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Economia digital. Seria a “uberização” uma indústria por si?

Já existe um app para praticamente qualquer coisa que se queira. Muitos deles atuando como intermediários entre prestadores de serviços e o mercado

Cezar Taurion*

16/04/2015 às 8h35

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Os apps são o elemento essencial que torna os smartphones tão úteis e integrados ao nosso dia a dia. São eles que permitem transformar o smartphone e o tablet em qualquer objeto ou ferramenta que simplifique o nosso dia a dia. Com um app podemos transformá-los em uma bússola, um GPS, uma câmera fotográfica, em uma calculadora, etc.

Com apps podemos identificar restaurantes e lojas, pesquisar preços para tomar melhores decisões de compra, nos conectarmos às mídias sociais, enfim, tornar os dispositivos móveis parte integrante da nossa vida diária. Eles já podem ser transformados em carteira de dinheiro ou cartão de crédito. Podem ser a nossa chave de casa. Enfim, qualquer objeto que queiramos.

Este conceito deve direcionar a estratégia de mobilidade de uma empresa. Tornar o smartphone e o tablet o centro da estratégia de negócios, explorando a capacidade de transformar processos de negócio, simplificando as tarefas e atividades de seus clientes e funcionários.

A “app economy”, que começou em 2008, com o lançamento da App Store, já é praticamente um setor econômico por si. Desde 2008 foram baixados, de todas as lojas, mais de 200 bilhões de apps. As principais lojas pagaram aos desenvolvedores, entre junho de 2013 e julho de 2014, mais de 15 bilhões de dólares. Sua disseminação no mercado se acelera. Estima-se que em 2017 mais de três bilhões de pessoas do planeta terão um smartphone. Aqui no Brasil, os números apontam para cerca de 70 milhões. Vale a pena ler este estudo da BCG, “The Growth of the Global Mobile Internet Economy”.

Uberização

Os apps estão deslocando o eixo gravitacional das empresas para os indivíduos, gerando ondas de choque em alguns setores. Afetam a própria natureza dos negócios e provocam disrupções em setores de negócio e atividades profissionais.

Um marco neste processo foi criação do Uber, que está provocando um tsunami na tradicional indústria de táxis, gerando, forte reação. Afinal os taxistas veem o risco de serem substituídos pelos motoristas da startup. Calcula-se que o Uber faz com que táxis percam, em média, 1 mil corridas diárias em São Paulo. Só na semana em que taxistas paulistas fizerem movimento contra ele, o ritmo de downloads do app aumentou 400%. Este número mostra claramente que o consumidor prefere o Uber à velha alternativa.

Nos EUA, um estudo mostrou que só na cidade de San Francisco, na Califórnia, o Uber e outros serviços como Lyft e Sidecar geraram 140 milhões de dólares em 2103, metade do faturamento de toda indústria de táxi local. Estima-se que o faturamento do Uber em 2014 foi de um bilhão de dólares e seu valor de mercado está na faixa dos 40 bilhões de dólares. Este valor de mercado se sustenta? Afinal, a indústria de táxis nos EUA gira algo em torno de 11 bilhões de dólares.

Creio que vale a pena ler este artigo da HBR, “Making Sense of Uber’s $40 Billion Valuation”. O artigo aponta claramente que o Uber está mudando a natureza da indústria e não pode ser analisado à luz do mercado tradicional de táxis.

Na esteira do Uber começam a surgir novos serviços oferecidos através de apps. Praticamente já existe um app para qualquer coisa que se queira. Estes apps atuam como plataforma intermediária entre prestadores de serviços e o mercado.

Por exemplo, nos EUA um negócio app chamado Handy está uberizando serviços domésticos gerais, como faxina, pinturas e pequenos consertos. O TaskRabbit, além destes serviços ajuda a resolver pequenos problemas como organizar uma festa ou arranjar um decorador. SpoonRocket faz entregas de refeições de qualidade de bons restaurantes, em até 10 minutos. FancyHands providencia um assistente pessoal para resolver qualquer problema, como buscar e reservar um hotel ou negociar com a empresa de TV a cabo. Shyp pega e entrega objetos em qualquer lugar.

A uberização é uma indústria por si. Em 2013 esta indústria, baseada no conceito da economia “on demand” teve 117 startups, a imensa maioria nos EUA, captando investimentos de mais de 1,5 bilhões de dólares. Esta economia “on demand” é uma continuação da “shared economy” exemplificada pelo AirBnB, que está provocando um terremoto na indústria hoteleira. O AirBnB deve chegar, em breve, a 20 bilhões de dólares de valor de mercado, perdendo apenas para a rede Hilton e Marriott , mas tendo o dobro de valor de mercado de redes tradicionais como Accor, Hyatt e Intercontinental.

Na contramão surgem as resistências das empresas nos setores afetados. Por serem modelos de negócio inovadores, a legislação não está preparada. Antes do Uber simplesmente não havia o Uber. O Uber não é uma empresa de táxi. Ela desenvolveu uma plataforma capaz de ligar motoristas particulares a seus clientes. Portanto, nada mais natural que não exista uma regulamentação sobre o assunto, já que a problemática não existia. Jogar as inovações nos modelos legais existentes simplesmente não funciona.

Showrooming

Mas, os apps entram para afetar praticamente todas as indústrias. Um exemplo prático é o fenômeno do showrooming, que afeta o varejo diretamente. Showrooming é a prática do cliente diante de uma vitrine ou dentro de uma loja física usar seu dispositivo móvel para pesquisar preços dos produtos que ele está interessado em outras lojas. E provavelmente vai efetuar a compra nesta outra loja, física ou virtual. Na prática ele analisa e experimenta o produto na loja, mas realiza a compra em outra, após pesquisar melhores preços.

O showrooming desperta muito interesse pela praticidade que traz para o usuário. Entretanto, deixa a loja com o custo de expor e demonstrar o serviço, mas sem o beneficio da compra... Este artigo faz uma análise bem interessante sobre este fenômeno. Nos EUA e Europa, o showrooming já é bem intenso e tem levado a situações típicas de desespero de alguns varejistas, como algumas lojas cobrarem dos clientes para permitirem que eles façam a busca dentro das lojas. Brigar com o cliente nunca foi uma solução inteligente. 

A realidade é simples: à medida que a mobilidade entra na vida diária das pessoas, abre riscos e oportunidades para as empresas. Lutar contra talvez não seja a reação mais correta.

Porque não pensar em uberizar seu negócio? Porque não embutir seus apps no dia a dia dos seus clientes, criando relacionamentos mais íntimos e contextuais, coisa impossível no desktop?

Os negócios baseados em sistemas que têm o PC como foco de interação com cliente não serão mais de muita valia no mundo da mobilidade. O software não é mais um aplicativo monolítico e pouco intuitivo, que tenta englobar tudo, mas passa a ser uma app task-oriented, que simplifica as tarefas e encurta o ciclo da interação entre o criador do serviço e a sua entrega ao usuário, eliminando intermediários desnecessários.

Além disso, à medida que os usuários usam apps as empresas passam a entender melhor que processos são mais úteis e importantes para eles e quais não o são. O resultado é uma contínua evolução nos apps, melhorando os processos de negócios e criando mais “customer intimacy”. A mobilidade, acelerada pela evolução tecnológica dos dispositivos como smartphones e tablets, tem o poder de revolucionar nosso dia a dia pessoal e profissional. Olhem este texto, que apesar de ser de 2012 está atualizadíssimo.

Os apps são ponto chave da mobilidade. Eles é que fazem a diferença. Disponibilizar apps só para dizer que a empresa tem um app é desperdiçar oportunidades valiosas.

Um app perdido em uma app store não diz nada. O sucesso é fazer com que seu app seja um ícone destacado na tela principal dos dispositivos móveis de cada cliente. Para isso ele deve oferecer um serviço que realmente agregue valor ao seu dia a dia.

*Cezar Taurion é é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data.

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