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Adoção do prontuário eletrônico no Brasil ainda é baixa

Estima-se que apenas 5% dos hospitais no País contam com o sistema eletrônico. Sociedade Brasileira de Informática em Saúde cobra do governo incentivo para mudar o quadro.

Déborah Oliveira

16/07/2012 às 7h30

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A discussão sobre o uso de prontuário eletrônico na saúde não é recente, mas seu efetivo uso não decolou no setor. O presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBID), Cláudio Giuliano Alves da Costa, afirma que não há números oficiais sobre a utilização em solo nacional, mas estimativas da entidade indicam que, hoje, de 20% a 25% dos hospitais brasileiros possuem algum tipo de sistema de informação. Destes, menos de 5% contam com prontuário digital.

“Estamos muito atrás no uso de TI no segmento de saúde em comparação com Dinamarca e Noruega, por exemplo, onde 100% dos médicos utilizam o sistema”, assinala Costa, que também é CIO da Bionexo, centro de uma comunidade formada por mais de 30 mil agentes do segmento hospitalar.

Para ele, algumas barreiras impedem a massificação do prontuário eletrônico. “A adoção de tecnologia da informação em saúde sofreu atraso e o investimento no projeto é outro ponto de atenção. Faltava também uma legislação para definir regras de utilização que incluíssem segurança e privacidade, mas esse é um desafio recém-superado”, lista. A mais importante, na visão de Costa, é a falta de investimento governamental para migrar o prontuário do mundo físico para o digital.

A saída para mudar esse quadro, diz, é o governo estruturar um projeto nacional. “Muitos países que conquistaram nível elevado de uso foram impulsionados pela iniciativa pública”, analisa. De acordo com ele, o fator cultural ainda não foi superado e o apego pelo papel ainda prevalece.

A criação da Cartilha sobre Prontuário Eletrônico e a Certificação de Sistemas de Registro Eletrônico de Saúde pelo Conselho Federal de Medicina e a SBIS, em 2003, contribuiu para esclarecer dúvidas das instituições do segmento e contribuir para a ampliação do sistema digital. Mas ainda há muito a ser realizado.

Costa aponta que alguns benefícios têm atraído a atenção do setor para a adoção de prontuário eletrônico. “Há possibilidades claras de melhorar a eficiência operacional, reduzir o erro médico, já que o profissional terá acesso a mais informações sobre o paciente, e eliminação de custos no segmento”, detalha. É possível ainda registrar dados mais precisos sobre o paciente. “O papel aceita tudo, o meio eletrônico não”, sentencia.

Também se tem discutido o uso de cloud computing para poder eliminar os custos com infraestrutura, mas o presidente indica que os receios sobre segurança ainda prevalecem.

Na opinião de Costa, o primeiro passo para que uma instituição migre para o prontuário eletrônico é o planejamento. “Essa é palavra-chave. É preciso saber os benefícios do sistema e construir uma visão de longo prazo”, ensina. Outra dica valiosa, recomenda, é investir em treinamento do corpo médico, mas o sistema também deve ter uma boa usabilidade. “Hoje, a maioria das tecnologias é difícil de entender”, comenta.

Vantagens do sistema digital

A Clínica Paranaense de Assistência Médica – Clinipam, operadora de planos de saúde, está na contramão da estatística e é uma das que implementaram o prontuário eletrônico em duas das nove unidades em Curitiba, onde atua. Até o final do ano, segundo Alessandro Neri, gerente de TI da instituição, todas elas receberão o sistema. “A informação estava fragmentada e no papel. Queríamos possibilitar o acesso ao prontuário de maneira centralizada, permitindo visualização das informações de forma única em qualquer unidade da rede”, explica.

A Clinipam desenvolveu internamente um sistema eletrônico que compartilhasse informações dos beneficiários e conseguisse armazenar os dados clínicos para reduzir os custos, diminuir o uso de papel, aumentar a segurança da informação e facilitar a visualização da informação entre o corpo clínico. O sistema registra as mais de 50 mil consultas mensais realizadas pela clínica.

O projeto teve início em novembro de 2011 e deverá ser finalizado em dezembro deste ano. Hoje, cerca de 70 médicos acessam as informações do prontuário eletrônico, mas o número deve saltar para 250 até o final de 2012, contabiliza.

“Já registramos ganhos no acesso a informação, eliminação da papelada e confiabilidade dos dados”, lista Neri. “O paciente que vai até uma unidade pode ir para outra e o médico poderá dar continuidade ao tratamento com tranquilidade e agilidade”, aponta.

Iniciativa do Distrito Federal

O Distrito Federal também tem apostado as fichas no prontuário eletrônico. São 12 hospitais, mais de 30 centros de saúde e cerca de 20 laboratórios que já contam com o sistema. O projeto começou em 2007 e o Hospital Regional do Gama foi o primeiro a receber a tecnologia da Intersystems.

“Ao final de 2012, toda a rede pública do Distrito Federal deverá migrar do papel para o eletrônico”, adianta Ruy Demes, diretor de produção da Subsecretaria de Tecnologia e Informação de Saúde do Distrito Federal.

O sistema realiza um registro único do paciente. “Isso facilita o atendimento, porque o médico tem todo o histórico. Agilidade no acesso à informação médica faz a diferença no atendimento”, afirma Demes. Atualmente, cerca de 2,5 milhões de pessoas têm seu histórico médico registrado no sistema, incluindo consultas, diagnósticos e exames realizados nos estabelecimentos da rede de saúde.

Demes cita ainda como benefício o conforto para o paciente que não precisa buscar exames nos estabelecimentos. “Ele recebe uma senha e verifica o resultado por meio do portal”, assinala.

Segundo ele, a eliminação da papelada tem possibilitado economia para o setor de saúde pública do Distrito Federal, resultando em mais investimentos para a população. “Quando os exames são registrados apenas no formato físico, muitas pessoas perdem os resultados e têm de refazê-los, gerando alto custo para todo o sistema. Com o armazenamento eletrônico eliminamos 50% dos gastos com exames.”

A economia de medicamentos, prossegue, ultrapassa a casa dos 50% em toda a rede porque com a prescrição eletrônica o medicamento só é liberado em função da receita. “Quando informatizamos o agendamento de consultas no Hospital de Base de Brasília, o maior da rede, conseguimos, por exemplo, ampliar em 30% o número de consultas”, enumera.

Dames aponta que está nos planos do Distrito Federal realizar análises mais profundas sobre a base de dados para desenvolver ações preventivas e de qualidade de vida. “Vários setores passam a ter acesso às informações para se antecipar a eventos e melhorar a saúde da população”, finaliza.

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