intuitivo e que colocava no bolso do cidadão comum milhares de músicas. Junto com ele, o iTunes, um software de gerenciamento de sua biblioteca de músicas, com interface inteligente, multiplataforma e grátis.

O iTunes tomou a indústria musical de solavanco. Agora as pessoas podiam comprar qualquer música e pagar pela unidade. Nada mais de pagar por 12 músicas para ouvir apenas um hit. Com o iTunes, montar a playlist para a festa da escola passou a tomar apenas alguns minutos. A evolução não para por aí. Nos 14 anos que seguem a popularização da internet, o advento do smartphone, proporcionou uma nova revolução na forma com que a música se faz presente em nossas vidas.

Agora em 2015, o que manda é a cloud! No mundo de TI estamos acostumados com as novas tendências de PaaS (Platform as a Service) e SaaS (Software as a Service) onde toda uma plataforma computacional com integrações complexas ou um software são contratadas como serviço.

Proponho então um novo acrônimo, MaaS (Music as a Service). É isso que empresas como Spotify, Deezer e recentemente Apple, fazem. O pagamento de uma mensalidade me dá direito a simplesmente toda a biblioteca musical do mundo. Agora não é preciso gastar nem um segundo para montar a playlist. Todos os tipos de agrupamentos musicais imagináveis são montados pelo próprio serviço. Vai correr? Tem playlist pronta. Vai ler um livro? Tem playlist. Vai trabalhar? Tem também.

A tecnologia de cloud está fazendo com a música, o mesmo que vem fazendo em TI. Proporcionando enorme variedade de serviços, escalabilidade imbatível e preço democrático. Antes eu gastava meu tempo de domingo gravando três fitas K7, agora eu consumo em realtime um serviço mais amplo, simples e completo. Ainda pago mais barato que pagava pelas três fitas K7.

*Henrique von Atzingen é executivo de mobilidade da IBM Brasil. Twitter: @hvon

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