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O mainframe aos 50: como o System/360 da IBM revolucionou a TI corporativa

Lançado em 7 de abril de 1964, o mainframe foi uma aposta de US$ 5 bilhões da IBM, o dobro do seu faturamento anual na época

Silvia Bassi

07/04/2014 às 22h10

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Em 1964, ano do lançamento da linha System/360, da IBM, os mainframes não eram novidade, mas representavam um grande desafio para as corporações e para os fabricantes. Grandes, caros e incompatíveis entre si, os diferentes modelos de computadores ficavam cada vez mais difíceis de gerenciar e exigiam, a cada upgrade, que todo o software feito para a geração anterior fosse reescrito.

O System/360 começou a ser projetado três anos antes, em 1961, quando a IBM decidiu mudar o rumo da tecnologia e encarregou uma força-tarefa de engenheiros de criar a próxima geração de seus computadores, aquela que inauguraria o nascimento da era moderna da computação.

O time de engenheiros se reuniu secretamente no New Englander Motor Hotel, em Greenwich, Connecticut. A aposta era alta: foi um investimento de US$ 5 bilhões, o equivalente a duas vezes o faturamento da Big Blue na época.

"A IBM de certa forma estava sob o peso de ter de suportar múltiplas linhas de produtos incompatíveis entre si", diz Dag Spicer, diretor de conteúdo do Computer History Museum, que mantém um arquivo digital sobre a criação e o sucesso do System/360.

E foi há cinquenta anos, no dia 7 de abril de 1964, que a IBM anunciou o resultado do trabalho dos engenheiros, materializado na linha System/360. O então presidente da IBM, Tom Watson, Jr., matou as outras linhas de
computadores da companhia e alinhou a empresa toda a favor do System/360.

Nasce a nova TI

O mainframe tornou-se um enorme sucesso para a empresa. A receita da IBM atingiu US$ 3,6 bilhões em 1965 e saltou para US$ 8,3 bilhões em 1971. Nos anos 70, mais de 70% dos mainframes vendidos no mundo eram IBM. Em 1982, mais da metade da receita da companhia foi gerada pelos descendentes da primeira linhagem do System/360.

"A IBM era onde todos queriam trabalhar na época", diz Margaret McCoey, professora assistente de ciência da computação da La Salle University, na Filadélfia. O System/360 inaugurou um novo jeito de pensar sobre projeto e fabricação de sistemas de computadores, apostando em compatibilidade e padronização entre diferentes linhas de máquinas.

De fato, o termo "360" foi usado para indicar que o mainframe seria capaz de atender todos os tipos de consumidores, grandes ou pequenos, acadêmicos ou corporativos. Hoje a idéia parece óbvia, mas há cinquenta anos era absolutamente revolucionária e suas consequências para o futuro da computação foram vitais.

Antes do lançamento do System/360, os fabricantes produziam cada novo modelo de computador como se fosse único. E muitas vezes uma máquina era produzida sob medida para cada cliente. O software projetado para rodar em um equipamento não funcionava em nenhum outro, mesmo que os dois equipamentos fossem do mesmo fabricante. E o sistema operacional de cada computador era escrito do zero para cada novo modelo.

A idéia que foi gerada no hotel em Connecticut apostava numa família unificada de computadores, todos sob a mesma arquitetura. Gene Amdahl foi o arquiteto chefe do sistema e Fred Brooks atuou como líder do projeto. Brooks mais tarde escreveu o livro "The Mythical Man Month" que demonstra que agregar mais pessoas para trabalhar em torno de um projeto de software na verdade retarda o tempo de desenvolvimento por conta de aumentar os problemas de gerenciar pessoas extras.

Os dois cientistas queriam ter uma arquitetura comum que valesse tanto para o sistema de menor performance da linha quanto para o topo da família de computadores. O computador do topo da linha deveria ter 40 vezes mais performance que o computador de início, mas todos estavam sob a égide da mesma arquitetura - um termo que só começou a ser associado à tarefa de projetar computadores no início dos anos 60.

O padrão é o segredo

A IBM foi capaz de usar um único sistema operacional para todos os computadores (embora tenha acabado por criar três variantes para atender diferentes casos de uso). Com isso deixou de consumir tempo de programação precioso, que passou a ser usado pelos engenheiros para produzir novas aplicações. O mesmo aconteceu com recursos de hardware. A partir do System/360, componentes como processadores e memória deixaram de ser projetados para cada máquina e passaram a ser usados em todos, gerando uma incrível economia de escala.

Os clientes, por sua vez, foram grandemente beneficiados. Eles podiam pegar o código escrito para um System/360 e usar em outro computador de maior porte da mesma linha. Ou mudar para uma máquina de menor porte sem ter de reescrever tudo. A IBM manteve a compatibilidade dos sistemas nas décadas que se seguiram ao lançamento do System/360.

Programas escritos para o mainframe original ainda rodam, com algumas pequenas modificações, nos mainframes IBM de hoje (o que não elimina os esforços da companhia para convencer seus clientes a mudar para os novos modelos da linha). Se pensarmos que a Microsoft encerra o suporte ao decano Windows XP nesta terça-feira, 8 de abril, dá para considerar a longevidade dos mainframes sob outra perspectiva.

Foi só no final dos anos 70, com o nascimento dos mini-computers de menor custo, que a hegemonia da IBM começou a diminuir, embora na década seguinte a companhia tenha acelerado na nova onda, a dos computadores pessoais (PCs) e dos servidores. Mas IBM manteve o mainframe vivo e atuante mesmo assim, para a frustração de muitos analistas que previram várias vezes a "morte" dos grandes computadores.

Nesta terça-feira, 8 de abril, a companhia celebra o aniversário de 50 anos do mainframe com o evento Make the Extraordinary Possible com apresentações de diversos executivos e clientes da IBM.

Durante o evento também serão apresentados os estudantes vencedores do desafio IBM Master the Mainframe World Championship, evento que reuniu 20 mil estudantes universitários de 23 países que assumiram a tarefa de construir uma aplicação de negócios dominando o mainframe. O evento pode ser assistido em vídeo ao vivo pelo site especial da comemoração.

* Colaboraram James Niccolai e Joab Jackson - IDG News Service.

* A jornalista Silvia Bassi viajou a Nova Iorque a convite da IBM

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