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Microsoft versus DOJ: decisão antistruste faz uma década

Acordo que impediu oferta do IE no Windows não retirou participação da Microsoft, mas empresa desacelerou e abriu espaço para o Google, dizem analistas.

Computerworld

02/04/2010 às 16h47

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Há dez anos, a Microsoft perdeu uma dura batalha com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) envolvendo seu domínio sobre o mercado de browsers. Hoje, ainda há um debate sobre o fato de a Microsoft ter sido realmente freada pela censura legal.

Em abril de 2000, o juiz Thomas Penfield Jackson decidiu que a Microsoft violou leis antitruste federais e estaduais e condenou a empresa a separar seu sistema operacional Windows do navegador Internet Explorer, além de pagar multas pesadas e ser submetida a anos de controle para evitar futuras atividades de monopolistas no mercado.

Agora, com a saída da Netscape, elemento chave do processo, do mercado, o Internet Explorer passou a concorrer os navegadores de código aberto Firefox e o recém-chegado Google Chrome e os desdobramentos do julgamento que durou anos ainda continuam na União Europeia para a Microsoft e agora para o Google.

A Microsoft permanece intacta - em janeiro, a empresa registrou um faturamento recorde de quase 20 bilhões de dólares no segundo trimestre fiscal -, mas a decisão tomada em 2000 significou mais escolhas na arena dos browsers e permitiu que a indústria inovasse em tecnologias que, na opinião de especialistas, a Microsoft tentou controlar em um ambiente fechado. Para outros, o cenário não mudou muito e a Microsoft continua a capitalizar os pontos fortes do seu mercado, freando a concorrência onde puder.

"O potencial estava lá para destruir a Microsoft. Eu vislumbrei um novo mundo (...) de TI", diz o diretor de tecnologia da NewBay Media, Greg Topf, de Nova York (EUA). "Percebi que grandes mudanças viriam, as implicações do acordo realmente tinham potencial para causar uma re-arquitetura total na Microsoft, mas honestamente, a mudança foi muito menor do que eu imaginava."

O bom
A Microsoft, que se preferiu não se pronunciar nesta reportagem, perdeu alguma participação no mercado de browsers, mas a empresa parece estar avançando com seus planos em torno do IE 9 e da padronização na linguagem HTML 5.

"A Microsoft mostrou que realmente quer liderar o caminho com o HTML 5, e não seguir os outros com a inovação", afirma a analista da Forrester Research, Sheri McLeish. "Sua liderança aqui vai ajudá-la a oferecer o IE9 como um navegador verdadeiramente moderno (...). Como as pessoas podem ter vários navegadores, é importante que a Microsoft inove nesta tecnologia, para ficar o mais próximo possível dos clientes".

A gigante de software continua a dominar o mercado de sistemas operacionais com o Windows, que hoje detém 91% do setor de acordo com a Net Market Share, além de observar uma adoção acelerada da mais nova versão, o Windows 7.

De acordo com um relatório feito em 1009 por McLeish, 80% dos clientes da empresa usam alguma versão do Microsoft Office para produtividade e colaboração, com 8% de escolher alternativas. E muitos estão antecipando a adoção do Microsoft Office 2010 para atender às necessidades emergentes, aponta a Forrester.

"A Microsoft continua a deixar suas impressões digitais de computação na maioria dos desktops", avalia McLeish. "Mas a revisão [da justiça] assegurou que empresa não monopolizaria o mercado e agora empresas como o Google também podem impulsionar suas próprias experiências de desktop, do navegador ao aplicativo do sistema operacional."

Uma mudança positiva que pode não ser aparente nos números de participação de mercado da Microsoft é o compromisso da empresa com a interoperabilidade junto a terceiros e a sistemas de código aberto.

"A Microsoft tornou-se mais sensível à ampla comunidade de engenharia de software nos últimos dez anos e reconhece que o monopólio que tentava manter na década de 90 não é saudável para a empresa ou para o setor como um todo - de perspectivas políticas, financeiras, técnicas, legais e éticas", diz Ian Rousom, que atua no projeto de engenharia de infra-estrutura para a Lockheed Martin Enterprise Business Services, em Denver.

aquisição

Rob Enderle, principal analista do Enderle Group, aponta esforços internos da companhia em pesquisa e desenvolvimento (P&D), bem como um grupo interno de Linux dedicada ao esforço da Microsoft pela interoperabilidade. Na década de 1990, a Microsoft empurrou seu ambiente fechado, exigindo que os fabricantes de hardware atendessem suas especificações, mas neste século Enderle diz que a empresa percebeu o potencial para inovar mais rápido, trabalhando com os outros, até mesmo com os concorrentes.

"As ações do DOJ e da União Europeia serviram como um 'tapa na cara' da Microsoft para que a companhia levantasse a cabeça e visse o que estava acontecendo no mundo da tecnologia fora de seu departamento de P&D", diz Enderle. "O caso permitiu que outros produtos entrassem no mercado para solucionar desafios, mais rápido do que se uma única empresa trabalhasse sobre eles e agora a Microsoft parece um pouco menos arrogante, porque se você bater em alguém no bolso forte o suficiente vai obrigá-lo a mudar".

O mau
Uma coisa que o processo não mudou foi a ambição da Microsoft de criar uma presença significativa em muitos mercados.

"O Windows Mobile, representa um dos fracassos mais difíceis, porque eles não o fizeram direito. O Zune foi posicionado contra a Apple, em uma tentativa de ser relevante, mas não decolou como se esperava", aponta o analista de pesquisas de infra-estrutura de comunicações da IDC, Jonathan Edwards. "Algumas das tentativas da empresa em relação aos concorrentes realmente não funcionaram porque eles estavam tentando estar em todos os mercados e viram isso tarde demais."

Para profissionais de TI, pior do que as falhas em esforços sobre produtos é o fato de que pouca coisa mudou com a fabricante de software. A empresa, embora comprometida, em parte, com padrões, não fez o suficiente para alguns clientes. E a complexidade do licenciamento da Microsoft ainda abre caminho para opções mais simples, incluindo software como serviço (SaaS) para os departamentos de TI.

"A Microsoft ainda precisa aprender a ser menos proprietária. Se cada empresa de software do mundo se abrisse para os padrões, estaríamos em um lugar muito mais fácil para se viver" diz Craig Bush, administrador de redes na Exactech, fabricante de implantes ortopédicos e instrumentos cirúrgicos em Gainesville, na Flórida "[A Microsoft] também precisa melhorar suas estruturas de licenciamento ridiculamente complicadas. Algumas das aplicações de software são tão paralisadas pela concessão de licenças que é extremamente demorado trabalhar com elas."

Outros usuários afirmam que a Microsoft fez algum progresso na sua tecnologia de navegação, mas não conseguiu o mesmo que os concorrentes quando se trata da experiência do usuário no desktop. Por exemplo, a empresa pode oferecer a escolha de outros navegadores no Windows ainda requer que os profissionais de TI usem o IE para chegar lá. "Acho irônico iniciar o IE para baixar um novo browser", afirma John Turner, diretor de redes e sistemas da Brandeis University em Massachussets.

"Acho que a Microsoft desacelerou e agora está se tornando a IBM de antigamente" compara Naveed Husain, Chief Information Officer (CIO), do Queens College, na City University de Nova York. "O SharePoint e o Windows 7 são agora os principais produtos da Microsoft. Parece haver menos movimento do lado da inovação".

O Google
As disputas da Microsoft com a União Europeia e os governos europeus, contudo, serve também como um aviso para 'queridinhos da indústria', tais como o Google.

"A companhia era tão grande, tão bem sucedida que se tornou um alvo. Agora, com o controle dos tribunais, a empresa tem ajustado internamente e sabe andar na linha tênue entre ser agressivamente competitiva e monopolizar o mercado, então o calvário a provavelmente tornou uma companhia mais forte", diz McLeish, da Forrester. "Com o sucesso do Google em sua presença na vida das pessoas, era certo tornar a empresa faminta por ampliar sua atividade e desenvolver uma plataforma online para comunicação e colaboração, permitindo que o Google tivesse uma presença tão gigantesca presença agora como a Microsoft teve em décadas anteriores".

A diferença entre as empresas, segundo McLeish, é que em seu auge, a Microsoft pressionou a adoção de um ambiente fechado, e o Google vendeu-se como um ambiente aberto, desde o início, buscando subsídios para colaboração comum. Mas, recentemente, a empresa experimentou sua própria investigação antitruste na Europa. Os observadores da indústria dizem que se os outros não perceberem as tentativas do Google para conquistar o desktop, a Microsoft estaria mais do que disposta a apontar tais detalhes às autoridades.

"Uma vez que você entra no radar da União Europeia, não tenho certeza de que há uma maneira fácil de voltar atrás, mas se você observar a investigação da Federal Trade Commission (FTC) sobre o Google [Buzz e] a privacidade do consumidor e as questões em andamento com a UE, A Microsoft tem sido parte integrante para fazer isso acontecer", diz Enderle.

Embora os observadores da indústria digam que a Microsoft e o Google continuam trocando golpes, eles apontam que o Google está realmente preparado para competir com a Microsoft, o que comprova que a ação antitruste faz uma diferença significativa para a indústria de alta tecnologia.

"A Microsoft achou que estava acima da lei", afirma Ederle. "Mas o processo mostrou-a vulnerável, abrindo a oportunidade ao Google para trazer algo novo para o mercado".