Home  >  Negócios

O fim da era Gates

Aposentadoria de Bill Gates mostra que mercado de software chegou à maturidade e abre o período de sucessões.

Vinicius Cherobino

23/06/2008 às 7h00

Foto:

SELO_PEQUENO.jpgUma idéia, um punhado de amigos e a aposta onde ninguém mais viu a oportunidade de negócios.

Com o tempo, essa idéia se transforma em uma obsessão para, daí, tornar-se uma empresa. O tempo continua a passar e obriga, em um belo dia, que esta figura conhecida por suas idéias e liderança, se aposente.

Mais sobre Bill Gates:
> Como será o futuro da Microsoft sem o fundador?
> Gates e Jobs: o que seria de um sem o outro?
> Linha do tempo: história de Gates e da Microsoft
> Vídeos: os melhores momentos de Gates
> Imagens: Windows na era Gates
> Artigo: Até Bill Gates se aposenta
> Fotos: a trajetória de Gates
> Veja o adeus de Gates na CES

Várias grandes organizações passaram por isso. Assim como a Ford experimentou a saída do responsável pela criação da linha de produção, Henry Ford, a IBM foi obrigada a viver sem Thomas Watson, apontado como o responsável por sua internacionalização. Mal ou bem, essas companhias sobreviveram.

Agora é a vez da indústria de software começar a ver a aposentadoria daqueles profissionais que a construíram. Aqueles jovens que idealizaram suas empresas em garagens e passavam noites programando embalados por coca-cola e acid rock já estão com seus netos e começam a rumar para os chinelos e a cadeira de balanço.

Bill Gates é apenas o primeiro grande nome do setor de software que vai abandonar o escritório por decisão própria. O anúncio veio à público em junho de 2006, quando a Microsoft divulgou que – a partir de julho de 2008 – Gates teria concluído sua transição, deixando o dia-a-dia da companhia para dedicar mais tempo ao seu trabalho na Bill & Melinda Gates Foundation. A partir do mês que vem, ele estará ligado à companhia apenas como presidente do conselho e conselheiro em projetos de desenvolvimento.

Transformação

O processo de transição durou dois anos para garantir uma transferência segura e suave de responsabilidades. Em junho de 2006, Ray Ozzie assumiu o cargo de CSA (chief software architect) e, desde então, vem trabalhando em conjunto com Gates em todos os projetos que envolvam arquitetura técnica e de produto.

Na mesma ocasião, Carig Mundie assumiu o novo cargo de chefe da área de pesquisa e estratégia da Microsoft, e também passou estes dois anos trabalhando próximo a Gates para assumir a coordenação de todos os esforços de pesquisa e incubação da empresa. O cargo de CEO já era ocupado por Steve Ballmer há oito anos.

Apesar de todo o processo, fica uma dúvida: a Microsoft vai sofrer sem o líder que é automaticamente identificado com a marca? O primeiro a negar a possibilidade é Michel Levy, presidente da Microsoft Brasil, para quem Gates terá uma presença quase espiritual na companhia, que ainda vai se beneficiar da visão dele. “O que vemos é uma transformação da liderança e, de outro lado, a continuidade da vocação e da inspiração que ele trouxe para a empresa”, afirma.

“Em uma organização do tamanho da Microsoft, a real capacidade de influência do presidente é pequena. Teria impacto se fosse uma saída sem planejamento”, concorda Alfredo Pinheiro, diretor geral da consultoria Compass Management no Brasil. “Sair depois de uma gloriosa carreira, com a empresa saudável é uma coisa. Ser exonerado pelo conselho após um desempenho decepcionante é outra”, acrescenta, referindo-se a outras famosas experiências de ‘aposentadorias’ na indústria de TI.

Geraldo Coen, professor da história da tecnologia e profissional experimentado do setor com passagens por diversas empresas, fala sobre a experiência de trabalhar na Microsoft no momento em que a empresa estava se estabelecendo no Brasil. Tendo passado até por entrevista de emprego com Bill Gates, além de outros encontros pessoais com ele, o especialista acredita que a transição na Microsoft será tranqüila, especialmente por conta de quem vai assumir a posição de Gates.

“Nos primeiros três anos, era Gates quem vinha para o Brasil. Depois, apenas o Ballmer estava presente nas reuniões. Em 1989, a Microsoft já era muito Ballmer”, conta. Pinheiro concorda. “O substituto importa muito. Nesse caso, o [Steve] Ballmer é a cara da Microsoft desde que assumiu o cargo de CEO. Gates atua mais como um benemérito, como representante de software na alta sociedade, do que um administrador da empresa”.

Para Laércio Cosentino, presidente do grupo Totvs, a aposentadoria de Gates acontece no momento em que está em curso a segunda grande fase da história da TI, com foco na disponibilização, recuperação e uso das informações através da convergência digital. “Bill Gates representa o grande marco da primeira fase da história da tecnologia da informação, a da disseminação do uso do computador. Mas esta segunda fase está sob a coordenação de outros ícones. Por isso sua aposentadoria é algo que o mercado irá assimilar rapidamente”, afirma.

Além da criação, a passagem de Gates pelo mercado de TI marcou também por sua perspicácia em negócios. “Freqüentemente ele é apontado como um guru tecnológico, mas acho que se destacou mais como homem de negócios. Ele sempre atuou com muita agressividade para avançar nos mercado de interesse da Microsoft”, acredita André Fonseca, presidente da Virtus.

Horácio Fialho Moreira, consultor da Plano Tecnologia, também destaca lances do homem de negócios, “como quando a Microsoft enfrentou e superou produtos que eram melhores tecnicamente, como o Microfocus Cobol ou quando fez um acordo altamente vantajoso com a Sybase que possibilitou um desenvolvimento muito rápido do Microsoft SQL Server”.

A lista de Fialho inclui ainda a batalha incrível para tornar o Windows NT um sistema operacional para servidores, quando a mídia achava uma missão muito difícil, dizendo que “a Microsoft é boa para a interface do cliente”. Ele lembra que consultores e profissionais de alto nível técnico defendiam, à época, soluções mistas – os chamados Open Systems -, onde o Unix ocuparia o lugar do servidor e o Windows ficaria somente no cliente.

“Mas o Gates insistiu e o NT ocupou o espaço que na seqüência passou a ser do Windows Server, hoje um produto consagrado”, diz. O executivo lembra ainda de vitórias ainda mais surpreendentes, como as do Internet Explorer contra o Netscape Navigator e do MSN Messenger contra o ICQ. “Em ambos os casos, a Microsoft foi acusada de dumping, mas no fim das contas, nada ficou provado, nem a empresa ficou prejudicada em sua célere caminhada rumo ao sucesso”, afirma Fialho.

Trabalho de caridade

Dos vários milionários e bilionários que surgiram com a indústria do software e do computador pessoal, a maioria continuou na ativa, seja nas empresas que fundaram ou construindo uma carreira nas corporações do Vale do Silício. “Dessa geração, apenas o Wozniak (co-fundador da Apple) e o Allen (co-fundador da Microsoft) foram viver como milionários. O que normalmente acontece com quem enriquece assim é trabalhar até uns 40 anos e viajar pelo mundo”, comenta Coen.

O professor ressalta que os fundadores da indústria de TI que ficaram na ativa, estavam tão envolvidos com a atuação no setor que demoraram até para assumir funções tradicionais de bilionários. “Gates demorou para começar uma fundação de caridade. O Rockefeller partiu para a caridade com o seu primeiro bilhão”, comenta.

Na rede social CW Connect - a primeira comunidade do Brasil criada para profissionais de tecnologia e telecomunicações - Horácio Fialho Moreira diz em seu blog: "...mesmo com uma
trajetória admirável, Bill Gates, como todo ser humano, não é
infalível, e se aposenta vendo sua empresa ser superada pela Google, a
empresa de tecnologia mais valorizada no mundo hoje". Acesse
também e participe .

SELO_VOLTAR.jpg

Deixe uma resposta