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Um ano depois, implementação da TV Digital ainda enfrenta obstáculos

Eletros estima vendas de quase 500 mil produtos para TV digital até o fim de 2008. Tecnologia está disponível para 40 milhões de brasileiros, mas ainda não decolou.

Fabiana Monte

02/12/2008 às 8h00

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Um ano depois do início das transmissões de televisão digital no País, a Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos) estima que, até o fim de 2008, terão sido vendidos em todo o Brasil 490 mil produtos compatíveis com TV digital, entre set-top boxes (100 a 120 mil), celulares (180 mil), receptores portáteis (100 mil) e televisores com conversor embutido (90 mil).

Os números não são desprezíveis, mas estão longe de ser um sucesso, uma vez que a TV Digital está disponível em nove cidades brasileiras e chegará a todas as capitais até o final de 2009. Segundo o SBTVD (Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre), no fim deste ano a cobertura atenderá cerca de 40 milhões de habitantes. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 94,5% do total de residências brasileiras têm televisores.

Para a Positivo Informática, o mercado de TV digital no Brasil cresceu quatro vezes menos do que o esperado. César Aymoré, diretor de marketing da empresa, estimava 400 mil conversores vendidos no Brasil em 2008, dos quais 100 mil teriam a marca da fabricante curitibana. "Vendemos 25 mil desde o lançamento. O mercado ficou aquém do nossos planos", lamenta.

A LG não revela números absolutos, mas informa que 15% das vendas de televisores de LCD acima de 32 polegadas têm conversor integrado e 35% das TVs acima de 42 polegadas, de plasma e LCD, comercializadas contam com o set-top box, que a companhia não planeja vender isoladamente no País.

Outra fabricante coreana, a Samsung, indica que seu único modelo de TV com conversor embutido representa 5% das vendas, mesmo patamar ocupado pelos dois telefones celulares capazes de receber sinal de televisão digital.

"As vendas estão no ritmo esperado. A partir do ano que vem vamos estender o set-top box integrado a ourtas categorias de TVs e teremos celulares mais competitivos. Não planejamos vender apenas o conversor", afirma José Roberto Ferraz de Campos, vice-presidente de marketing e vendas da Samsung.

Pedras no sapato

Doze meses após o lançamento da TV digital, pelo menos dois aspectos fundamentais para a disseminação da tecnologia continuam em aberto: preço dos equipamentos e interatividade. Na época do lançamento, o Ministro das Comunicações, Hélio Costa, garantiu que o preço dos set-top boxes chegaria a 100 reais, mas os modelos disponíveis atualmente no mercado custam, em média, 350 reais. Mas há opções bem mais salgadas, como um dos aparelhos da Philips, que custa 899 reais.

Aymoré e Fernanda Summa, gerente de produto de TVs da LG, dizem que a indústria não tem capacidade para reduzir preços neste momento, especialmente por conta do valor do dólar. "Estamos num cenário que não está ajudando muito em relação à queda de preço, mas os valores já estão bastante interessantes. Preço é a barreira para massificar", analisa Fernanda. "Antes você falava numa faixa de 6 mil reais a 7 mil reais e só tinha opções de modelos com tela de 47 polegadas", completa.

Hoje é possível encontrar televisores de alta definição com preços e tamanhos menores. Na Sony, os valores começam em 1.899 reais e vão até 9.499 reais. Na LG, que oferece 15 opções, a TV HD mais barata custa 2.599 reais e a mais cara, 3.299 reais. A Samsung comercializa modelos entre 5.399 reais e 8.999 reais.

“O custo é uma das barreiras para a disseminação da TV digital, mas essa é uma questão de escala. A outra questão é a interatividade. Todo mundo fica pensando se terá que comprar outro conversor quando a interatividade chegar. Já não está barato e ainda vou ter que comprar outro?”, pondera Luiz Fernando Gomes Soares, coordenador do grupo de middleware do SBTVD e professor da PUC/RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

E a tal da interatividade?

Soares garante que no início de 2009 as especificações finais do middleware brasileiro Ginga J (que utiliza Java como linguagem de programação) estarão prontas. Com isso, será possível desenvolver aplicações interativas para a TV digital terrestre, que, obrigatoriamente, precisa do Ginga J e do Ginga NCL, versão do middleware que usa as linguagens de programação Lua e NCL.

De acordo ele, assim como o NCL, o Ginga J estava pronto no início deste ano, mas o grupo de middleware do SBTVD notou que era preciso desenvolver novas APIs do Java, para que o Brasil não precisasse pagar pelo uso das APIs já existentes, cujos direitos de propriedade intelectual estão registrados no exterior.

"O esperado é que no início do ano especificações estarão prontas e aí não haverá mais desculpas para não ter o Ginga. Tudo isso vem sendo uma desculpa para não ter interatividade", critica o coordenador.

Mas mesmo no mundo móvel, onde o Ginga já está disponível, a interatividade ainda é caminha a passos tímidos. Soares diz que isso acontece devido ao pequeno número de fabricantes de celulares com modelos capazes de receber TV digital. Somente Samsung e Semp Toshiba oferecem aparelhos do tipo, respectivamente, duas e uma opções, com valores entre 899 reais e 1.499 reais.

Na opinião de Frederico Nogueira, presidente do SBTVD, a interatividade é o principal desafio do projeto, porque exige muitas parcerias com universidades e com a indústria. Mas ele também indica que mostrar para os consumidores o real benefício da TV digital como um aspecto que precisa ser melhor trabalhado pelo Fórum. Para isso, Nogueira pretende lançar, no início do ano, uma campanha nacional para incentivar a adoção da tecnologia.

“É muito fácil mudar da TV preto e branco para a colorida, porque o usuário vê. A TV digital, ele tem que ter uma prova de que aquilo realmente vai ser bom em áudio e imagem. E como ele está com a TV boa, para ele tanto faz. Não é a mesma coisa de ter um chuvisco e colocar uma antena nova e resolver”, compara.

Mas Aymoré acredita que o grande filão da TV digital está não nos consumidores high-end, que podem pagar alguns milhares de reais por uma televisão de última geração. O executivo da Positivo ressalta que a TV Digital tem um público fiel em uma parcela da população que quer apenas ter uma imagem de qualidade. "A gente estima que cerca de 25% da base de TV a cabo no Brasil assina a TV para ter uma imagem melhor".

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