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Brasil deve ser referência em software livre nos próximos anos, diz especialista

Sady Jacques, um dos coordenadores do Fórum Internacional de Software Livre (FISL 8.0), comenta que qualidade dos técnicos e desenvolvedores locais deve ser a chave para o crescimento.

Camila Fusco

12/04/2007 às 7h30

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O Brasil tem potencial para estar entre os dez países referência em software livre em um horizonte de cinco anos, o que deve ser fomentado especialmente pela qualidade de seus desenvolvedores e técnicos envolvidos no assunto. Essa é a percepção de Sady Jacques, coordenador-geral da Associação Software Livre.org, uma das organizadoras do Fórum Internacional de Software Livre (FISL), que realiza sua oitava edição nesta semana em Porto Alegre (RS).

Na avaliação do executivo, esse movimento de reconhecimento da qualidade do profissional brasileiro já começou, e o País começa a despontar como pólo exportador de talentos nessa área. Em entrevista exclusiva ao COMPUTERWORLD, Jacques comenta as perspectivas para o código aberto no Brasil e também detalha as expectativas sobre o FISL 8.0, que acontece até o próximo sábado (14/04) e espera reunir até 7 mil pessoas. Leia os principais trechos:

COMPUTERWORLD – Desde a primeira versão do Fórum Internacional de Software Livre, oito anos atrás, o que mudou para a edição atual?
Sady Jacques – Podemos dizer que houve um amadurecimento no processo. Iniciamos naquela época tentando criar um espaço de interlocução, um movimento que envolvia usuários, desenvolvedores, universitários, enfim, um conjunto de pessoas que estavam começando a desenvolver software livre e não tinha espaço mais organizado para fazer uma celebração. Esse espaço vem cumprindo a função desde então e, mais recentemente, vem procurando dar conta de uma série de demandas que o relacionamento com o conceito de software livre acaba construindo, como questões sobre o que fazer com o código desenvolvido e como torná-lo economicamente viável. Esse amadurecimento produz resultados práticos. Antes tínhamos em fase incipiente um sistema operacional para desktops e hoje temos uma série de opções. O código aberto se aprimorou, está mais competitivo. E é por essa competitividade que podemos conversar de forma mais objetiva sobre os resultados.

CW – Pode-se entender então que o fórum está mais profissional e tem sido encarado por muitas empresas como centro gerador de negócios?
Jacques– Acredito que sim. Para as grandes empresas as oportunidades nascem justamente da percepção desses movimentos de popularização do código aberto. A partir da demonstração de interesse do mercado. Por seu lado, esses players têm visto que cada vez mais o segmento de software livre se caracteriza como uma alternativa viável de negócios.

CW – Como você avalia a aproximação de empresas tradicionalmente conhecidas por serem avessas ao software livre com outras entusiastas do modelo, como no acordo da Microsoft com a Novell?
Jacques – É natural que haja uma percepção da importância que o software livre vem tendo nos negócios. Acredito que seja natural, da mesma forma, esse novo tipo de interlocução, embora isso não seja sinal de que essas empresas estejam concordando com o software livre. Acho que nesse momento as empresas estão começando a pensar nessa possibilidade, não no encerramento de um ciclo de um software para outro, mas uma visão de desenvolvimento mais colaborativo, que vai desembocar em um modelo de negócios focado nos serviços.

CW – Já é possível ter algum balanço sobre as oportunidades geradas pelo fórum em todas as edições até aqui?
Jacques – Temos uma dificuldade natural, que é a das instituições falarem dos investimentos e retornos. Mas no relacionamento com essas instituições, temos percebido muita satisfação e disposição para estabelecer relacionamentos novos. O fórum ainda carece de indicadores e números mais precisos do ponto de vista mais de mercado, mas intuitivamente percebemos resultados cada vez mais positivos.

CW – De alguns anos para cá, as discussões sobre software livre ganharam dimensão também na esfera pública. Qual a participação do governo na popularização do software livre, em sua avaliação?
Jacques – Acredito que o governo tem estimulado bastante a discussão do tema e fomentado o envolvimento no assunto, especialmente após o decreto de 2003 que estabelece diretrizes recomendando o uso e a implementação do software livre em seus órgãos e autarquias. Além disso, houve popularização maior junto ao usuário convencionado em virtude das políticas do Computador para Todos e das iniciativas de inclusão digital, como o Casa Brasil. Isso estimula bastante a discussão do tema.

CW - Qual o cenário que pode ser estimado para o software livre nos próximos anos?
Jacques – O Brasil tem algumas coisas muito interessantes, algumas virtudes maravilhosas e algumas dificuldades tremendas. É difícil fazer um prognóstico no âmbito de desenvolvimento econômico que vai permitir a decolada ou não. Já do ponto de vista do desenvolvimento de código, vejo isso como uma grande oportunidade. Temos técnicos bastante bons e acredito que estaremos entre os dez países principais em qualidade de código aberto nos próximos cinco anos.

CW – O senhor acredita que o Brasil possa se tornar, em breve, referência internacional pela qualidade de seus técnicos em código aberto?
Jacques – Acredito que hoje o Brasil já seja um pólo exportador de especialistas e desenvolvedores em código aberto. Cada vez mais temos visto pessoas indo para a Europa e outros lugares do mundo a convite de empresas para trabalhar em projetos abertos.

CW- Quais oportunidades próximas devem existir em relação ao software livre?
JacquesHouve uma curva de crescimento nos últimos anos sobre o software livre, mas não é um processo completo. Acredito que ainda esteja em evolução por mais uma década. Esse é um tempo que eu imagino suficiente para que a consolidação aconteça em todas as esferas. Nesta primeira década de popularização conseguimos chegar a um ponto em que o software livre é considerado uma alternativa viável em algumas esferas, mas ainda precisa evoluir. Não se trata de eliminar o código proprietário, mas tornar o código aberto uma opção tão boa quanto, com qualidade dentro do código, segurança e transparência, pelo fato de ser aberto, ainda maior.

CW – E essa evolução está nas mãos de quem, especificamente?
Jacques Tudo depende do que nós estamos fazendo agora. Nos últimos dois anos procuramos passar uma imagem ao fórum sobre um local onde as demandas e ofertas podem se encontrar. Temos conhecedores de software livre em profundidade, ao mesmo tempo em que existem produtos e serviços nesse segmento para implementar uma série de negócios. O que acontece é que o prosseguimento disso se dará de forma relativamente natural e orientada pelo mercado. Acredito que as próprias pessoas não especializadas vão começar cada vez mais a pensar naquilo que podem eventualmente não gastar com software. A partir do momento que o conhecimento chegar a este nível, haverá uma consolidação do código aberto.

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