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Confissões de um programador de Cobol

Aos 40 anos, um programador se viu diante da oportunidade de começar a programar em Cobol e, gostou. Confira a avaliação sobre a "antiga" linguagem.

Computerworld

26/02/2008 às 8h25

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Em meados do ano passado, Michael Vu, 40 anos, consultor independente de TI, viu-se em uma posição totalmente inesperada no meio da sua carreira.

Ele havia assinado um contrato de três semanas para ajudar um grande varejista dos Estados Unidos em um projeto de relatório corporativo. O trabalho inicial foi tão bem sucedido que o projeto foi prorrogado. Subitamente, lá estava Vu, mergulhado no mundo Cobol.

Sim, Cobol, o dinossauro da programação que foi “quente” pela última vez nos anos 80. Cobol, famoso por sua sintaxe pesada e seu código interminável. Aquele Cobol.

Embora nunca tivesse trabalhado com Cobol antes, Vu sentiu vontade de aprender. Em meio a previsões de aposentadoria em massa dos baby boomers (aqueles nascidos no pós-guerra mundial), ele vislumbrou uma oportunidade. “Eu disse a mim mesmo: ainda que apenas 0,1 por cento destes baby boomers sejam desenvolvedores em Cobol, um grande mercado será aberto.”

À medida que o trabalho de Vu no projeto prosseguiu, ele se deu conta de que a organização tinha 10 anos de código em Cobol. E a fase seguinte do projeto dependia desse código.

Então Vu, que tinha formação e experiência em C e C + +, arregaçou as mangas e aprendeu rapidamente. E conquistou um conhecimento profissional que aumentou seu valor estratégico para a organização. “Acabei passando de um codificador comum, sem nenhuma idéia de como o negócio funciona, a alguém em quem a companhia confia para extrair o conhecimento de negócio de sua base de código”, revela. Agora ele passa 30% do seu tempo trabalhando em Cobol e espera que continue assim ou até aumente.

Para Vu, trabalhar em Cobol é um pouco como descobrir uma arte que estava perdida. “O que mais me impressionou foi que mesmo quando meu cliente está usando as tecnologias Java, C + e Visual Basic mais recentes, Cobol é fortemente utilizado.”

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CITAÇÃO
“Sei que é um jogo de veteranos, mas gosto da posição de ser o mais jovem no mercado.”
Brian Vance, 30 anos, Grange Insurance

O que está acontecendo aqui? Parafraseando Mark Twain, os relatos sobre a morte de Cobol foram bastante exagerados.

Cerca de 75% dos dados de negócio existentes no mundo ainda são processados em Cobol e aproximadamente 90% de todas as transações financeiras estão em Cobol, de acordo com Arunn Ramadoss, chefe do programa de conexões acadêmicas da Micro Focus International, que fornece software para ajudar a modernizar aplicações Cobol.

Devido à vasta base instalada, seria dispendioso demais tentar substituir todo este código, explica Ramadoss. Em vez disso, muitas empresas estão buscando meios de integrar Cobol a aplicações mais novas.

No entanto, os programadores em Cobol mais experientes, que melhor podem executar este trabalho, estão morrendo ou, pelo menos, se aposentando.

Em uma pesquisa realizada pela Micro Focus com seus clientes no ano passado, mais de 75% dos CIOs disseram que precisarão de mais programadores em Cobol nos próximos cinco anos e 73% já estavam tendo dificuldade para encontrar profissionais com formação em Cobol.

Envelhecendo

“Sem dúvida, é um desafio encontrar um desenvolvedor de Cobol que não esteja perto da idade de se aposentar”, concorda Dale Vecchio, vice-presidente de pesquisa de desenvolvimento de aplicação do Gartner. Em 2004, a última vez que tentou contar os programadores de Cobol, o Gartner estimou que havia cerca de 2 milhões deles no mundo e que o número estava diminuindo 5% ao ano.

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“Cobol irá declinar rapidamente nos próximos 10 anos ... à medida que os baby boomers se aposentarem e houver uma ‘recarga’ insuficiente da população”, sentencia Vecchio.

Como a experiência de Vu demonstra, isso pode representar oportunidades de crescimento na carreira para profissionais de TI dispostos a aprender e trabalhar em Cobol.  (Quanto tempo essas oportunidades vão durar, porém, é tema de debate).

Entrevistamos programadores Cobol e empresas envolvidas neste campo e concluímos que o mercado, atualmente, suporta dois tipos de carreira:

- Um papel emergente em que o programador atua como uma ponte entre código Cobol e novas aplicações. Tal função requer pessoas que entendem Cobol, as regras e os processos de negócio nos quais antigos programas Cobol se baseiam e linguagens mais modernas como Java.
- Um caminho de programação mais tradicional, em que o funcionário mantém e corrige antigo código Cobol além de escrever código novo, ainda em Cobol.

O papel de ligação de Cobol pode ser um caminho profissional interessante, acredita Ramadoss. “Cobol não pára em Cobol. Você pode integrá-lo a qualquer tecnologia moderna.”

Com o aparecimento de arquiteturas orientadas a serviços (a sigla SOA em inglês), as organizações são capazes de reutilizar seu código Cobol com mais facilidade, ressalta Nate Murphy, presidente da Nate Murphy International, empresa de serviços profissionais TI.

Aos 66 anos, Murphy, que tem décadas de experiência em mainframe e Cobol, vê um ressurgimento do valor de Cobol graças ao aparecimento de SOA e do Language Environment da IBM, que provê um ambiente de runtime comum para combinar muitas linguagens diferentes, inclusive Cobol .

“Agora você pode estender e adicionar sub-rotinas para outros recursos baseados na Web de que precisa”, diz ele. “De repente, você tem um ativo valioso nestes antigos programas Cobol e pode estendê-los e expandir sua capacidade sem escrever código novo.”

O outro caminho profissional é a função de programação mais tradicional: manter e corrigir código antigo, bem como escrever novo código Cobol. Embora algumas empresas agora estejam transferindo este tipo de trabalho em Cobol para lugares como a Índia – em especial a manutenção de código antigo - muitas querem conservar um certo número de programadores nos Estados Unidos, principalmente se os cargos forem essenciais para manter sistemas críticos ao negócio em funcionamento.

Essa é a posição em que se encontra Stacy Watts, 28 anos, desenvolvedora sênior da Nationwide Insurance Ela escreve código Cobol há cerca de sete anos e em 2007 a empresa ofereceu-lhe a oportunidade de supervisionar remotamente uma equipe de programadores na Índia. Watts projeta o programa e depois encaminha o trabalho de codificação para os  programadores sediados na Índia, além de executar uma parte ela mesma.

Watts não está preocupada que seu trabalho possa ser terceirizado. Mesmo com os programadores offshore, “não temos pessoal suficiente para realizar todo o trabalho”, constata. E mais, ela considera a oportunidade de chefiar a equipe da Índia como um passo em direção a um cargo de gestão.

Apesar de ter estudado várias linguagens de programação na faculdade, incluindo Visual Basic, C e Java, Watts se encaminhou naturalmente para Cobol. “Foi o mainframe que veio mais fácil até mim”, reconhece. “Ele fez mais sentido para mim.”

Os programadores de Cobol, freqüentemente, mencionam a segurança no emprego como um dos atrativos de sua opção de carreira. Brian Vance, 30 anos, programador de mainframe da Grange Insurance, começou na empresa há cinco anos mantendo e atualizando antigo código Cobol. Hoje, ele desenvolve novo código Cobol à medida que à medida que a seguradora se expande para vários estados do país.


CITAÇÃO

“Fico me segurando no teclado com as duas mãos e eles ficam tentando me arrancar.”  John Walczak, 31 anos, Sallie Mae

O mais jovem dos cerca de 20 programadores de Cobol da empresa, Vance antevê uma carreira estável e segura. “Sei que é um jogo de veteranos, mas gosto da posição de ser o mais jovem no mercado”, admite. “Haverá pessoas se aposentando e ninguém para ocupar seus postos. Portanto, creio que a estabilidade no meu trabalho é a melhor que pode existir.”

John Walczak, 31 anos, programador de Cobol na Sallie Mae, também se sente satisfeito e seguro em seu trabalho. Quando se formou da universidade, Walczak queria trabalhar em projetos relacionados à web. Mas a Sallie Mae contratou-o para trabalhar com Cobol e prometeu que ele poderia se movimentar na empresa e fazer outras coisas.

Depois de alguns anos, ele realmente teve a oportunidade de mudar para uma equipe que estava desenvolvendo um Web site. Mas, para sua surpresa, Walczak não gostou. “Pensei que iria criar páginas na web e fazer gráficos. Mas essas coisas já são pré-fabricadas”, conta. Em vez disso, ele começou a criar código “nos bastidores – algum código . Net e muito Visual Basic”. Walczak decidiu voltar para programação Cobol.

Agora, a empresa tenta convencer Walczak a assumir um papel mais de ligação. Trabalhando na Sallie Mae há mais de oito anos, ele entende como os sistemas da companhia funcionam. “Eles querem que eu use esse conhecimento para ajudar no desenvolvimento e no design de projetos.”

O problema é que Walczak não tem certeza se quer mudar. “Adoro programação. Adoro codificação”, confessa. “Fico me segurando no teclado com as duas mãos e eles ficam tentando me arrancar. Não quero ir.”

Cobol: indo embora, mas quando?
A maioria dos observadores da indústria concorda que uma dose de formação em Cobol pode impulsionar uma carreira no curto prazo. Mas será que Cobol ainda existirá quando você estiver em idade de se aposentar?

As empresas que atuam no mercado Cobol gostam de apontar para as estatísticas – por exemplo, que 75% dos dados de negócio existentes no mundo ainda estão em Cobol - para provar que Cobol e, portanto, empregos em Cobol subsistirão durante muitos anos.

Dale Vecchio, analista do Gartner, não está tão certo disso. “Vejo as organizações mais interessadas em se libertar de mainframes IBM e Cobol”, afirma Vecchio. “É cada vez mais aceito que elas podem migrar do mainframe para o Windows ou Unix ou Linux. Espero que isso prossiga ao longo dos próximos cinco a sete anos.”

Além disso, cada vez mais, as grandes empresas estão substituindo aplicações de mainframe personalizadas, como recursos humanos ou gestão da cadeia de abastecimento -- freqüentemente escritas em Cobol – por software empacotado de fornecedores como a Oracle, observa Vecchio.

Muitas oportunidades de emprego

No entanto, a programação Cobol continua sendo uma habilidade útil para profissionais de TI. “O mundo não precisa de 100 mil novos programadores de Cobol, precisa de muitos milhares de novos programadores de Cobol”, diz Drake Coker, chief technology officer para Cobol na Micro Focus International.

 “Há muito trabalho por aí para as pessoas que sabem casar um novo sistema e suas novas tecnologias com um sistema existente”, acrescenta.

Outros destaques do COMPUTERWORLD:
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Como colocar Cobol na caixa de ferramentas que você possui é outra questão. Cada vez menos faculdades e universidades norte-americanas oferecem formação em Cobol. Nos últimos dois anos, tanto a IBM quanto a Micro Focus lançaram iniciativas para incentivar as universidades a treinar mais programadores em mainframe. Através destes programas, as empresas disponibilizam tecnologia e courseware gratuitamente.

Embora estes esforços talvez mantenham alguns cursos de Cobol em atividade, Vecchio não acha que eles contribuirão muito para evitar o declínio dramático de Cobol. Os esforços, diz ele, “são escassos e tardios demais”.

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